Tendo abandonado a cidade grande, certa tarde,
e cansados de suas andanças, Mestre Peregrino e seus amigos descansavam à
sombra de uma frondosa árvore.
E o Peregrino lhes disse: Amigos, senti, com
vossos pés nus, esta terra maravilhosa, e ouvi a música das altas ramagens
desta árvore, oscilando ritmicamente ao vento, e vede a dança das folhas
brilhando ao cálido sol desta tarde abençoada. Não vos deleita essa beleza e
essa harmonia?
Quando brotar uma flor, olhai-a com reverência;
quando cair uma folha, examinai-a com atenção; quando cantar um pássaro,
admirai a beleza de seu canto. Pois não percebeis a presença do Desconhecido
em tudo, não vedes que tudo é misterioso?
Entretanto, pareceis não perceber esse
maravilhoso espetáculo, pois vejo-vos angustiados; algo, decerto, está
atormentando vosso espírito.
E um de seus companheiros respondeu:
“Mestre Peregrino, a dúvida consome nossa alma,
e não temos olhos nem ouvidos para as árvores, para a terra e nem para o vento.
Não sabemos onde havemos de dormir esta noite, nem para onde iremos amanhã, e
sentimos falta do conforto de uma esperança no futuro.”
“Sim”, continuou outro companheiro, “quando
viemos a ti, imaginávamos uma vida melhor, contudo nada nos prometeste, e,
hoje, a falta de uma religião nos angustia.”
“É verdade”, atalhou um terceiro, “e, por
sinal, estamos contigo há um bom tempo, e até hoje não sabemos sequer se tens
ou não alguma religião.”
E o Peregrino respondeu:
Sob o nome de religião, para muitos oculta-se
um balcão de negócios, e para outros, um escudo para seu medo animal, e para
outros, ainda, um meio de dominação de animais medrosos. Os homens sentem-se
criaturas imundas, e, querendo fugir de sua podridão, criam o Ideal distante de
si mesmos, através de deuses cobertos de atributos humanos, e depois passam a
vida toda tentando se aproximar deles pela obediência e devoção.
Esses deuses, porém, carregam a marca de sua
origem humana, e, assim, foram convertidos em juízes de seus próprios
criadores! Por isso, os homens falam deles com temor, e, ao projetar seus
planos para o futuro, não se esquecem de acrescentar, pressurosos: “Se Deus
quiser”, muitas vezes, em causas que resultam em prejuízo e destruição de
outros.
Quando a vida lhes sorri, dizem: “Graças a
Deus”, e quando as coisas vão mal, dizem: “Devemos ter pecado em pensamentos ou
atos, pois Deus se esqueceu de nós”, ou, sentindo-se culpados, dizem: “Decerto,
merecemos nosso sofrimento, pois nenhum homem é bom.” E, arrependidos, pedem
perdão, dizendo: “Somos fracos e pecadores, perdoa-nos!”
Porém, esse arrependimento está contaminado
pelo desejo de escapar do castigo, e, mesmo sob tamanha contrição, existe ainda
a corrupção causada pelo desejo de adquirir merecimentos que justifiquem
futuras recompensas!
Para o homem livre, porém, religião é a relação
direta com a Mente Universal, sem a mediação das palavras, doutrinas e crenças;
e, para tal homem, Deus é alegria pura, com a qual ele está em comunhão; ele
abandonou a si mesmo e entregou seu caminho, e já não é um desesperado que
busca a Deus para pedir por seus interesses.
Para vós, porém, a religião é apenas um freio e
um meio de penosa acumulação de virtudes, visando alcançar alguma coisa,
produzindo, assim, indivíduos temerosos e ajustados a um padrão. Sentindo-se
separados de Deus, os fiéis pelejam inutilmente pela união; sentindo dúvidas,
abafam tais pensamentos pela fé, e, sentindo-se maus, teimam em fazer-se bons,
através da repressão interior; por isso, eles conhecem apenas a dor do conflito
interno, e a esperança de conseguir a paz no futuro.
Mas, a mente dos seguidores religiosos ainda
não sofreu uma transformação profunda; falta-lhes compreender que o pensamento
calculista produz o ato intencional, e que este nunca é inocente.
E, sem inocência, não pode haver religião.
Pois, amigos, existe um ponto, na mente humana,
a partir do qual já não há dúvidas nem sentimento de separação. Para o homem
livre, é a felicidade, e também para o escravo. O homem livre, porém, está
desperto, e o escravo está inconsciente, e essa inconsciência o faz esquecer-se
de suas chagas.
E a religião, para muitos, tanto quanto o
trabalho, o álcool ou as drogas, é o caminho do auto-esquecimento, onde os
conflitos e temores desaparecem temporariamente, de modo induzido e
intencional; entretanto, eles ainda continuam lá, ressurgindo com força quando
menos se esperar.
O homem verdadeiramente religioso conhece a
liberdade sem a necessidade de nenhum esforço, mas o seguidor de uma religião,
por mais esforço que faça, não tem pode ser livre, pois está atrelado à idéia
de atingir metas no decurso do tempo, ao desejo de recompensa, e ao medo de
castigo.
Entretanto, perguntais-me se tenho alguma
religião. Se religião significa doutrinas, mandamentos, obediência, prêmios e
castigos, então não tenho nenhuma religião, pois muitos há que se prostram,
macerando os joelhos, e imploram por suas almas, mas ao sair dos templos
revelam a mesma intolerância e a mesma maldade de sempre, morrendo ou matando
em nome de suas convicções religiosas, sob as bênçãos de seus sacerdotes.
Queria, entretanto, ver surgir uma nova
religião, que não tem nome nem templos, e em que não há dogmas, nem
mandamentos, nem doutrinas, e onde não se recusa o sofrimento!
Uma religião para a qual Deus não é um conceito
humano, que evoluiu através dos tempos, mas a energia universal criadora, que
não cabe na memória humana, e por isso é o eternamente Desconhecido, sobre o
qual nada se pode dizer;
Uma nova religião, onde não se prometem
recompensas, nem se ameaça com futuras punições; nenhum esforço é requerido,
nem é necessário ter fé;
Uma nova religião, principalmente, onde o homem
chega com o coração cheio de feridas purulentas e a mente cheia de confusão, e,
percebendo ser ele próprio, e não demônio nenhum, o responsável pela doença e
pelo seu caos interior, morre alegremente para si mesmo, surgindo em seu lugar
uma consciência amorosa e pacífica.
Então vos convido, amigos: não quereis uma
transformação radical em vós mesmos? Não quereis participar dessa nova religião
comigo? Assim, se estiverdes cansados das mentiras com que os homens enganam a
si mesmos, com a tácita concordância e aprovação de todos; e se não mais
vos seduzir a promessa de recompensas futuras, e se puderdes encarar vosso medo
ancestral, e vosso coração cansar-se de fugir da dor;
E se, sobretudo, quiserdes abandonar o
homúnculo tirano que governa vossa mente e endurece vosso coração, então vinde
com alegria, pois essa nova religião não quer fiéis, mas sim amigos generosos,
sem que ao menos saibam o que é bondade, e felizes, sem saber o que é
felicidade, e de alma lavada pela visão de sua própria nudez, sem, contudo,
saber o que é pureza.
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