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No feriadão de Corpus Christi, passeando
em Casa Branca, adentrei em uma loja antiga, grande e confortável, com
aqueles veneráveis balcões de madeira escura, biombos e a atmosfera de
dignidade que a longevidade costuma trazer aos que passam pelas diversas fases
da existência, as de muitas alegrias e as de muitas, muitas vicissitudes.
Era uma tradicional loja de presentes, à qual
não faltavam aparelhos de som e mesmo televisores, chamada "Gadiani", de D.
Suzete Gadiani, na rua principal do comércio daquela graciosa cidade. Fui
apenas trocar a bateria do meu relógio, que depois de muito tempo esgotou-se no
ingrato serviço de me mostrar as horas, com as quais
vou dosando minha ansiedade pela vida afora, às vezes em doses
homeopáticas, outras vezes sendo tragado por ela.
Na hora de pagar, chamou-me a atenção uma folha
onde havia um texto impresso, chamado "Loja de Deus". Instantaneamente percebi
que seu conteúdo era muito belo, e fiz um comentário. A jovem atendente abriu
um belo sorriso e perguntou se gostei. Respondi que sim, e pedi uma cópia, no
que fui prontamente atendido. Assim, tenho o prazer de transcrever
neste humilde blog a bela composição, que infelizmente não menciona o
nome do autor.
Loja de Deus
Entrei e vi um anjo no balcão.
Maravilhado, disse-lhe:
— Santo Anjo, o que vendes?
Respondeu-me:
— Todos os dons de Deus.
Perguntei:
— E custam muito caro?
E ele me respondeu:
— Não, é tudo de graça.
Contemplei a loja e vi jarros com
sabedoria, vidros com fé, embrulhos com esperança, caixinhas com salvação,
pacotinhos com amor.
Tomei coragem e pedi, sofregamente:
— Por favor, Santo Anjo, quero muito
amor, todo o perdão possível, um grande vidro de fé, bastante felicidade porque
ando muito triste, e uma grande salvação porque sinto-me desorientado e
errante!
Então, o Anjo do Senhor preparou-me um
pequeno embrulho, tão pequeno, que cabia na palma de minha mão. Maravilhado,
mais uma vez eu não me contive e disse-lhe:
— É possível tudo isso estar aqui?
O Anjo respondeu-me, sorrindo:
— Meu querido irmão, na Loja de Deus não
vendemos os frutos, apenas as sementes.
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