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O único mistério é haver quem pense no mistério (Fernando Pessoa).
Parece haver um truque do Universo ao nos
brindar com a noção de que somos um sujeito externo ao sistema
sensação-percepção-pensamento-emoção. Logo de início, sentimo-nos apartados do
Universo. Ao mesmo tempo, sentimo-nos incompletos e imaginamos uma Felicidade
lá fora, e corremos cegamente atrás dela.
Essa é a origem do dualismo que praticamos não
só em nossa relação com o mundo externo, mas também com os conteúdos internos.
Em conseqüência, somos como somos — cheios de conflitos, desejosos de superar,
conquistar, consumir, possuir e controlar pessoas e coisas, visando o prazer
sensorial, paralelamente ao conforto psicológico.
Não vemos nenhum ganho evolutivo nessa visão egocentrada, muito ao contrário; a
noção de um "eu" individual é dispendiosa e conduz exatamente ao que vemos nas
telas da TV e nas páginas dos jornais: doença e insanidade.
Mas, não haveria algo realmente valioso profundamente escondido ali?
Para haver um eu que é feliz, é preciso haver a
satisfação dos desejos, pois, sem estes, onde está o eu? O sujeito que deseja
está "aqui dentro", e os objetos do desejo estão "lá fora". Infelizmente, ao
buscar na experiência sensorial um bem que é só bem, e que não traga
conseqüências ruins, enredamo-nos nas contradições do prazer, entupindo-nos de
decepção, mágoas e toda sorte de frustrações. E de esperança de uma nova
chance, de um amanhã melhor, o que recria o ciclo.
E quando, finalmente, percebemos que as rosas
invariavelmente trazem consigo uma vasta coleção de espinhos, paramos de
desejar as rosas. Isso costuma demorar um pouco para acontecer. Nesse meio
tempo, vamos nos enchendo de sombras psíquicas, acumuladas no esforço pela
conquista e fruição do prazer, por natureza efêmero; na luta pelo poder,
posses, posições e relacionamentos vantajosos, que se revelam também
voláteis e cheios de conseqüências indesejáveis; no drama da inevitabilidade
das perdas, das mutações, da transitoriedade, e do sempre
presente medo, — que tentamos evitar à custa de ocupações
ininterruptas e distrações variadas, inclusive aquelas proporcionadas pelas
organizações religiosas.
Ao início da vida, como bebês, não tínhamos o
sentido de identidade individual; tínhamos apenas tendências. Estas são
realizadas na afirmação do eu individual, que se separa da Totalidade em busca
de sua felicidade. Em conseqüência, agregam-se à consciência inúmeras dores, as
quais necessariamente nos impelem para reiniciar o
ciclo: incompletude - solidão - tristeza - procura -
trabalhos e desgastes - fruição de prazeres - decepção - perda - dor.
Nesse "círculo dos prazeres e das dores", o Ser está inconsciente de si mesmo;
é como se olhasse a si mesmo no espelho e visse apenas essas sombras, com as
quais ficamos totalmente identificados, pois não sabemos o que somos. Sem
dúvida nossa existência assim acontece quase invariavelmente, o que é
insatisfatório; é uma fuga constante; é o próprio repositório do
sofrimento; é o carma recriando-se continuamente.
Ao perceber isso abandonamos a busca do
transitório e passamos a desejar a transcendência, o atingimento do divino. E
nos envolvemos com filosofias, seitas ou religiões organizadas, que
nos apresentam uma "estrada pavimentada" até Deus, com seus rituais, liturgias,
hinos, suas imagens, fiéis, escrituras sagradas. Entupimos o intelecto de
informações — como se, para reconciliar-nos com o divino, fosse isso o que
faltasse: informação.
Porém, "aquele que procura", ao buscar algo diferente de si mesmo como objeto
de satisfação permanente, ainda está reafirmando a mesma relação dual que, logo
de início, o distanciara da Totalidade; simultaneamente, está se condenando ao
tempo (pois o ideal está distante) e ao esforço (pois é o imperfeito tentando
atingir a Perfeição).
Mesmo quando nos entregamos aos atos considerados religiosos, essa entrega
geralmente é parcial, condicionada aos resultados obtidos... temos um olho no
amanhã, na melhoria de vida, de saúde, na salvação. Não percebemos que não
pode haver salvação enquanto houver o eu querendo se salvar. A metáfora
para isto é que "o grão precisa morrer para germinar". Sendo assim, a
realização da Felicidade ocorre... quando não houver ninguém para ser
feliz.
Mas isto nos escapa, e, assim, pelejamos para
atingir um estado duradouro, permanente, imune às intempéries da existência, o
que reafirma novamente a relação dual, separativa, pois: se há um objetivo, há
um sujeito que almeja por ele. Portanto, por mais sutis que sejam, tudo isso
são idéias — idéias de um "eu" cada vez mais rarefeito que tem sofrido, que tem
buscado a transcendência, desejoso de chegar a um patamar onde não se vê mais o
medo nem a ansiedade.
Esses, porém, e muitos outros, são os objetos
que vêm a reboque de nossas conquistas quando embarcamos em nossa busca da
Felicidade. Percebemos então, finalmente, que os pares de opostos são a
base e o conteúdo de nossa consciência discriminativa; ou seja, bem e mal,
gosto e desgosto, alegria e tristeza, prazer e dor e os demais pares de opostos
são, de fato, como disseram os sábios, faces opostas da mesma moeda. Que
moeda é esta? O que é a Totalidade que se apresenta bipolarizada? E quem poderá
responder a essa pergunta? O Universo assim se manifesta, e o coroamento da
criação parece ser exatamente o sujeito que discerne entre essas
polaridades. Ele é o anjo decaído. Esse mesmo, o "eu" que se separou a fim de
procurar sua felicidade individual nos objetos da experiência, perdendo-se nos
meandros de suas preferências e aversões.
Mas agora, amadurecido, a busca é outra:
já não se trata dos objetivos materiais, sensoriais; pensamos em termos de paz
espiritual. Nesse estágio, a Felicidade cada vez deixa de ser um objetivo a ser
atingido no decurso do tempo, e mais se parece com uma não-coisa, não
isso, não aquilo.
Não desejo, não prazer, não dor, não medo, não
angústia, não ansiedade, não amanhã, não ressentimentos, não saudade, não
raiva, não sentimentos de culpa, e, naturalmente... também não busca, e nem
esforço para ser feliz. O buscador amadurecido intui que, sem nada disso, há
Felicidade. Chega a isso não como um atalho, não por leituras, não por teorias,
mas após enveredar pelos caminhos tortuosos gerados pela ilusão do sujeito
pessoal — e colher inúmeras decepções face à transitoriedade e
mutabilidade constante de todas as coisas.
Não isso, não aquilo. Em outras
palavras: em sua profundidade, nossa alma anela pelo vazio, pelo Ser sem forma,
pela Energia consciente de si mesma, pela Inteligência criadora e livre de
conceitos.
É esse o sentido do belíssimo poema de Rhumi:
Neste mundo ilusório, Vazio é o que a alma almeja.
E isso não necessita de um "eu" individual à parte do todo — na verdade é esse
o problema e a possibilidade de solução do problema —, mas de algum modo
necessita de percepção, de testemunho: algo que, graças a este corpo e a esta
existência, com todo o seu desfile de prazeres e horrores, seja consciente de
algo não pertencente a este corpo, esta existência, a estes sentimentos,
sensações e pensamentos tiranos que governam nosso estar no mundo.
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