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Vou contar um fato sucedido há muitos anos. Mais exatamente, em junho de 1961,
quando eu tinha apenas 11 anos, e estava na 1ª série do curso ginasial, na
então recém inaugurado "Ginásio Dom Pedro I", em São Miguel Paulista,
que era uma escola do Estado, um verdadeiro primor, isso nos áureos
tempos (pois houve esses tempos, acreditem) em que o ensino público era
excelente, as escolas eram bem aparelhadas e os professores eram bem
remunerados e considerados na sociedade.
Mas, diante de uma memória que falha nas
mínimas coisas do cotidiano, como posso eu ser tão preciso ao contar essa
história? Acontece que era época de São João, e, reinando entre festejos,
fogueiras e balões, eu tinha conseguido uma bombinha!
Nessa época, não me lembro muito de rojões,
foguetes, bombas fortes. Mas era muito comum o uso de jogar traques
no chão e bombinhas na fogueira para animar a festa. Algumas eram mais
potentes, mas as mais utilizadas eram as de vinte centavos cada. Como
curiosidade, na época nossa moeda era o cruzeiro, e lembro-me bem de
que as mais fraquinhas custavam vinte centavos, enquanto que as
mais fortes custavam cinquenta centavos.
Ora, eu não tinha dinheiro nem para as mais
fraquinhas, então, onde é que fui conseguir uma de cinquenta centavos? Na
escola! com os amigos da minha classe do Ginásio. Não fosse isso, não teria
esta história para contar.
Feito esse preâmbulo, eu fiquei com a bombinha
escondida em casa, o maior segredo. Um belo dia, me pilhei sozinho em casa,
numa manhã gloriosa de inverno, me lembro do sol esplendoroso, do céu azul. E
eu com a bombinha, doido para estourá-la no quintal. Eu disse que estava
sozinho? Bem, não exatamente.
Acontece que meu pai estava em casa, logo ele,
que nunca estava em casa nesse horário... Eu imaginava que ele iria sair logo,
mas enganei-me. Pôs uma roupa caseira, pegou uma cadeira e uma série de
apetrechos, kaol, umas escovas, um banquinho para servir de mesa, uma flanela
velha de dar brilho, e foi limpar suas armas (ele era da Força Pública).
E eu por perto olhando, só imaginando na bombinha.
Ele muito sério, descarregou a arma, separou as
balas noutro canto, não queria criança por perto. Concentrava-se no trabalho,
zelosamente, as armas brilhavam. Mas, do meu ponto de vista, impaciente, aquilo
não acabava nunca. Até que, talvez uma hora depois, ele me olhou firme e disse:
— "Vou ali no Gino pegar um material, e volto
já. Fique longe deste lugar !"
Perfeitamente. O Seu Gino era um vizinho
próximo. Alguns momentos me bastariam, e certamente seria bem longe do lugar
proibido, planejei comigo. Estaria obedecendo as ordens paternas. Quando ele
saiu e sumiu portão afora, fui para o fundo da casa, onde havia um pequeno
quintal, umas madeiras velhas, um galinheiro.
Na maior inocência, acendi e joguei a bombinha
no chão. Literalmente, foi um estouro, eu mesmo me assustei, acho que pelo
pequeno espaço o barulho foi maior. Mal eu curtia o prazer da travessura, vejo
meu pai correndo portão adentro, desesperado, até me encontrar no fundo do
quintal:
— "Que que houve, menino? Fala!"
Aí foi que eu contei da bombinha, estrela desta
história. Fiquei com mêdo, achei que ele ia ficar bravo e me bater, mas não:
qual não foi o seu alívio! e eu sem entender direito, mas nunca esqueço a
expressão de seu rosto.
Sorriu, e voltou à limpeza de suas armas,
intactas.
E eu demorei muitos anos para entender porque
ele correra tanto.
Dedico essa história à minha irmã Estelita, que aniversaria em 5 de
abril.
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