|
Ela está sempre postada à entrada da padaria. Quando o freguês entra para
comprar algo, ela o olha bem nos olhos e diz invariavelmente:
"Moço, na saída me dá o troco!"
E eu, invariavelmente, fico bravo com a
cobrança antecipada. Pego meu pãozinho e saio direto, com troco e tudo. Ao
passar por ela, ainda ouço:
"Deus abençoa!"
Fico com mais raiva ainda, e vou para o
estacionamento. Quanta coisa me vem à cabeça! Sei muito bem que as classes
dominantes de nosso país, através da Princesa Isabel, só consentiram com a
"libertação" dos negros quando o escravagismo já era inútil como sistema
econômico; os pobres homens ficaram foi sem trabalho, e sem nada, abandonados
como párias na sociedade.
E, de lá para cá, quantos milhões deles levam
uma vida miserável, cheia de desprezo e condenação. "E eu não lhe dei nada",
pensei arrependido, "e ainda fiquei revoltado, quando ela é que devia estar
revoltada!".
Como lidar com isso? Conheço quem sempre dê a
esmola - já anda com um conjunto de moedas para essa finalidade - para
aliviar-se do mal estar de ter algo, enquanto o pedinte nada tem, e fica
exibindo suas chagas em troca de esmolas. Então ele dá realmente algo, sempre e
automaticamente. É a melhor solução? Tudo tem o lado bom e o lado mau; é só
procurar que as argumentações vêm aos montes.
Mas não é disso que quero falar. Na última vez
que fui na padaria, já era noitinha, entrei e não tinha ninguém pedindo, nem
cobrando nada. Fiquei aliviado. Entrei e comprei meus pãezinhos. Ao sair,
defrontei-me, sentadinho bem no canto da porta, com um negrinho de uns dois
anos, mal e mal segurando uma cuia contendo umas poucas moedas!
Isso me impactou demais. Olhei, mas não vi a
mãe. Tocado, peguei o troco e coloquei na cuia, dizendo ao Menino: "pega,
corintianinho". Ele me olhou por um instante, curioso, com dois olhos
bonitos e luminosos, depois olhou distraidamente para os lados, com a cuia caindo das mãos. Aí apareceu
a mãe, e ao lado dela um mulato magro e alto, ambos sorridentes, não sei por
que. E a mãe disse:
"Fala Deus abençoa pro moço, meu filho!"
|