O Jardineiro fiel (13/03/06)

Ontem fui ver "O jardineiro fiel". Quem quiser ver toda a sordidez de um mundo cujos interesses chegam a bilhões de dólares, tem nesse filme um prato cheio. Nele, mostram-se em cores cruas o poder e a podridão da indústria farmacêutica, ali comparada à indústria de armamentos.

Essa capacidade do capitalismo cortar na própria carne não é nova. Há alguns anos, num filme chamado "O fugitivo", Harrison Ford (o "Indiana Jones") fez um médico que detecta todos os sinais de corrupção no mundo dos grandes laboratórios, passando a ser considerado criminoso e sendo implacavelmente perseguido.


No final, porém, "o bem triunfa", com o herói fazendo um discurso com pesadas denúncias contra um ou outro laboratório, responsabilizando diretamente algumas pessoas.

Nesse tipo de filme sempre tem o herói idealista, intocado pela corrupção generalizada, que se esforça para mudar a ordem das coisas. O filme  mostra o bem separado do mal, como se a psique dos "mocinhos" fosse completamente diferente da mente dos "bandidos".

Porém, suas roupas, formação, profissão, relacionamentos, posses, casas e automóveis também refletem educação, gostos refinados, riqueza e poder; eles também pertencem ao "status quo", foram criados nele, usufruíram de suas vantagens, não eram imunes ao egoísmo e ambição.


Por mais válidos e importantes que sejam como denúncia, inegavelmente, filmes assim representam o sistema se autoflagelando, e o sentimento de culpa dos muito ricos diante de tanta injustiça e miséria, que eles ajudaram a criar e manter, inclusive lucrando com ela.

Já faz tempo que se diz que o capitalismo está sempre "mudando alguma coisa para continuar tudo basicamente do jeito que está". E isso, dando a ilusão de estar se transformando, se humanizando.

Mas seu ícone é o "Bezerro de Ouro". No fundo, só o lucro interessa.

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