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Há algo errado com a espécie humana. Ao mesmo tempo que todos amamos nossos
filhos, estimamos nossos amigos, temos as melhores intenções e desejamos a
felicidade, cresce ininterruptamente a crueldade, a violência, a miséria.
E o engraçado é que quase todos professamos uma religião que fala em paz, em
céu, em justiça.
Na década de 70, beirando meus 30 anos, comprei
um "LP" de Mercedes Sosa, a grande cantora argentina. Ela era, e é, uma cantora
com uma causa. Sua causa é a liberdade e o amor, a abolição da exploração e a
união de todos os latino-americanos — e suas armas são a poesia e o canto. Em particular, me comovia, e ainda me
comove tremendamente, um canto melodioso e tão humanista desse LP, chamado "Hai
un niño en la calle" (de Armando Tejada Gómez).
Vejam um trecho do lindo poema:
A esa hora exactamente hai un niño en la calle.
Não precisaria mais. O primeiro verso já mostra a força do poema. Mas ele
prossegue, com a denúncia implacável:
Es honra de los hombres / proteger lo que crece
cuidar que no halla infancia / dispersa por la calle
evitar que naufrague / su corazón de barco
su increíble aventura / de pan y chocolate!!
...
de otro modo es inútil
ensayar en la tierra la alegría y el canto,
de otro modo es absurdo
porque de nada vale, si hay un niño en la calle !
Uma criança na rua. Abandonada, vagando errante, comendo restos. Se
há uma criança na rua, então tudo é absurdo, não vale a pena, tudo é
falso, os homens não têm honra. Como celebrar, "ensaiar na terra a alegria
e o canto?". Não vale a pena, precisamos parar com tudo, e chorar semanas e
meses por todo nosso desatino humano.
No Brasil, as elites fracassaram totalmente. Nos últimos 35 anos,
o contingente de miseráveis, desempregados e excluídos deste país aumentou mais e mais, apesar do
velho, falso e útil discurso dos políticos de sempre, tão parecido com
os atuais, destinado ao convencimento dos incautos e à conquista do poder.
Mas não estamos sós. Em escala mundial, a
violência e a exclusão social há muito passaram de níveis alarmantes para se
tornarem absolutamente trágicos. Ainda recentemente, vimos o Oriente Médio
explodir em mais um conflito de graves proporções, com milhares de mortos.
Depois de mais de um mês de chacinas (e como banalizamos, como lidamos "bem"
com palavras como chacinas, bombardeios, limpeza étnica
, etc.), uma resolução de cessar-fogo da ONU entrou em vigor a partir de
14/08/2006, impondo uma trégua na região conflagrada.
Até então, segundo o noticiário (fonte:UOL, em 18/08/2006), "pelo menos 1.110
libaneses e 157 israelenses morreram no conflito iniciado em 12 de julho,
quando o Hizbollah capturou dois soldados israelenses numa ação na fronteira.
Israel diz ter matado 530 guerrilheiros."
Pelo que se noticiou, o número de desabrigados chega a quase 1 milhão. Todos
nós vimos as famílias de brasileiros de origem libanesa sendo repatriados pelo
Governo, e, aqui chegando, beijar o chão, emocionados, com muitos deles
chorando amargamente.
Ainda segundo o noticiário,
"... pelo menos 110 cadáveres foram encontrados
em todo o país desde o cessar-fogo de segunda-feira passada, muitos deles em
estado de decomposição avançado... os serviços de resgate ainda não conseguiram
chegar a todas as regiões... os restos de 13 pessoas, entre elas sete crianças e
um bebê, foram encontrados hoje entre os escombros produzidos pelos
bombardeios israelenses contra o bairro de Rueis no domingo, nas vésperas do
fim das hostilidades."
Num desses bombardeios, foi atingido um alvo
civil com cerca de 30 mulheres e seus filhos. Morreram todos. Os serviços de
resgate nao puderam fazer nada, a não ser observar,
estarrecidos, que muitas crianças morreram abraçadas a suas mães.
Já não se trata de crianças abandonadas nas
ruas; a criatividade humana já deu provas de inventar horrores muito maiores do
que isso. Eu imagino as mãezinhas, nos últimos momentos, tentando
confortar suas crianças, com o ruído ensurdecedor das bombas explodindo em toda
parte !
Perante tudo isso, quero que os contendores me
expliquem que eles estão certos, que sua causa é a causa da justiça. Talvez
eles acreditem nisso. Talvez não achem que são movidos apenas por ódio
e desejo de vingança, numa espiral de violência que gera mais
violência.
Quero que me expliquem as imagens que foram ao ar pela TV na terça-feira
(15/08/2006), em que os soldados israelenses celebravam o cessar-fogo
cantando e bebendo, próximos a seus tanques, enquanto os milicianos do
Hizbollah atiravam para o ar, com ambos os lados comemorando vitória
no horrendo conflito.
Mas, se todos foram vitoriosos, então quem
foram os derrotados?
Seriam as dezenas de mulheres e crianças israelenses mortas
em atentados terroristas, pelos homens-bomba suicidas que se explodem nos
ônibus e mercados superlotados de Israel?
Ou seriam as crianças libanesas que morreram
abraçadas às suas mães, atingidas pelo bombardeio de moderníssimos
caças israelenses?
Ou a grande derrotada não será a civilização humana como um todo sobre a face da Terra?
Se matamos um inocente que seja, já não é a barbárie, a
falência, o fracasso total? Lembrem-se: "a esa hora exactamente, hai um
niño en la calle".
Uma coisa, porém, pode-se garantir: o verdadeiro vitorioso é o nosso modelo psicológico egocentrado,
tribal e predatório, que tem causado danos indescritíveis e sofrimentos selvagens nesses poucos milênios
que estamos ocupando o Planeta Terra.
Sim, há algo muito errado com a espécie humana, mas, infelizmente,
parecemos não estar interessados em saber do que se trata. Destruímo-nos uns os
outros em nome de belos ideais, e, enquanto nos justificamos com mil razões,
perdemos a oportunidade de conhecer a fera que está se manifestando. Ao menos,
poderíamos ter a dignidade de assumir-nos como somos, vingativos, racistas,
violentos.
Olhar nossa monstruosidade sem fugir dela e sem
justificá-la pelas condições, apenas olhar-nos no espelho, sabendo o que temos
feito — o ato em si, em toda sua crueza. E não se horrorize ao ver sua própria
imagem, quem puder.
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