A Aranha e a Garça - 16/04/06


No circuito das caminhadas, no Parque Ibirapuera, numa árvore pertinho da Alameda dos Namorados, mora uma aranha escura e grande, centrada no meio de sua teia forte e resistente.

Está sempre lá, soturna, quieta e paciente. De vez em quando vê-se um inseto preso em sua rede; é a recompensa por seu trabalho e perseverança. Ela é um perfeito exemplar da espécie, mas confesso que as aranhas sempre me causam asco e mêdo.

Depois de ver, na curva do remanso do lago, as garças elegantes, os garbosos cisnes brancos e negros, depois de sentir o cheiro de guaco pelas redondezas, de ver as borboletas e os variados tipos de pássaros... tinha que ver uma aranha também? "Não combina", pensei. 

Mas, contra a minha vontade, a imagem da aranha me impactou mais do que tudo, e à noite sonhei que estava tendo uma conversa com aquela mesma, cuja visão tanto me incomodara.

Estávamos só nós dois, no Parque estranhamente deserto. Ela me dizia:

"Então, você me odeia? que mal eu lhe fiz?" — e eu não sabia o que responder. Balbuciei: "Desculpe, dona Aranha, não é nada pessoal, simplesmente chocou-me vê-la prestes a comer o pobre inseto, e além disso a senhora não é nada bonita". 

"É verdade. Vocês nos comparam com as formas belas, e então nos classificam de horrendas", disse ela, "e talvez por isso os humanos tanto nos desprezem. Acredita? alguns, por pura crueldade, destroem nossas teias e vão embora rindo, e outros querem nos matar. Nossa vida é muito dura! Mas, deixe-me contar-lhe uma história".

Acedi, surpreso de estar falando com uma aranha, e pensei comigo: "ela tem razão, somos os juízes que determinam o que é belo ou feio, e sempre condenamos este último". Mas meu nojo, estranhamente, tinha desaparecido, e fiquei interessado no caso que ela queria me contar.

E ela me disse:

"Houve um tempo em que, cansada do barulho dos humanos, fui morar nuns arbustos baixos, perto do lago, por onde as pessoas não circulam. Armei minha teia e fiquei por ali. O alimento era meio escasso, mas suficiente para viver. Em dias de sol, dava para ver os peixes na beira do lago, e com o tempo aprendi a entender o que eles diziam".

"E o que é que eles diziam, Dona Aranha?", perguntei, um tanto incrédulo.

"Eles se reuniam de vez em quando, e então vinha um peixe maior, mais velho e experiente, orientar os mais jovens, que ficavam em volta dele, silenciosos, enquanto a brisa da manhã radiosa fazia ondinhas na água. E ele dizia assim:"

— "Meus filhos, como seres da água, nos é negada a visão do céu, das nuvens e das árvores, mas não podemos fugir do desejo de contemplar a natureza. Por isso, nos dias em que os raios do sol penetram mais fundo na água do lago, assim como que nos convidando a nadar até as águas mais rasas, atendemos a esse apelo instintivamente, sendo motivo de grande felicidade a contemplação das formas exteriores."

— "Mas é aí mesmo que está o perigo", advertia o velho peixe, "pois há uma montanha branca, brilhante e silenciosa, cuja visão nos fascina demasiadamente, mas é de lá que vem a morte. De repente, aquela massa comprida e imóvel avança traiçoeiramente sobre a água e engole alguns de nós! Portanto, meus filhos, muito cuidado com as águas rasas, onde a montanha branca é na verdade um terrível predador."

"E sabe de quem ele estava falando?", continuou a aranha, "da Dona Garça, que vocês tanto apreciam por sua beleza! Nem percebem, porém, que as formas belas só são belas por causa das não belas, mas todas expressam algo que está além das formas."

Fiquei um pouco confuso e perguntei-lhe o que é esse "algo", que, segundo ela, todas as formas expressam. E ela respondeu:

"Não posso dizer-lhe o que é, mas, para se aproximar disso, você precisa aprender a ver o belo no feio e o feio no belo".

"Que está dizendo, Dona Aranha? isso não é possível!", retruquei prontamente, mas em vão: ela tinha desaparecido. Pensei comigo: "nunca imaginei tanta sabedoria numa simples aranha".

Então acordei, e refleti longamente sobre o estranho sonho. De início, achei tudo aquilo uma loucura. Mas, depois, notei que uma mudança aconteceu em mim, involuntariamente. Ao caminhar pelas frondosas alamedas do Parque Ibirapuera, minha atenção já não se limitava à contemplação do belo.

Até uma folha caindo passou a chamar minha atenção, e a dança desajeitada dos urubus na beira do lago, próximo à Alameda dos Anos Dourados, já não mais me chocava.

Notei que as outras espécies de aves conviviam pacificamente ao lado deles, e que, cada qual a seu modo, todos eram conduzidos por uma força não pensante, a mesma que fazia a grama crescer e os sabiás cantarem melodiosamente.

E me lembrei do poema de Tagore:

Eu não posso fazer uma rosa desabrochar,
Mas, Aquilo que pode, o faz tão simplesmente!


 

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