No país onde nasci, todos lutavam. As crianças
aprendiam nas escolas que, em todos os níveis da natureza, a vida é uma luta
constante, e que só os espécimes mais aptos sobreviviam, sucedendo-se o mesmo
com a espécie humana.
Diziam-lhes que é preciso lutar para realizar
seus sonhos, lutar para ser feliz. As Artes e a História exaltavam a força, o
poder e as grandes conquistas, os vitoriosos eram enaltecidos, e os derrotados
eram desprezados, aniquilados, esquecidos. A ambição tornou-se um atributo
imprescindível, e a vida humana tornou-se uma competição incessante entre
pessoas ambiciosas.
Nas Igrejas, as doutrinas religiosas tentavam,
em vão, colocar freios à crueldade e a violência que caracterizavam a luta não
pela mera sobrevivência, mas pelo sucesso, pelo poder, pela riqueza e pelo
reconhecimento.
Lutava-se em toda parte.
Lutava-se nos lares e nos bares, nas escolas e
nos esportes, nas igrejas e nos locais de trabalho. Todos queriam ser
vitoriosos, impor-se ao próximo de alguma maneira, seja pelo conhecimento ou
pela experiência, pela força ou pela sedução, pela aparência ou por uma simples
opinião.
Assim também sucedeu comigo, até o dia em que
tive uma estranha visão: Anoitecera, e vi-me num cemitério, passeando em meio
as lápides frias, algumas luxuosas, de mármore brilhante e esculturas
trabalhadas, e outras muitos simples, com uma pequena cruz, uma inscrição
singela e uma fotografia desbotada.
Pensei comigo: “Até neste local se nota a
diferença de status entre os seres humanos, mas, com certeza, os mortos não
devem dar por isso.” Fui caminhando pelas alamedas vazias, quando, de repente,
vi um jazigo com meu nome! Meus cabelos eriçaram-se, e fiquei paralisado pelo
terror.
Surpresa ainda maior surgiu quando abriu-se a
sepultura, e saíram das sombras duas figuras indefinidas, vestidas com
mortalhas enegrecidas e amarrotadas. Perguntei, gaguejando: “Quem são vocês?”
“Eu sou a Culpa”, disse uma delas. “E eu sou a
Mágoa”, disse a outra.
“Mas eu julgava que vocês estivessem mortas!”,
disse eu, impulsivamente.
“Exatamente, mas, como vê, está enganado”,
disse a Culpa, sorrindo.
“Sim, é o que todos querem pensar”, acrescentou
a Mágoa — “Mas quando a tranca das portas que nos encerram está fraca, saímos
das regiões ignotas onde fomos confinadas.”
“E então vão assombrar aquele que as enterrou
vivas”, respondi — “mas, por quê nunca vieram antes?”
“Viemos muitas vezes”, disse a Culpa. “Sim,
vezes sem conta”, completou a Mágoa, “mas você estava ocupado demais com suas
lutas, defendendo e atacando, ferindo e se machucando, e assim gerando mais
culpas e mágoas, e no momento em que todos os seres humanos estão produzindo
tais coisas, são absolutamente incapazes de vê-las.”
“É possível, de fato, estive mesmo bastante
atarefado ultimamente”, respondi, “Mas, digam-me, tais coisas sucedem com
todos?”
“Sim”, disseram em uníssono, “E, cada qual a
seu tempo, todos recebem nossas visitas, embora não lhes agrade, e tudo façam
para nos empurrar de volta à nossa prisão.”
Olhando pelas imediações, realmente, vi que
várias outras pessoas haviam chegado, e, perante seus túmulos, conversavam com
suas culpas e mágoas, como eu. Algumas choravam amargamente, outras tinham suas
fisionomias desfiguradas pelo ódio, e todas tentavam convencê-las a voltar a
seus túmulos.
Perguntei-lhes: “E como vocês se sentem, sendo
tão repudiadas?”
“Tristes”, respondeu a Culpa, “pois as pessoas
não nos reconhecem como sendo partes de si mesmos, odeiam-nos e por isso nos
desterraram para a Inconsciência. Mas essa mesma aversão é que nos mantém
vivas, e nos dá energia para emergir do Esquecimento.”
“É isso mesmo o que fiz a vida inteira”,
pensei, e fiquei com pena dessas figuras tão patéticas, querendo voltar para a
Consciência. Mas um pensamento horrível me passou pela mente, e perguntei,
desconfiado: “E por quê me dizem todas essas coisas?”
Elas se entreolharam e sorriram. Esse sorriso
me apavorou mais que qualquer outra coisa.
“É porque, dessa vez, vamos levá-lo conosco
para as profundezas”, disse a Mágoa.
“NÃO!” bradei, desesperado, gritando o quanto
pude, tentando chamar o guarda do cemitério.
“Não adianta gritar”, disse a Culpa, como que
lendo meus pensamentos, ”pois o guarda do cemitério é você mesmo!”
De fato, ninguém parecia notar meus gritos.
Olhando as pessoas nas vizinhanças, percebi que suas mágoas e culpas também
tentavam puxá-las para seus esconderijos, e muitas resistiam vigorosamente.
Então elas me seguraram com seus braços gelados e me puxaram para dentro do
jazigo! Eu me debatia, e no meu desespero para escapar, a visão se desvaneceu,
e saí do transe.
Desde então, amigos, não recuso mais as minhas
culpas e mágoas, e findou-se em mim o conflito de ser dois. Meu coração não
carrega mais nenhum peso, e acabou-se por completo a minha vontade de lutar com
as outras pessoas! Mas quando tento explicar- lhes que, através de lutas,
ganhando ou perdendo, criarão a Dor para si mesmos e para a Humanidade, muitos
se riem, dizendo:
“Eis aí um derrotado!”, dizem uns.
“Sim, provavelmente apanhou tanto que ficou
perturbado”, dizem outros.
“É verdade, pois só um louco se recusa a lutar
neste mundo”, complementam terceiros.
Uns acham que tenho medo, outros acham que não
tenho forças; alguns poucos dizem que estou certo, e muitos dizem que estou
errado, e me desprezam, por não mais participar do jogo. Por isso, caminho
solitário. Será que, algum dia, encontrarei quem me
compreenda?
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