Certa manhã, estando Mestre Peregrino a debater
com seus companheiros, uma pequena multidão formou-se ao redor dele, para
ouvir-lhe os ensinamentos. E, durante uma revoada de pombas, aconteceu de
algumas delas fazerem suas necessidades em pleno vôo, caindo os excrementos
sobre alguns do grupo, e respingando também sobre ele.
Com um pano, alguém o limpou, e, rindo-se,
disse o Peregrino: Esse adubo tinha encontro marcado conosco e não sabíamos. E
é bom que os infortúnios venham sem prévio aviso, pois o tormento do homem, ao
tentar evitá-los, é muito pior do que eles próprios, e nesse tormento
transcorre a sua vida.
Um homem que se havia juntado ao grupo, porém,
disse-lhe: "Não passas de um impostor, pois, caso fosses realmente um sábio,
Deus havia de desviar de ti a sujeira que veio do alto."
E o Peregrino respondeu:
Sim, e também, nesse caso, pouparia meus
ouvidos de escutar tais palavras.
Pois, para muitos, Deus é uma entidade que
distribui aos homens presentes e chicotadas, conforme seus méritos ou culpas.
Eu, porém, vos digo que a intenção maligna contida nas palavras dos homens é
muito pior que os excrementos das pombas, mas seria um erro condená-los; pois
assim como são vazias as mentes das aves, também o anão que confere a intenção
aos pensamentos não possui existência real. É apenas um fantasma, uma criatura
produzida pelo medo, que deve sua existência ao vosso desejo de continuidade
individual, e é tão variável quanto as condições que afirma controlar.
Esse fantasma não possui existência real como
entidade, mas ao mesmo tempo ganha vida graças ao vosso pavor, e então faz
grandes estragos e, quando tentais sepultá-lo, ressurge com maior vigor!
Assim como não faz sentido odiar uma pomba,
também não se pode condenar um fantasma, e aquele que o fizer mostra, por sua
vez, que também é um espectro.
E esse é o caso geral.
Pois o homem, na verdade, prefere ser um
espectro a ser simplesmente como uma flor, o que de fato é, embora ainda não
possua a beleza da flor.
E, como uma falsa entidade, cria outras muitas
vezes maiores, que são os seus deuses, ajoelhando-se para implorar suas
bênçãos, e, frequentemente, para destruir seus inimigos, sob as bênçãos de seus
guias religiosos. E, para conquistar as boas graças de seus deuses, tais
espectros criam doutrinas e regras, e as obedecem piamente, visando a aquisição
de méritos perante eles.
Criam também rituais de sacrifício e
cerimônias, onde adoram a si mesmos, pensando adorar os deuses que criaram.
Quando lhes surge o medo da morte, esperam a continuidade numa vida futura,
pois os fantasmas, em seu desejo de vir a ser, aterrorizam-se com a
possibilidade de não ser. Quando vitoriosos em seus intentos, consideram que
seus esforços agradaram os deuses, e ao sobrevir o infortúnio, acusam-se de
desobedientes e procuram a raiz de suas culpas.
Eis porque me chamastes de impostor.
Entretanto, não vos censuro, pois pode ser que
tenhais razão! Por isso vos digo: não confieis em mim. E acrescento: mas também
não confieis em vós mesmos e em ninguém; ao contrário, ide além da dúvida e da
necessidade de confiar.
Isso, porém, só ocorrerá quando desaparecer em vós aquele anão que, apegando-se
a si mesmo, teme o futuro, e diz "eu só quero ser feliz; não podeis me ajudar a
encontrar a felicidade?"
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