Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro, José!
Trecho do poema “E agora, José?” de Drummond
Carregando sua solidão pelas ruas movimentadas, José dizia para si mesmo:
“Tinha razão o poeta quando perguntava: ‘E agora, José? Para onde?’ Pois
vejo-me andando entre milhares de pessoas apressadas, que nada vêem a não ser
seus interesses e urgências, e decerto estou em descompasso com esse ritmo. Até
me esqueci do que estou fazendo neste lugar, e não tenho para onde ir, de modo
que vou voltar para casa.”
Com tais pensamentos, José cruzou a avenida, e
nem reparou no carro que atravessou o semáforo vermelho e veio em sua direção,
brecando com grande ruído e parando quase em cima dele.
“Ainda tinha isso para enfrentar, antes que
acabasse o dia”, pensou ele, assustado, e seguindo seu caminho mais
rapidamente. Chegou em casa cansado, deitou-se, dormiu... e sonhou.
Sonhou que estivera viajando em um velho trem e
tinha chegado a uma cidadezinha de interior. Era um dia ensolarado, e José
notou que não levava bagagem alguma. Ao descer do trem, viu diversas pessoas de
dentro despedindo-se dele através de acenos de mão e votos de boa sorte.
“Que simpático”, pensou, “pessoas atenciosas e
gentis; nada a ver com o lugar de onde vim”.
E José caminhou calmamente pelas ruas
tranquilas, passando pelas praças onde jovens senhoras tomavam sol com suas
crianças, e alguns casais, de mãos dadas, contemplavam a beleza dos jardins e
das flores. Cumprimentou um velho que caminhava cheio de apetrechos de pesca,
acompanhado de um garoto, e, para sua surpresa, eles o convidaram para pescar.
Respondeu: “É muita gentileza de vocês, pois
desci do trem e ninguém conheço nesta cidade, e na verdade, nem sei porque
parei neste lugar. E, embora não entenda nada de pescaria, sinto-me feliz em
acompanhá-los.”
Depois de caminhar algum tempo, chegaram a um
rio de águas cristalinas, ladeado de árvores frondosas. O velho e o menino
puseram-se a pescar, e de vez em quando fisgavam algum peixe. Para puxar
conversa, José perguntou: “O senhor já está aposentado?”
“Não”, respondeu o velho, “pois neste país não
existe aposentadoria. O trabalho aqui é motivo de alegria e cada qual faz o
melhor que pode, nos setores onde tem mais condições de fazer. Agora mesmo
estamos trabalhando, embora talvez lhe pareça apenas uma distração, e vamos
levar estes peixes para o jantar.”
“E se a pessoa adoecer e não puder trabalhar?”
“Nesse caso, a comunidade cuida dele, sem
cobrar nada, pois aqui não existe moeda. Em toda casa há pessoas aptas a cuidar
dos doentes, pois Enfermagem é uma matéria básica em nossas escolas, juntamente
com Jardinagem, Agricultura, Trabalhos Manuais, Vida em Natureza, Arte, Música
e Dança. Além disso, há um serviço de voluntários médicos e enfermeiros, que
fazem rodízio permanente em nossos hospitais.”
“E seu neto, não deveria estar na escola?”
“Você está enganado, ele não é meu neto, e
estamos nas férias de verão. Aqui as crianças são criadas em comunidade desde
seu nascimento, e só mais tarde é que conhecerão seus pais, que desse modo
poderão ser tão amigos deles quanto quaisquer outros. Esse menino, por exemplo,
é um de meus melhores amigos, e me chama de Vovô apenas como um tratamento
carinhoso.”
Terminada a pescaria, voltaram para a cidade e
o velho convidou José para pernoitar em sua casa, onde foram recebidos por
alguns casais e muitas crianças. Deram-lhe acomodações simples e limpas, onde
banhou-se e descansou um pouco, pois sentia os ossos doloridos. Após o jantar,
reuniram-se todos ao ar livre, formando um círculo onde cada qual se ajeitou,
sentando-se no chão ou em cadeiras.
“É estranho como ninguém me pergunta nada,
embora todos me dêem a maior atenção”, pensava José. A lua cheia estava
magnífica no céu, cravejado de estrelas, e sentia-se o perfume das flores da
noite. Fez-se silêncio, e José notou que seus novos amigos tinham os olhos
brilhantes de alegria.
Disse então:
“Jamais vi algo tão maravilhoso, como esta
cidade e as pessoas que nela habitam. A bondade de seus corações chega ao
incompreensível. Não poderia eu ser um malfeitor? Contudo, vocês não me
perguntaram sequer de onde vim. É verdade que não poderia lhes responder, pois
não me lembro! recordo-me apenas de que meu nome é José, e que não havia lugar
para mim no lugar de onde venho.”
“Esteja tranquilo, José”, respondeu o velho
pescador — “um malfeitor jamais poderia chegar a esta cidade; aqui você está
entre amigos, e todo o seu passado não tem a menor importância.”
“Mas como é possível tal sociedade? Não vejo
ninguém ansioso ou estressado, contendo a irritação, ou apressado. Não se fala
em dinheiro, mas todos têm amor ao trabalho; levam uma vida simples e próxima
da natureza, e não há consumismo. Não possuem televisão nem cinema ou fitas de
video, e assim as pessoas se reúnem com mais frequência e conversam sobre as
coisas essenciais, ou simplesmente ficam em silêncio, apreciando a beleza da
vida. Seu modo de viver é a própria felicidade.”
“A felicidade nesta terra não é um objetivo”,
disse o velho, “é um estado de ser que acontece a cada momento, onde a energia
vital flui sem obstáculos, e é assim que vivem todos, não importa o que façam.
Por isso, as pessoas têm boa saúde e ninguém precisa de calmantes ou quaisquer
tipos de drogas.”
Cansado, José retirou-se a seus aposentos,
sendo acompanhado por algumas pessoas. Teve uma noite agitada, mas sentia que
estavam fazendo-lhe companhia e cuidando dele carinhosamente. E José viu que ia
morrer, mas estava feliz e reconciliado com a existência: havia conhecido a
Beleza e a Alegria, podia morrer em paz.
Acordou na madrugada e viu-se rodeado de
médicos e enfermeiras, num lugar estranho; percebeu que estava de volta à sua
antiga cidade. Entendeu que havia sido atropelado! Um médico lhe disse: “Amigo,
já fizemos todo o possível, mas sua vida está por um fio, parece que você não
quer continuar vivendo! Reaja! Seja forte!”
José olhou longamente para ele, comovido,
sorriu... e adormeceu.
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