Continuando sua jornada pela cidade grande, o
Mestre Peregrino, acompanhado de um punhado de discípulos, ouviu destes um
pedido:
“Temos andado contigo há tempos, descuidando de
nossos interesses, confiando que encontraríamos a paz e o amor através de teus
ensinamentos. Ensina-nos, pois!”
E um dos amigos que há mais tempo o
acompanhavam disse-lhe, ansiosamente:
“Sim, Mestre Peregrino, faze-nos um milagre,
para que possamos crer em ti!”
E ele respondeu:
Sois crédulos e precisais de um Salvador; e,
assim, abris vosso coração aos impostores que vos seduzirem com bons truques e
belas palavras. Mas, não há milagre maior do que vosso próprio despertar, e
esse ninguém vos poderá fazer.
E quanto a vossos interesses, estão grudados em
vós tanto quanto a unha na carne; se os houvésseis realmente abandonado, nada
haveria que vos ensinar.
E, de fato, não há nada a vos ensinar e nenhuma
promessa a vos fazer, pois a paz não é resultado do vosso modo de pensar ou
agir. Estes são causa e efeito, e tudo que está nesse plano é impermanente e se
deteriora. Falais da Paz e do Amor como se fossem coisas conhecidas e metas a
serem atingidas, mas sob esses nomes, oculta-se um milagre verdadeiro, na forma
de um estado da mente muito raro, que não pode ser alcançado por nenhum
esforço, e nem sequer desejado. Entretanto, se vós o quereis atingir com toda
vossa alma, vou mostrar-vos como consegui-lo.
E o Mestre Peregrino traçou a senda para
encontrar o inalcançável:
Quando todas as chagas de vossa mente enferma
puderem se manifestar livremente em vossa consciência, sem repressão nem
condenação, trazendo-vos o sofrimento abençoado que lava vossa alma nua;
e quando puderdes contemplar vossa própria
incompletude sem fugir à busca de preenchimento, e quando puderdes sentir
plenamente a dor de vossa solidão abissal;
quando o dia de amanhã vos atrair tanto quanto
uma folha caída no chão, e desistirdes de saber o que sucede após a morte;
E quando contemplardes compassivamente os
equívocos e a violência de vossos semelhantes, mesmo se contra vós praticada;
quando em vós fenecer o apego a vossos negócios
e interesses, e vossos ferozes apetites diminuírem naturalmente de tamanho, e
se aquietarem como gatinhos recém-nascidos;
Quando não vos incomodar a crítica nem vos
engrandecer o elogio, e vos avaliarem com injustiça sem que vos perturbeis,
E quando vos magoarem com dureza sem que vos
defendais, e as mágoas vos ferirem profundamente, e não fizerdes qualquer
movimento para delas vos livrardes;
E quando, depois de empenhardes vossa vida para
desse modo agir em todos os momentos, exaurir-se finalmente vossa energia, e
vos dominar uma tristeza demasiadamente profunda, e lágrimas ardentes vos
mostrarem que tais coisas estão muito além de vossas forças, então, só então, e
sem que o peçais, o Amor virá até vós.
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