Falsas vitórias - 18/08/06


Há algo errado com a espécie humana. Ao mesmo tempo que todos amamos nossos filhos, estimamos nossos amigos, temos as melhores intenções e desejamos a felicidade, cresce ininterruptamente a crueldade, a violência, a miséria. E o engraçado é que quase todos professamos uma religião que fala em paz, em céu, em justiça.

Na década de 70, beirando meus 30 anos, comprei um "LP" de Mercedes Sosa, a grande cantora argentina. Ela era, e é, uma cantora com uma causa. Sua causa é a liberdade e o amor, a abolição da exploração e a união de todos os latino-americanos — e suas armas são a poesia e o canto. Em particular, me comovia, e ainda me comove tremendamente, um canto melodioso e tão humanista desse LP, chamado "Hai un niño en la calle" (de Armando Tejada Gómez).

Vejam um trecho do lindo poema: 

A esa hora exactamente hai un niño en la calle.

Não precisaria mais. O primeiro verso já mostra a força do poema. Mas ele prossegue, com a denúncia implacável: 

Es honra de los hombres / proteger lo que crece
cuidar que no halla infancia / dispersa por la calle
evitar que naufrague / su corazón de barco
su increíble aventura / de pan y chocolate!!
...
de otro modo es inútil
ensayar en la tierra la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale, si hay un niño en la calle !

Uma criança na rua. Abandonada, vagando errante, comendo restos. Se há uma criança na rua, então tudo é absurdo, não vale a pena, tudo é falso, os homens não têm honra. Como celebrar, "ensaiar na terra a alegria e o canto?". Não vale a pena, precisamos parar com tudo, e chorar semanas e meses por todo nosso desatino humano.

No Brasil, as elites fracassaram totalmente. Nos últimos 35 anos, o contingente de miseráveis, desempregados e excluídos deste país aumentou mais e mais, apesar do velho, falso e útil discurso dos políticos de sempre, tão parecido com os atuais, destinado ao convencimento dos incautos e à conquista do poder.

Mas não estamos sós. Em escala mundial, a violência e a exclusão social há muito passaram de níveis alarmantes para se tornarem absolutamente trágicos. Ainda recentemente, vimos o Oriente Médio explodir em mais um conflito de graves proporções, com milhares de mortos. Depois de mais de um mês de chacinas (e como banalizamos, como lidamos "bem" com palavras como chacinas, bombardeios, limpeza étnica , etc.), uma resolução de cessar-fogo da ONU entrou em vigor a partir de 14/08/2006, impondo uma trégua na região conflagrada.

Até então, segundo o noticiário (fonte:UOL, em 18/08/2006), "pelo menos 1.110 libaneses e 157 israelenses morreram no conflito iniciado em 12 de julho, quando o Hizbollah capturou dois soldados israelenses numa ação na fronteira. Israel diz ter matado 530 guerrilheiros."

Pelo que se noticiou, o número de desabrigados chega a quase 1 milhão. Todos nós vimos as famílias de brasileiros de origem libanesa sendo repatriados pelo Governo, e, aqui chegando, beijar o chão, emocionados, com muitos deles chorando amargamente.

Ainda segundo o noticiário,

"... pelo menos 110 cadáveres foram encontrados em todo o país desde o cessar-fogo de segunda-feira passada, muitos deles em estado de decomposição avançado... os serviços de resgate ainda não conseguiram chegar a todas as regiões... os restos de 13 pessoas, entre elas sete crianças e um bebê, foram encontrados hoje entre os escombros produzidos pelos bombardeios israelenses contra o bairro de Rueis no domingo, nas vésperas do fim das hostilidades."

Num desses bombardeios, foi atingido um alvo civil com cerca de 30 mulheres e seus filhos. Morreram todos. Os serviços de resgate nao puderam fazer nada, a não ser observar, estarrecidos, que muitas crianças morreram abraçadas a suas mães. 

Já não se trata de crianças abandonadas nas ruas; a criatividade humana já deu provas de inventar horrores muito maiores do que isso. Eu imagino as mãezinhas, nos últimos momentos, tentando confortar suas crianças, com o ruído ensurdecedor das bombas explodindo em toda parte !

Perante tudo isso, quero que os contendores me expliquem que eles estão certos, que sua causa é a causa da justiça. Talvez eles acreditem nisso. Talvez não achem que são movidos apenas por ódio e desejo de vingança, numa espiral de violência que gera mais violência.

Quero que me expliquem as imagens que foram ao ar pela TV na terça-feira (15/08/2006), em que os soldados israelenses celebravam o cessar-fogo cantando e bebendo, próximos a seus tanques, enquanto os milicianos do Hizbollah atiravam para o ar, com ambos os lados comemorando vitória no horrendo conflito.

Mas, se todos foram vitoriosos, então quem foram os derrotados?

Seriam as dezenas de mulheres e crianças israelenses mortas em atentados terroristas, pelos homens-bomba suicidas que se explodem nos ônibus e mercados superlotados de Israel?

Ou seriam as crianças libanesas que morreram abraçadas às suas mães, atingidas pelo bombardeio de moderníssimos caças israelenses?

Ou a grande derrotada não será a civilização humana como um todo sobre a face da Terra? Se matamos um inocente que seja, já não é a barbárie, a falência, o fracasso total? Lembrem-se: "a esa hora exactamente, hai um niño en la calle".

Uma coisa, porém, pode-se garantir: o verdadeiro vitorioso é o nosso modelo psicológico egocentrado, tribal e predatório, que tem causado danos indescritíveis e sofrimentos selvagens nesses poucos milênios que estamos ocupando o Planeta Terra.

Sim, há algo muito errado com a espécie humana, mas, infelizmente, parecemos não estar interessados em saber do que se trata. Destruímo-nos uns os outros em nome de belos ideais, e, enquanto nos justificamos com mil razões, perdemos a oportunidade de conhecer a fera que está se manifestando. Ao menos, poderíamos ter a dignidade de assumir-nos como somos, vingativos, racistas, violentos.

Olhar nossa monstruosidade sem fugir dela e sem justificá-la pelas condições, apenas olhar-nos no espelho, sabendo o que temos feito — o ato em si, em toda sua crueza. E não se horrorize ao ver sua própria imagem, quem puder.

 

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