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Fala-se muito em escolhas, em sermos
responsáveis pelas escolhas feitas. O assunto, porém, é bastante complexo, pois
essa questão só faz sentido perante a existência de um escolhedor com liberdade
de escolha. Quem, ou o quê é o escolhedor? quem, ou o quê é
responsável? Se o misterioso escolhedor estiver inteiramente
programado pelas aprendizagens, crenças, ideologias e preconceitos acumulados,
há alguma liberdade em suas escolhas? E, se não houver liberdade, como pode
haver responsabilidade?
Pense nisso: escolhemos concordar com quem concorda conosco, ou discordar de
quem de nós discorda? Ou isso é automático? Ou ainda: escolhemos ficar
magoados, decepcionados, raivosos ou arrependidos após uma
discussão? Em outras palavras: nosso "eu" escolhe suas reações, ou
elas acontecem à sua revelia?
É certo que nosso "histórico", isto é, nossas
crenças, valores, ideologias e condicionamentos tornam previsíveis grande
parte de nossas escolhas, e nos tornam manipuláveis, desde que sejam apertados
os botões certos, que aliás é o que tenta fazer toda propaganda,
toda tentativa de convencimento.
Porém, gostamos de pensar que escolher é um ato
livre e soberano, consistindo em apontar ou selecionar uma opção entre
várias disponíveis e seguir com ela, enveredando pelas possibilidades
que ela representa, como fazemos ao escolher as dezenas da mega-sena acumulada,
por exemplo. Essa é a configuração clássica da escolha (com algum sentido de
liberdade): de um lado, estamos nós, os escolhedores, de outro, estão os
números de 1 a 60, esperando placidamente ser escolhidos, para compor as
seis dezenas que poderão nos deixar ricos.
Nesses casos, o escolhedor é mental (o
emocional fica em segundo plano) e a relação é claramente do tipo
sujeito-objeto, tendo o sujeito algum tempo para raciocinar sobre as variáveis
envolvidas no contexto, prever os riscos e as vantagens de um
dado procedimento, projetar estratégias para levar adiante a decisão
escolhida. Vemos que o mecanismo da escolha é o pensamento, através de
comparações e avaliações, sempre visando o sucesso, bem-estar, ou algum tipo
de satisfação.
Essa maneira de escolher é totalmente
subvertida em inúmeras situações, como em uma discussão acalorada,
quando vemos nossos conteúdos internos (valores, juízos, preconceitos,
etc.) emergirem automaticamente, em geral de forma apaixonada,
exagerada, e muitas vezes inadequada. A reação vem por si
mesma, sem ninguém a conduzi-la, e a "escolha" das palavras é quase
inconsciente.
Intelectualmente, gostamos de pensar que somos
livres, que nosso "eu" tem liberdade de opção. Mas essa liberdade costuma
ser muito restrita, pois somos demasiadamente afetados por nossas opiniões,
crenças e ideologias. Nossos contextos emocionais parecem estar sempre
armados; é só alguém pisar em uma de nossas minas para explodirmos em
seguida.
Em situações assim, nossos conteúdos
psicológicos obscuros e dolorosos emergem automaticamente,
manifestando-se de acordo com as propensões individuais: há aqueles que
tendem a se expressar com veemência, outros reagem como vítimas; uns se exaltam
com facilidade, outros têm mais paciência e assim por diante. Esses
comportamentos são muito influenciados pelas tendências psicofísicas do
organismo como um todo (fragilidade ou vitalidade emocional, órgãos de choque
extremamente sensíveis ou não, estado geral dos aspectos mental, físico e
psicológico, etc.) e são bastante repetitivos, ao longo de toda a existência.
Em outras palavras, quando o emocional
predomina fortemente, fica difícil falar em escolha e mais ainda em liberdade,
pois torna-se muito tênue a relação sujeito-objeto entre o "eu" e o
caldeirão das emoções. Essas energias se apossam do ser e se expressam com
veemência, às vezes até com violência, gerando conseqüências desastrosas. Por
isso, grande parte dos processos educacionais e religiosos destina-se a
inculcar valores morais, exemplos elogiáveis ou condenáveis, normas legais,
projetando reconhecimento social (ou castigo) em função das "escolhas",
desenvolvendo assim o sentido do ego como uma figura separada da psique,
como censor e controlador das emoções.
A presença do eu-ego racional, centrado na memória e no
pensamento, como o agente encarregado de controlar as emoções, fixa a
relação dual entre o "eu" e os conteúdos da mente, relação essa
baseada na repressão de alguns desses conteúdos (como raiva, inveja,
ressentimentos, etc.) em prol da expressão de outros, o que, à
primeira vista, nos parece ser uma livre escolha.
Mas, se olharmos bem, grande parte da noção do
"eu-ego" corresponde a uma espécie de "agente" do meio cultural,
familiar e social, devidamente "plantado" entre nossos conteúdos mentais
(informações) e emocionais (prazer e dor), a fim de sustentar os valores da
família, da tribo, da sociedade. Isso é chamado de
"educação". Quanto mais eficaz a ação desse guarda, mais coeso
e seguro estará o tecido social, e menos policiamento e
repressão serão necessários. Qualquer que seja a ação do guarda,
porém, será uma manifestação de sua orientação religiosa, familiar, social
ou profissional — ou uma reação oposta a tudo isso. Obviamente, aí não há
liberdade, nem na ação nem na reação.
Entretanto, não consideramos que nosso eu seja
"apenas" um agregado de sensações, conceitos e valores derivados da experiência
cultural, profissional, familiar, social, religiosa, bem como das
experiências do corpo. Temos a impressão de haver um "sujeito que escolhe"
unitário e permanente, que existe por si mesmo e é pré-existente às
escolhas, sendo hieraquicamente superior aos pensamentos, sensações,
percepções e emoções, e, ainda por cima, dotado de livre arbítrio. E com
ele nos identificamos inconscientemente.
Só muito raramente, porém, alguém
tem a experiência real (consciente) de vivenciar um estado além do ego e suas
respostas aprendidas — e somente nesse estado se poderia falar em liberdade e
livre arbítrio —, pois, na prática cotidiana, é inequivocamente o
pensamento, como informação e avaliação contínua que é, o instrumento
sempre presente e sempre utilizado para nossas escolhas. É como se o pensamento
se apropriasse do ser total que somos, governando a casa de acordo com as
propensões do momento.
Essa é a noção comum de nós mesmos — como o
indivíduo que sente, percebe, que interpreta, avalia e escolhe, mas que não é a
sensação, nem a percepção, nem a interpretação, nem a avaliação nem a escolha.
É algo abstrato, intangível que chamamos "eu". Na prática, porém,
isto é, na nossa vivência cotidiana, o Ser está recoberto por camadas e camadas
de emoções, conceitos, preconceitos, crenças e ideologias, e não é percebido de forma alguma, pois se confunde com tudo isso. E o que emerge de nossa
auto-percepção, através do pensamento ininterrupto, é a enganosa
sensação de continuidade pessoal — nosso "eu" parece-nos
permanente, único e indivisível, embora sejamos mutáveis, múltiplos e
fragmentados.
Constituído pelos processos e conteúdos mentais
e emocionais, na forma de pensamentos, juízos, preferências e aversões,
previsões, avaliações, escolhas, o "eu-ego" parece ocupar indevidamente o lugar
que, na origem, cabe ao Ser não formado, não agregado, não condicionado,
não-pessoal, não avaliador — e tenta, inutilmente "pôr ordem na
casa", através de decisões e escolhas condicionadas, só conseguindo, porém,
semear mais confusão.
O livre arbítrio ao nível do eu-ego é uma
impossibilidade; é preciso alcançar o lugar que fica antes
da elocução dos pensamentos e avaliações, pois é somente ali que se situam
a liberdade e a criatividade — em um estado de indeterminação do qual não somos
conscientes, onde não estamos presentes, e que é prontamente "raptado" pelo
eu-ego pessoal e suas respostas previsíveis, ainda que complexas.
Não estou aqui combatendo a noção de ego;
isso seria uma tolice e uma contradição em termos. Talvez essa noção seja um
equívoco necessário, pois como poderia o haver o testemunho da Criação sem que
a Consciência Cósmica se divida em observador e observado? Permanecer
eternamente separado, porém, já é outra história — é a nossa história em
muitas existências, atados à roda dos nascimentos e mortes.
Precisamos compreender que, ao
apropriar-se da indeterminação, da incerteza criativa, do estado de energia
pura que há em cada momento, o eu-ego pessoal está continuamente reafirmando
a si mesmo, seu desejo de permanência e de felicidade individual, ao custo de uma enorme carga
de mêdo e ansiedade. Somente centrados no aqui-agora, no silêncio da mente e no vazio
deste instante adimensional, poderemos falar em livre arbítrio,
em liberdade de escolha.
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