Havia um homem que andava de cidade em cidade,
conversando, com as pessoas que dele se aproximavam, a respeito da vida, e da
perigosa travessia do ser humano pela vida.
Sobre ele, as opiniões eram muito controversas,
havendo quem o considerasse um sábio, bem como aqueles que viam nele um
enganador ou um falso profeta, perigoso para a sociedade.
Com o passar do tempo, porém, granjeou uma
pequena comunidade de discípulos e pessoas interessadas, debatendo com eles
sobre as profundezas da alma humana, tornando-se públicos os seus ensinamentos.
Mas ninguém lhe sabia o nome, por isso o chamavam de “o Mestre Peregrino”, pois
não demorava muito tempo em nenhum lugar.
E esse nome foi tomando vulto entre as pessoas,
que, com simpatia, aversão, ou por simples curiosidade, ouviam-lhe as
mensagens.
E, tendo ouvido que esse homem estava de
passagem pela cidade grande, um homem rico, dono de muitas propriedades,
resolveu procurá-lo, cheio de angústia e de questionamentos. Disse então:
“Mestre, a vida foi generosa comigo. Trabalhei
duramente, é verdade, desde muito moço, mas, decerto, algum anjo me assistia, e
meus esforços foram recompensados, pois meus empreendimentos frutificaram.
Entretanto, já nesta madura idade, vivo em apreensão face à instabilidade das
coisas neste mundo.”
“Tive que enfrentar a incompreensão em minha
própria casa. Diziam que eu era duro e só pensava nos negócios, dando-lhes toda
a minha atenção, sem tempo para ver crescerem meus filhos. Não viam que era por
eles que eu me sacrificava, visando dar-lhes uma qualidade de vida que eu mesmo
não tive. E hoje não colho mais do que a ingratidão, com filhos indolentes,
ambiciosos e sem nenhum afeto.”
“Além disso, a riqueza nunca me trouxe paz. Os
seus desdobramentos, isto é, as consequências da riqueza, trouxeram-me inúmeras
situações de conflito, preocupações e dor. As coisas flutuam, e o que antes
parecia bom torna-se uma fonte de desgostos. Ultimamente, surpreendo-me
questionando a falta de sentido de tudo isso, e, ao ver a doença, a velhice e a
morte se aproximarem, sinto que caminho para o desconhecido sem saber realmente
nada, por isso sinto medo.”
Respondeu o Peregrino:
Correndo sem parar atrás de objetivos externos
para sua realização, o homem está sempre em perigo; a tensão, ansiedade e o
medo são seu estado normal. Não estando centrado em sua verdadeira
natureza, o homem imagina uma felicidade distante e passa a persegui-la
cegamente, movido pela esperança de recompensa. Porém, qualquer alvo a ser
atingido implica em tempo, esforço e incerteza. E a vida do homem é feita de
metas a serem atingidas.
Para superar os obstáculos que surgem, o homem
se impõe uma disposição férrea, sendo necessário, inúmeras vezes, ser duro e
magoar muitas pessoas, pois ele só vê o seu objetivo final. Por isso, a pessoa
vai perdendo a sensibilidade e endurecendo seu coração. Sua mente está ocupada
dia e noite em seus negócios e interesses; mas, quando os infortúnios o
atingem, ou a seus entes queridos, a dor e a tristeza vêm sombrear sua
existência, e ele anseia por uma felicidade isenta de temores e desgostos.
Pois o homem, em seu egocentrismo, acredita que
a energia universal existe para apoiá-lo em seus intentos! E, como um casulo de
energia, enche-se de si mesmo e pretende servir-se do Desconhecido para atingir
seus propósitos, para sua própria satisfação.
E as religiões servem-lhe de apoio nessa
insanidade. Mas, quando tudo ameaça desmoronar, pergunta, ansioso: qual é
o sentido desta vida?
Então eu lhe digo: o homem não apenas veio do
Desconhecido: ele próprio é o Desconhecido, travestido de conhecido, e,
para seu infortúnio, totalmente preenchido por este. E, no breve período que
por passa por este belo Planeta, fica em perpétua luta com as condições
externas e internas, sem tempo para indagar com profundidade qual é sua própria
natureza, e tratando seu próprio Ser como a um estranho.
Sempre apressado, perseguindo mil objetivos,
está sempre pronto a ferir a quem os contraria, a sofrer pelos fracassos
colhidos e a regozijar-se pelos sucessos obtidos.
Com mil opiniões e interesses egoístas,
agrada-se de quem os aprova, e se aborrece com quem deles discorda; e, assim,
produz inimigos sinceros em seu ódio, porém não obtém amigos verdadeiros em sua
amizade.
Essa é a aventura humana, e, assim, o homem
permanece em estado de profunda ignorância. Assim, se você sente medo por rumar
para o Desconhecido, eu lhe pergunto: poderia isso ser diferente do que é? Você
não percebe? o ser humano não quer, verdadeiramente, encontrar a paz,
realizando a Deus em seu coração; ele quer apenas sua própria continuidade,
conforto, segurança e prazer.
E, no momento em que tais coisas são ameaçadas,
ele, como uma entidade separada de Deus, pede e implora por si mesmo; porém, é
exatamente o sentido do “si mesmo” como fio condutor do pensamento egocentrado,
que precisa desaparecer, para surgir a paz interior. Não é possível ao homem,
através de uma decisão consciente, chegar ao Desconhecido, pois é justamente o
mecanismo de avaliação e escolha a causa da separação.
Mas, ele pode chegar até as raízes dessa
separação, origem de todos as suas dores, através do autoconhecimento. Esta,
porém, é uma árdua jornada, e poucos são os que se dispõem a por enveredar por
ela.
Entretanto, o homem rico afastara-se para
atender seu celular, que o chamava insistentemente pelo "vibracall" — e,
informado que suas ações na bolsa estavam despencando, retirou-se preocupado,
pensando consigo mesmo:
“Não sei o que vim fazer neste lugar; esse
homem deve ser louco. Eu pensei que ele fosse me orientar para melhor me
conduzir nos relacionamentos, onde todos cobiçam minha riqueza, e ele vem me
falar em separação e infortúnio!”
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