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Amigos, ouçam-me!
Sempre me considerei uma pessoa de bom senso,
como qualquer outro cidadão. Comprava e lia jornais e revistas, e ouvia o rádio
no carro, nas intermináveis horas de congestionamento de trânsito, acompanhando
os indicadores econômicos e ouvindo as notícias políticas, com suas intrigas e
jogos de poder.
Assistia religiosamente aos jogos de futebol,
entre moderadas cervejas com salgadinhos, e depois divertia-me, comentando os
resultados com os amigos. As novelas não me eram alheias, e assistia também aos
noticiários da TV. A corrupção no governo me indignava, e vibrava com as
vitórias esportivas de nosso país no exterior.
Acompanhava as campanhas beneméritas para
ajudar os menos favorecidos, e me emocionava ouvindo o testemunho dos pobres,
aos quais geralmente faltavam alguns dentes, agradecendo por um pacote de arroz
ou uma camiseta que receberam, como inegável demonstração de fraternidade de
nosso generoso povo.
Jamais me fartava do circo que a TV retratava
incansavelmente em sua programação, sempre visando o aperfeiçoamento das
instituições e o bem-estar do povo. E ainda dizia: “Que seria de mim se não
fosse essa abençoada programação ininterrupta e tão variada?”
Como todos, eu prezava os valores sociais como
liberdade, honestidade e caridade, considerando-os como ideais a ser atingidos
no decurso do tempo, e realmente eu me achava cada dia mais livre, honesto e
caridoso.
Quando os animadores do imenso auditório
nacional encareciam a importância de escolher alguém para dirigir os destinos
políticos da pátria, jamais faltei com meu voto nas urnas da democracia, embora
os bons tivessem muitas características dos maus, e os maus tivessem muitas
características dos bons, parecendo-me muito exígua a diferença entre os homens
de bem e os malfeitores, o que me causava uma certa confusão na hora de decidir
a qual deles dar meu voto, e quase sempre, depois, um grande
arrependimento.
Era um consumidor consciente, que evitava
crediários e compras desnecessárias. Trabalhava e poupava, como todo cidadão
normal, para melhorar de vida; e o dia de amanhã era lei definitiva na minha
mente, ainda que a preocupação com ele tenha me custado algumas perturbações
digestivas, que em nada, infelizmente, mudaram a ordem das coisas.
Quando me pediam um posicionamento a favor ou
contra qualquer coisa, sempre tive um “sim” ou “não” pronto para emitir,
carregado de argumentação, e todos entendiam, com alguns concordando e outros
não.
Quando morria algum ente humano poderoso ou
famoso na sociedade, comoviam-me as grandes reportagens de nossas atentas redes
de televisão, e chorava junto com o povo, lamentando o infortúnio.
Estranhamente, porém, não me causava grande
comoção ver dezenas de crianças abandonadas pelas ruas. Até que uma noite, ao
findar de uma grande chuva, encontrei-me transitando por uma região inóspita,
onde deserdados da sorte e salteadores se abrigavam.
E vi, sob os baixos de um viaduto, um homem
envolto em trapos malcheirosos, tendo ao lado um cão! O mendigo e o animal
aqueciam-se mutuamente, e dormitavam, imersos na noite escura, úmida e fria. Ao
lado, havia um velho caixote de madeira, à guisa de criado-mudo.
Era uma cena pungente, e fiquei condoído.
Aproximei-me, enojado, temeroso e um tanto envergonhado, e fui depositar algum
dinheiro sobre o caixote. Foi quando ele levantou o olhar para mim, revelando,
sob o aspecto maltratado e enegrecido, olhos grandes e assustados.
“Calma”, disse-lhe — “só vim lhe trazer esta
moeda”.
Ele nada respondeu, virou-se para o lado e
voltou a dormir. Esse foi o início do meu drama. Cheguei em casa cansado e logo
adormeci, tendo, porém, um sono incômodo e agitado. Sonhei que passava de novo
pelos baixos do viaduto, e via novamente o mendigo e o cão, que pareciam
dormir, em meio a uma estranha névoa. Até aí, o sonho parecia imitar a
realidade, com algumas distorções, como costuma acontecer.
Fui até lá para dar-lhe uma moeda, mas, quando
ele levantou o olhar para mim, vi, com imenso horror... o meu próprio rosto!
Saí dali apavorado, tropeçando. Nauseado e meio tonto, ouvi um transeunte dizer
“... esses pedintes são todos uns vagabundos, bêbados e drogados!”
A brutalidade do comentário foi outro choque.
Virei-me para responder-lhe qualquer coisa, mas, quando olhei para ele, vi de
novo a minha própria face! Corri e corri sem parar, até chegar, trêmulo e
suado, a um lugar estranho; já não reconhecia mais nada, e vi-me diante de um
horrível pesadelo. Sentia-me exausto e febril.
Olhando ao redor, vi, com espanto, miríades de escravos prostrados ante
um gigantesco Bezerro de Ouro mecânico, que abria e fechava uma boca
enorme, lentamente. Trazia uma inscrição ricamente lavrada numa tábua de prata,
dizendo: “Honra eterna à Riqueza e ao Poder”. A cada vez que se abria a
monstruosa boca, alguns sacerdotes jogavam pás cheias de dinheiro e pedras
preciosas lá dentro, dizendo: “Fortuna e a felicidade para os homens de boa
fé!” — e os escravos, em coro, respondiam: “Amém!”
Foi quando um dos participantes da estranha
missa me aconselhou:
“Amigo, neste país as pessoas de bem
ajoelham-se algumas horas por dia e suplicam, e com isso têm alguma chance de
progredir na vida.”
Atônito, perguntei: “Quem os escravizou?”
“Que quer dizer?”, replicou — “Somos homens
livres! Neste país, a liberdade é um dos valores maiores, e significa ir atrás
da felicidade. Mas nosso estômago é implacável, e temos também muitos outros
apetites a satisfazer.”
Perguntei então: “E a terrível injustiça da
sociedade não os oprime?”
“Não muito”, respondeu o homem — “pois o pão,
embora escasso, nunca falta, e quanto ao circo, dão-nos espetáculos contínuos,
com muitos entretenimentos e mensagens de esperança no futuro. E também temos a
religião, que nos traz grande conforto.”
“Pobres e ricos, neste país, se conhecem muito
bem”, continuou — “pois nos pobres há o desejo de enriquecer, de modo que
procuram imitar-lhes os procedimentos, e nos ricos há o medo de empobrecer, de
modo que vivem fazendo reformas para garantir ao povo um mínimo de participação
nas riquezas, acalmando os ânimos e evitando convulsões sociais.”
“Bem”, disse eu, — “mas e quanto aos
miseráveis, aos excluídos?”
“O tecido social está doente, e eles são as
chagas vivas e expostas dessa doença”, respondeu — “e são também os fantasmas
nos calcanhares da gente comum, a todos enchendo de culpa e horror — o que, em
doses controladas, ajuda a manter estável a sociedade.”
“Temendo a miséria absoluta”, prosseguiu — “o
povo aprende a reclamar menos e se esforçar mais para melhorar de vida. E, para
expiar a culpa, as instituições fazem campanhas e despertam no povo a
necessidade de obras caritativas, para remediar a miséria. E as pessoas,
incomodadas consigo mesmas, aliviam sua consciência doando o supérfluo, e
depois esquecem, continuando tudo do mesmo jeito.”
“É verdade”, respondi, pesaroso — “tudo o que
você diz é razoável, e em suas palavras vejo a mim mesmo.”
Então, o pesadelo acabou e acordei, com essas
palavras na mente "... vejo a mim mesmo... vejo a mim mesmo... vejo a mim
mesmo...".
Fiquei pensativo, tentando decifrar o
significado desse pesadelo. Depois de muito tempo, exclamei, de repente: “É
isso! Esta sociedade produz pessoas como eu, e pessoas como eu reproduzem a
mesma sociedade, e assim se preserva sua estrutura corrompida.”
Desde então, amigos, caminho por esta sociedade
como um estranho. Já não sinto do mesmo modo que antes; a visão de mim mesmo
não apenas como espectador, mas também como ativo participante e peça
fundamental desse circo de horrores, despedaçou alguma coisa dentro de mim.
Compreendi isso, amigos, e, espantado como um escravo a quem as algemas caíram
de repente, vejo que perdi a relação com todo esse mecanismo; já não o adoro, e
nem sequer o odeio.
E quando, na frugalidade de uma vida modesta e
desapegada, que toca aos que se esqueceram da ambição, a lembrança do amanhã
surge para me advertir de meu desatino, lembro-me de uma poesia antiga e de
beleza jamais superada:
“Olhai os lírios do campo...
eles não tecem, não trabalham e nem fiam;
e, contudo, em verdade vos digo
que nem Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como qualquer um deles”.
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