Certa vez, um dos companheiros do Peregrino
perguntou-lhe:
“Mestre Peregrino, porque nunca antes aqui
vieste, para conversar conosco sobre a vida?”
E o Peregrino respondeu:
Na verdade, aqui já estive muitas vezes antes;
vós, porém, não me reconhecestes. Na primeira vez em que aqui estive, a ambição
de subir na vida e as preocupações com vossa auto-realização consumiam as
vossas energias. Dizíeis então:
“Para nós, a felicidade se resume na realização
profissional, com um emprego bom e seguro, e em nossas diversões, famílias e
propriedades, bem como em nossas crenças e valores, que dão estabilidade a
nosso espírito, e na nossa qualidade de vida, o que significa ter boa saúde,
dinheiro no bolso e lazer.”
Portanto, em minha primeira visita, vossas
mentes estavam ocupadas demais com o seu próprio bem-estar, de modo que
faltava-lhes tempo para mim. Quantas vezes transitei solitário pela noite
escura, com fome entre vossas mesas fartas, com frio entre vossas casas
aquecidas, enquanto vós, reunidos entre amigos, sempre tínheis alguma coisa a
comemorar!
E, quando o peso de minha carga atirou-me ao
chão, alguns disseram:
“Eis ali um indolente, que mal consegue
manter-se de pé! Provavelmente, está embriagado!”
E, mesmo de alguns que estão neste grupo, ouvi
dizerem a meu respeito:
“Aquele homem não tem crenças nem princípios,
pátria e nem religião, e quer desencaminhar a nossa boa gente. Mas, se por aqui
persistir, havemos de colocar a polícia em seu encalço.”
“Sim”, respondiam outros — “é um inútil, que
está fora da cadeia produtiva e quer dizer a nós, que pagamos nossos impostos
em dia, com o suor de nossas camisas, que estamos errados em nosso modo de
viver.”
Tais eram as pérolas que vosso senso comum me
reservava então. Mas quando aqui voltei, tempos depois, vi que muitos de vós,
atingidos pelas setas da desventura, estavam ocupados demais com suas dores, e
também não tinham tempo para mim.
E hoje, depois de muito tempo, encontro-vos
cansados de vossas dores e prazeres, e cobertos de dúvidas, querendo saber se
não haverá algo além disso na vida; de modo que, finalmente, achastes tempo
para vós mesmos e para mim também. Por isso, como penhor da felicidade de
ter-vos junto, como companheiros, quero dar-vos um presente; mas, como nada
possuo, vou contar-vos um segredo:
O Desconhecido fez uma brincadeira convosco,
porém não a entendestes. Era, de fato, um truque muito sutil, mas levastes
demasiadamente a sério a vós mesmos, e, assim, vos enganastes. Como fruto desse
erro, imaginastes uma felicidade lá fora e a ela vos apegastes, acreditando que
ela haveria de vos sorrir mediante vossos esforços, e, assim, fostes apanhados
pela roda do prazer e da dor.
Vós quereis saber qual é o truque, mas ele é
tão sutil que não vos posso dizer. E, na verdade, vós já sabeis qual é, mas não
sabeis que sabeis, e nisso consiste o vosso sono ancestral. Portanto, a chave
desse truque está dentro de vós mesmos e podeis descobri-la, se, para vós, isso
for uma questão absolutamente vital, tão vital como a respiração que vos dá o
alento.
Dizei-me, então, qual é a brincadeira e qual é
o truque! Não o conseguis? Não quereis descobrir a razão de vossa desgraça?
Observai o estado de vossa mente, neste exato momento, e dizei-me o que estais
vendo. Estará, porventura, vosso pensamento movendo-se de um canto a outro
atrás de resposta, e não a encontrando? Estareis vós impacientes por isso, e em
dúvida sobre se tudo isso realmente vale a pena, ou não será uma fraude, ou
perda de tempo? Não estareis questionando “talvez esse homem seja um charlatão,
e aqui nada tenho a aprender” ?
Eu vos digo que, desse mesmo modo, passastes
vossa vida toda até agora: em permanente inquietude, procurando em vão na
memória respostas e soluções para problemas por vós mesmos produzidos. Com
vossa mente perenemente tomada pelos objetos da experiência, como poderíeis
experimentar o sabor do silêncio? Todavia, o silêncio da mente desperta é
energia pura, e essa é a dimensão do amor, anterior ao surgimento dos
problemas.
Quando descobri-lo, entendereis que o Universo
precisava de vós para ver a Si mesmo, e por isso vos estimulou para vos
separardes dele: deixou a árvore do conhecimento demasiadamente perto de vós !
E, estando ela ao alcance de vossa mão, colhestes inevitavelmente o fruto do
Bem e do Mal. E provastes o doce fruto, e vos embriagastes com seu sabor, e,
por causa dessa embriaguez, ficastes meio inconscientes, e assim vos
extraviastes do Paraíso; e, quando sobreveio o amargor do sofrimento, havíeis
perdido o caminho de volta.
Assim vos separastes da unidade cósmica.
E até hoje continuais nessa semi-inconsciência,
aprisionados ao círculo dos prazeres e das dores. Atolados nesse pântano,
vossos pensamentos martelam sem descanso em vossa mente, procurando uma solução
que ali não existe. E, mesmo inconscientemente, estais sempre a procurar aquele
caminho; contudo, estais cada vez mais distantes dele. Estais assim, afastados
da unidade primordial, porque somente vedes a vós mesmos e vossa dor, e vosso
desejo de fugir dessa dor; e a frustração por não consegui-lo; e só podereis
retornar quando esse desejo desaparecer, e junto com ele vossa dor e também
vossa frustração e vossa idéia de vós mesmos.
Pois só podereis voltar à unidade cósmica
quando realizardes o Desconhecido dentro de vós, e, então, sereis o
Desconhecido vendo a si mesmo. E isso será o vosso despertar: terá desaparecido
em vós “aquele que separa”, um fantasma na neblina de vossa inconsciência. Mas
já percebestes qual é a brincadeira divina. A brincadeira era sair e voltar
despertos, e vossa desgraça é haver trilhado apenas a metade do caminho, onde
permaneceis em estado de sonambulismo, hipnotizados por vossas idéias fixas
sobre o Bem e o Mal, e, nesse estado, precisareis morrer para trilhar a outra
metade e unir-vos ao todo. E é isso o que tendes feito desde sempre.
Ah!, exclamou o Peregrino, — quantos
nascimentos e mortes deverão ocorrer ainda antes desse despertar?
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