Em meus passeios pela cidade, certa vez
descobri uma loja de artigos de magia. Sempre tive curiosidade por tais
assuntos, por isso entrei e fiquei olhando a fantástica coleção de objetos aos
quais se atribui poderes mágicos: duendes, bruxas, imagens de todos os tipos,
jogos de búzios, simpatias, pêndulos, pirâmides, amuletos, cristais e pedras
diversas, ao lado de velas, incensos e de vasta literatura sobre o tema.
Fui atendido por um senhor idoso e simpático.
Perguntei-lhe:
“Haverá aqui algo para mim?”
“Gastamos grande parte de nossas energias
fugindo do destino”, respondeu, “mas, pelo que vejo, você está à procura dele.
Estou certo?”
“Nada sei sobre o destino, e nem sobre mim
mesmo, a não ser o que minha natureza condicionada me mostrou, e confesso que
não gostei muito.”
“Então você gostará de levar este par de óculos
mágicos, com os quais poderá ver o interior das pessoas.”
Coloquei os óculos e respondi: “Não vejo nada
diferente; é tudo a mesma coisa.”
“Demora um pouco”, respondeu o velho, “mas,
assim que você focalizar bem as imagens, verá coisas ocultas.”
Paguei e saí. No caminho, vendo o mesmo velho
mundo de antes, achei que tinha sido enganado, e pensei em tirar os óculos.
Antes, porém, parei num ponto de ônibus, onde havia algumas pessoas, e fiquei à
espera da condução. A meu lado, havia uma bonita mulher, que olhava para o
outro lado da avenida, aguardando o coletivo, sem me perceber.
Quando virou-se e pude ver sua outra face, vi
uma horrenda cicatriz no canto da boca, pendendo para baixo, disfarçada por
cosméticos, dando a seu rosto um aspecto de amargor e revolta. Meus olhos se
arregalaram, e ela deve ter percebido alguma coisa, pois perguntou-me:
“O senhor está passando bem?”
“Estou bem, obrigado”, respondi, “mas, diga-me,
essa cicatriz foi de alguma cirurgia?”
“Que cicatriz?”, respondeu, alterando o tom de
voz.
“Essa em sua face esquerda, que parece tão
profunda. Não que esteja feia”, acrescentei, ao ver a mulher colocar a mão
sobre a marca, horrorizada — “na verdade, nem dá para perceber direito.”
“Seu cafajeste”, gritou, “o senhor não tem o
direito de ofender as pessoas pelas ruas. Que mal eu lhe fiz?”
“Calma, não tive intenção de aborrecê-la”,
tornei, apaziguador.
Mas não adiantou: a mulher continuou gritando,
e, de repente, apareceu um policial.
“Que aconteceu, madame?”, perguntou, cortês.
“Foi esse grosseirão, que me ofendeu!”,
respondeu, apontando para mim.
O policial me encarou.
Dessa vez, quase caí de susto: seu rosto era
todo cheio de cicatrizes pavorosas, mal costuradas, com muitos ferimentos
recentes e ainda não cicatrizados. Percebendo meu pavor, disse com autoridade:
“Os dois para a delegacia, já”, e acrescentou, olhando gentilmente para a
mulher: — “a senhora não se preocupe, vai apenas dar queixa e poderá ir
embora.”
E assim fomos os três para o distrito policial
mais próximo, onde ela contou uma versão deveras aumentada, que me
descrevia como um monstro sem sensibilidade. Não tendo, porém, como me reter
ali, o delegado resolveu me dar uma lição. Olhei, temeroso, para o rosto dele.
Suas cicatrizes formavam um rosto duro, onde se liam autoritarismo, frustração
e ira — e seus olhos fuzilavam enquanto ele dizia coisas como:
“O senhor precisa ir a uma igreja ou um
psiquiatra, meu amigo! Como é que diz a uma senhora tão bonita que o rosto dela
está coberto de cicatrizes?”
A mulher se ajeitou na cadeira, envaidecida.
E eu nada dizia, de cabeça baixa. De repente,
lembrei-me dos óculos! E pensei: “Maldita hora que resolvi enxergar mais do que
devia!”, lembrando-me da promessa do vendedor: “ver o interior das pessoas”.
Automaticamente, tirei os óculos. Eles nada
perceberam sobre meu gesto, mas eu suspirei, aliviado. Vi, então, um
cavalheiro enérgico falando e gesticulando — era o delegado, que tinha à frente
uma mulher atraente, de lindas faces rosadas e olhos ligeiramente umedecidos,
que ela enxugava com um lencinho.
Desculpei-me com a senhora, e, após a
descompostura, ainda tive que pagar uma multa antes de me retirar.
Sem óculos.
Voltei ao antiquário, e, furioso, contei o caso
ao velho que me atendera.
“Raramente isso acontece”, disse-me ele,
“nesses casos é recomendável a pessoa primeiro olhar a si mesmo no espelho, com
os óculos. O senhor gostaria de fazer a experiência?”
“Oh, não!”, respondi assustado — “ver os outros
já foi demais para mim. Meus próprios ferimentos ainda me doem bastante, e
receio que não estejam cicatrizados. Não é hora de ver a mim mesmo.”
Devolvi os óculos e fui embora.
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