Escolhas e responsabilidade: questões para pensar

de José Carlos Corrêa Cavalcanti - 08/11/2006


Fala-se muito em escolhas, em sermos responsáveis pelas escolhas feitas. O assunto, porém, é bastante complexo, pois essa questão só faz sentido perante a existência de um escolhedor com liberdade de escolha. Quem, ou o quê é o escolhedor? quem, ou o quê é responsável? Se o misterioso escolhedor estiver inteiramente programado pelas aprendizagens, crenças, ideologias e preconceitos acumulados, há alguma liberdade em suas escolhas? E, se não houver liberdade, como pode haver responsabilidade?

Pense nisso: escolhemos concordar com quem concorda conosco, ou discordar de quem de nós discorda? Ou isso é automático? Ou ainda: escolhemos ficar magoados, decepcionados, raivosos ou arrependidos após uma discussão?  Em outras palavras: nosso "eu" escolhe suas reações, ou elas acontecem à sua revelia?

É certo que nosso "histórico", isto é, nossas crenças, valores, ideologias e condicionamentos tornam previsíveis grande parte de nossas escolhas, e nos tornam manipuláveis, desde que sejam apertados os botões certos, que aliás é o que tenta fazer toda propaganda, toda tentativa de convencimento.

Porém, gostamos de pensar que escolher é um ato livre e soberano, consistindo em apontar ou selecionar uma opção entre várias disponíveis e seguir com ela, enveredando pelas possibilidades que ela representa, como fazemos ao escolher as dezenas da mega-sena acumulada, por exemplo. Essa é a configuração clássica da escolha (com algum sentido de liberdade): de um lado, estamos nós, os escolhedores, de outro, estão os números de 1 a 60, esperando placidamente ser escolhidos, para compor as seis dezenas que poderão nos deixar ricos.

Nesses casos, o escolhedor é mental (o emocional fica em segundo plano) e a relação é claramente do tipo sujeito-objeto, tendo o sujeito algum tempo para raciocinar sobre as variáveis envolvidas no contexto, prever os riscos e as vantagens de um dado procedimento, projetar estratégias para levar adiante a decisão escolhida. Vemos que o mecanismo da escolha é o pensamento, através de comparações e avaliações, sempre visando o sucesso, bem-estar, ou algum tipo de satisfação.

Essa maneira de escolher é totalmente subvertida em inúmeras situações, como em uma discussão acalorada, quando vemos nossos conteúdos internos (valores, juízos, preconceitos, etc.) emergirem automaticamente, em geral de forma apaixonada, exagerada, e muitas vezes inadequada. A  reação vem por si mesma, sem ninguém a conduzi-la, e a "escolha" das palavras é quase inconsciente.

Intelectualmente, gostamos de pensar que somos livres, que nosso "eu" tem liberdade de opção. Mas essa liberdade costuma ser muito restrita, pois somos demasiadamente afetados por nossas opiniões, crenças e ideologias. Nossos contextos emocionais parecem estar sempre armados; é só alguém pisar em uma de nossas minas para explodirmos em seguida.

Em situações assim, nossos conteúdos psicológicos obscuros e dolorosos emergem automaticamente, manifestando-se de acordo com as propensões individuais: há aqueles que tendem a se expressar com veemência, outros reagem como vítimas; uns se exaltam com facilidade, outros têm mais paciência e assim por diante. Esses comportamentos são muito influenciados pelas tendências psicofísicas do organismo como um todo (fragilidade ou vitalidade emocional, órgãos de choque extremamente sensíveis ou não, estado geral dos aspectos mental, físico e psicológico, etc.) e são bastante repetitivos, ao longo de toda a existência.

Em outras palavras, quando o emocional predomina fortemente, fica difícil falar em escolha e mais ainda em liberdade, pois torna-se muito tênue a relação sujeito-objeto  entre o "eu" e o caldeirão das emoções. Essas energias se apossam do ser e se expressam com veemência, às vezes até com violência, gerando conseqüências desastrosas. Por isso, grande parte dos processos educacionais e religiosos destina-se a inculcar valores morais, exemplos elogiáveis ou condenáveis, normas legais, projetando reconhecimento social (ou castigo) em função das "escolhas",  desenvolvendo assim o sentido do ego como uma figura separada da psique, como censor e controlador das emoções. 

A presença do eu-ego racional, centrado na memória e no pensamento, como o agente encarregado de controlar as emoções,  fixa a relação dual entre o "eu" e os conteúdos da mente, relação essa baseada na repressão de alguns desses conteúdos (como raiva, inveja, ressentimentos, etc.) em prol da expressão de outros, o que, à primeira vista, nos parece ser uma livre escolha.

Mas, se olharmos bem, grande parte da noção do "eu-ego" corresponde a uma espécie de "agente" do meio cultural, familiar e social, devidamente "plantado" entre nossos conteúdos mentais (informações) e emocionais (prazer e dor), a fim de sustentar os valores da família, da tribo, da sociedade. Isso é chamado de "educação".  Quanto mais eficaz a ação desse guarda, mais coeso e seguro estará o tecido social, e menos policiamento e repressão serão necessários. Qualquer que seja a ação do guarda, porém, será uma manifestação de sua orientação religiosa, familiar, social ou profissional — ou uma reação oposta a tudo isso. Obviamente, aí não há liberdade, nem na ação nem na reação.

Entretanto, não consideramos que nosso eu seja "apenas" um agregado de sensações, conceitos e valores derivados da experiência cultural, profissional, familiar, social,  religiosa, bem como das experiências do corpo. Temos a impressão de haver um "sujeito que escolhe" unitário e permanente, que existe por si mesmo e é pré-existente às escolhas,  sendo hieraquicamente superior aos pensamentos, sensações, percepções e emoções, e, ainda por cima, dotado de livre arbítrio. E com ele nos identificamos inconscientemente.

Só muito raramente, porém,  alguém tem a experiência real (consciente) de vivenciar um estado além do ego e suas respostas aprendidas — e somente nesse estado se poderia falar em liberdade e livre arbítrio —, pois, na prática cotidiana,  é inequivocamente o pensamento, como informação e avaliação contínua que é, o instrumento sempre presente e sempre utilizado para nossas escolhas. É como se o pensamento se apropriasse do ser total que somos, governando a casa de acordo com as propensões do momento.

Essa é a noção comum de nós mesmos — como o indivíduo que sente, percebe, que interpreta, avalia e escolhe, mas que não é a sensação, nem a percepção, nem a interpretação, nem a avaliação nem a escolha. É algo abstrato, intangível que chamamos "eu".  Na prática, porém, isto é, na nossa vivência cotidiana, o Ser está recoberto por camadas e camadas de emoções, conceitos, preconceitos, crenças e ideologias, e não é percebido de forma alguma, pois se confunde com tudo isso. E o que emerge de nossa auto-percepção, através do pensamento ininterrupto, é a enganosa sensação de continuidade pessoal — nosso "eu"  parece-nos permanente, único e indivisível, embora sejamos mutáveis, múltiplos e fragmentados.

Constituído pelos processos e conteúdos mentais e emocionais, na forma de pensamentos, juízos, preferências e aversões, previsões, avaliações, escolhas, o "eu-ego" parece ocupar indevidamente o lugar que, na origem, cabe ao Ser não formado, não agregado, não condicionado, não-pessoal, não avaliador —  e tenta, inutilmente "pôr ordem na casa", através de decisões e escolhas condicionadas, só conseguindo, porém, semear mais confusão.

O livre arbítrio ao nível do eu-ego é uma impossibilidade; é preciso alcançar o lugar que fica antes da elocução dos pensamentos e avaliações, pois é somente ali que se situam a liberdade e a criatividade — em um estado de indeterminação do qual não somos conscientes, onde não estamos presentes, e que é prontamente "raptado" pelo eu-ego pessoal e suas respostas previsíveis, ainda que complexas.

Não estou aqui combatendo a noção de ego; isso seria uma tolice e uma contradição em termos. Talvez essa noção seja um equívoco necessário, pois como poderia o haver o testemunho da Criação sem que a Consciência Cósmica se divida em observador e observado? Permanecer eternamente separado, porém, já é outra história — é a nossa história em  muitas existências, atados à roda dos nascimentos e mortes.

Precisamos compreender que, ao apropriar-se da indeterminação, da incerteza criativa, do estado de energia pura que há em cada momento, o eu-ego pessoal está continuamente reafirmando a si mesmo, seu desejo de permanência e de felicidade individual, ao custo de uma enorme carga de mêdo e ansiedade.  Somente centrados no aqui-agora, no silêncio da mente e no vazio deste instante adimensional, poderemos falar em livre arbítrio, em liberdade de escolha.
 

Voltar