Nunca ouviste passar o vento - 16/03/06

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"

"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"

"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."

"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos)

Se, quando assistes um soberbo pôr-do-sol, ou vês uma praia encantada, te lembras da tua infância, do teu primeiro amor, de uma bela viagem... nunca ouviste passar o vento.

Se, quando ouves o canto do sabiá, ou uma linda canção, te lembras de uma pessoa querida, de algo que já não tens mais.... nunca ouviste passar o vento.

E se nem ouves nem vês coisa nenhuma, e a simples associação de idéias te conduz por palácios encantados, trazendo-te um grande bem-estar, ou te faz vagar por florestas inóspitas, onde te sentes perdido... nunca ouviste passar o vento.

Assim será, enquanto a realidade não for mais do que um pretexto para continuarmos escutando constantemente a nós mesmos —  nossas vozes iradas, desconsoladas, ansiosas —, ou vendo as  imagens que nos marcaram, de tudo aquilo que temos conhecido ou experimentado, despertando assim velhas sensações, pelas quais vivemos.


 

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