Sonhei que estava fazendo a volta ao mundo num luxuoso transatlântico.
Como eu estava feliz, naqueles dias
ensolarados, saboreando a brisa pura e leve que soprava do mar imenso! Pensava
comigo: “Sempre quis viajar, mas nunca pude; conhecer outros países, novas
culturas, pessoas diferentes, antigos monumentos, outros ares. Mas o destino
foi generoso e me permitiu estar aqui, onde, finalmente, posso realizar esse
antigo desejo.”
Havia de tudo no portentoso navio:
restaurantes, cassinos, boites, piscinas, jardins, cinemas, biblioteca, salas
de jogos, teatros, música — e, no meu sonho, eu tinha muito, muito dinheiro, de
modo que nunca estava só: vivia rodeado de mulheres maravilhosas, bebendo as
melhores bebidas com pessoas interessantes, bonitas e inteligentes.
Certa vez, porém, depois de uma noitada cheia
de festas e devaneios, recolhi-me a minha cabine, exausto e um tanto enjoado
daquela curtição interminável.
As mulheres pareciam-me excessivamente pintadas
e alegres, os amigos estavam completamente bêbados, e os garçons me olhavam de
um modo estranho. Não tinha companhia, pois desejava estar só. Caí na cama e
ali fiquei, tentando, inutilmente, lembrar-me de como era minha vida antes
dessa viagem. Sentia-me profundamente deprimido e solitário, e dizia para mim
mesmo:
“Eu, que sempre quis os prazeres da vida, agora
vejo-me deles enfastiado. Encontrei toda satisfação possível, mas,
miseravelmente, continuo infeliz. E todas aquelas pessoas são tão vazias como
eu, e precisam de seus atavios, posses e drogas para disfarçar suas vidas sem
sentido.”
De repente, ouvi um barulho enorme que
estremeceu tudo; as luzes se apagaram, sirenes dispararam, as pessoas começaram
a gritar em desespero e correr em disparada. Cansado demais para qualquer
movimento, fiquei ali mesmo e pensei: “Finalmente a morte vem levar-me desta
vida estúpida, onde fujo o tempo todo e nem ao menos sei do quê.”
Ali fiquei e devo ter adormecido, pois não mais
percebi nada, durante um tempo indefinido. Quando acordei, vi com indescritível
espanto, que todas as pessoas tinham desaparecido! Angustiado, andei e procurei
por toda parte, sem encontrar os amigos, as mulheres, os garçons, o capitão do
navio! Onde todos foram parar?
Mas, de repente, vi que não havia mais navio;
encontrei-me sozinho em um pequeno bote, à deriva, com um pouco de água e um
par de remos.
“Ontem eu tinha tudo e estava cansado de tudo,
e agora até o navio desapareceu”, pensei, apavorado, “Que vou fazer, perdido
aqui no meio do oceano? Para qual direção devo rumar? Deve ser um pesadelo.”
Mas, em vão eu procurava acordar, e vi-me
obrigado a escolher uma direção e remar, remar para ver onde ela me conduziria.
Todas as direções que escolhi, contudo, ou eram erradas, ou faltou mais empenho
para nelas prosseguir, quando via que a nada me levavam.
E a água foi acabando, e o sol me queimando, e
a energia se findando, e o desânimo tomando conta de mim.
Quando, finalmente, percebi a inutilidade de
meus esforços, pus-me de pé, com grande dificuldade, e olhei, pela última vez,
o horizonte a meu redor. Era uma bela manhã e fazia bom tempo; ventos
calmos refrescavam meu corpo.
Tirei as roupas em frangalhos e atirei-as ao
mar, o mesmo fazendo com os remos. Cansado, deitei-me e fiquei olhando o céu e
as nuvens que passavam.
Abri mão do desejo de continuar. Mas meu
cérebro funcionava por si mesmo:
“O céu acima, o mar abaixo, e eu aqui sozinho”,
pensei, “se tivesse meios, mandaria um SOS: Homem nu, num barco à deriva,
sem remos nem água, pede socorro.”
E comecei a rir. Primeiro ria baixinho, do
absurdo da situação, depois pus-me a gargalhar alto, sem parar, e tanto ri que
comecei a chorar, chorar sem parar. E dizia a mim mesmo, entre risos e
lágrimas: “Agora sei do que estive fugindo a vida toda, através das alegrias e
prazeres de antigamente, que tanto me seduziam, e me mantinham tão ocupado, e
também quando remava em desespero para encontrar algum lugar, algum porto
seguro, e começar tudo de novo.”
“Eu fugia do Vazio de minha vida. E, depois de
tanto fugir, finalmente encontrei meu Destino, num barquinho tão frágil,
perdido no meio do oceano, onde já não há o que esperar, e nenhum esforço a ser
feito.”
“E a apavorante Solidão, que sempre esteve
comigo, embora eu não a quisesse, agora me envolve todo. Não consigo imaginar
nada mais irônico do que isso; fugi e me ocupei a vida inteira e agora me vejo
comigo mesmo, sem ter para onde fugir. Agora, sinto a dor do findar de tudo, e
já não tenho nada, e já não sou nada, e nada aprendi.”
E veio-me uma profunda sensação de descanso,
como se abandonasse uma grande carga; o riso e o pranto cessaram, e acordei
mansamente, molhado de suor e de lágrimas.
Ou seria da água do mar?
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