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Todos os anos ele volta, no mês de agosto, e instala-se nas sibipirunas altas e
ressequidas, que aguardam a primavera.
Apressados, os ônibus passam na avenida
larga e jogam para o céu a densa fuligem, que vai enegrecendo o tronco das
árvores e o coração dos homens.
E a inversão térmica desenha no espaço uma rede
compacta e amarelada, feita de incontáveis partículas de poluentes em
suspensão, fazendo do céu azul uma lembrança de algum dia do passado e um
desejo para o amanhã.
Indiferente a tudo isso, o sabiá canta, de dia
e de noite; e, nas longas noites de insônia, no silêncio das altas madrugadas,
o Mistério bate à minha porta através do seu canto sublime. E, ao alvorecer do
dia, ele segue cantando, até que o ruído do trânsito tapa meus ouvidos...
“É sua época de acasalamento”, disseram-me um
dia, querendo talvez, com essa explicação banal, mostrar que é um simples
fenômeno da Natureza, e nada tem de transcendente. Mas tudo isso me lembra o
caráter cíclico dos processos naturais: a aproximação e o distanciamento, o
nascimento e a morte, o dia e a noite, o ciclo das estações do ano, o movimento
das marés, as fases da lua — fenômenos interligados, em mutações incessantes e
eternas, complementando-se uns aos outros no decurso do tempo.
Os antigos diziam que a sabedoria provém da
observação da Natureza. Com exceção do ser humano, toda forma vivente está
integrada aos processos naturais, realizando seu potencial sem esforço
psicológico nem sofrimento interior. Seremos nós tão adiantados que nada mais
tenhamos a aprender? Para mim, o homem, ao perder o contato com as coisas
simples e belas da Terra, semeou para si mesmo o desequilíbrio e a
infelicidade, o vir-a-ser da eterna procura e da eterna frustração.
Talvez o sabiá seja um emissário do
Desconhecido, conclamando a humanidade, com seu discurso sutil e maravilhoso, a
despertar para uma nova consciência, não subordinada ao reino das palavras —
que é sempre interesseiro, manipulador e cheio de falsidades, e nunca leva à
concórdia, pois todo acordo baseado nelas é provisório, e um mero prelúdio a
novos conflitos.
Imaginem que ele nos dissesse:
“Olhem, tenho vindo aqui regularmente, e bem
poucos prestam-me qualquer atenção. Mas parece que sua cidade não me quer mais
aqui! Não notaram que as árvores estão morrendo, e o ar está irrespirável, e o
clima está corrompido? Por isso, não sei se voltarei jamais a este lugar.”
Já pensaram na tristeza de uma cidade onde os
sabiás não cantam mais? Mas logo alguém responderia, mostrando que seu
argumento não é bom o bastante:
“Veja, sabiá, você terá suas razões, mas aqui
temos milhões de desempregados, e precisamos criar mais fábricas e mais
empregos, ainda que isso traga mais poluição. Com o progresso tecnológico,
certamente haveremos de descobrir meios de controlá-la; o importante agora é a
produção de riquezas, para equacionar o problema social.”
Deve ser por isso que os sabiás não falam;
meter-se-iam em discussões infindas e inúteis.
Moro num alto edifício da avenida, e olho de
cima as árvores de onde vem o canto abençoado, procurando o sabiá. Mas nunca o
vejo. Oculto entre as folhas, galhos e flores, ele silencia quando fico muito
tempo perscrutando seu esconderijo. Haverá alguma incompatibilidade entre meu
olhar inquieto e seu canto inocente?
Depois de muitos anos neste lugar, preso a
compromissos, conveniências e obrigações, cansei-me do barulho, da eterna
agitação, da fumaça e do trânsito. Nas minhas lembranças, o sol nasce atrás dos
montes; no meu dia-a-dia, o sol nasce atrás dos prédios. À tarde, ele se põe
bem no meio de dois edifícios, constrangido, fazendo um crepúsculo
triste.
E, à noite, para ver a lua, preciso ir até a
pequena sacada do apartamento e fazer grandes ginásticas com o pescoço. Nem
sempre sou bem sucedido, mas as estrelas, ah! essas eu raramente vejo, pois
permanecem ocultas pelo reflexo das luzes da cidade. Por tudo isso, quero ir
embora; mas não quero perder o canto do sabiá, que todo esse tempo foi minha
alegria mais pura
Lembro-me da canção de Tom Jobim:
“Vou voltar, sei que ainda vou voltar,
para o meu lugar, foi lá, e é ainda lá
— que eu hei de ouvir cantar uma sabiá...
vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há,
colher a flor que já não dá,
e algum amor talvez possa espantar
as noites que eu não queria, e anunciar o dia..."
E meu coração liberta-se de suas amarras, e
empreende o longo caminho de volta... .
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