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Recebi um email contendo uma seqüência de slides muito interessante,
chamada "Os sete vultos". A história é a seguinte:
Um homem está sentado num banco, num dia
ensolarado, de céu azul, em um gramado verde e florido, frente a um lindo
lago... de repente, ele recebe a visita de sete vultos estranhos,
com os rostos cobertos por capuzes, que se declaram "moradores do
futuro". Cada um deles se apresenta e faz um vaticínio sombrio: um é a
Fome, que declara sua intenção de pegá-lo mais tarde, outro é a Solidão, outros
são a Melancolia, o Desemprego, a Velhice, etc., todos ameaçando atormentar o
pobre homem nas curvas do futuro.
Este, há pouco relaxado na paisagem idílica,
põe-se a tremer. Mas, "respirando fundo, pouco a pouco foi se refazendo, e,
como num passe de mágica, ele pôde ver os rostos dos 7 vultos: eram exatamente
iguais ao dele!".
Então ele diz, vigorosamente:
"Parem! Vocês são ladrões de paz! São
assaltantes de mentes distraídas! Vocês não moram no futuro! Vocês são EU
mesmo! Vocês são meus pensamentos! Moram na minha cabeça, mas nela sou EU que
mando!"
Em seguida, ele reage aos prognósticos
assustadores de suas visitas indesejadas, mostrando, para cada situação
descrita pelos vultos, outra maneira de ver e lidar com as coisas, mais
otimista e esperançosa em cada uma delas. As horrendas figuras então se
transmutam, mudando suas pesadas expressões e se reapresentando como entidades
opostas às primeiras, com a Melancolia virando Alegria, a Solidão virando
companhia e acolhimento, etc, e assim termina a seqüência de slides.
Algumas características dessa mensagem,
bastante sutis, ficam subentendidas. Vejamos:
1) Há um EU nos processos mentais do personagem da história,
identificado (pelo menos no primeiro momento) com os seus
pensamentos, pois ele declara: "Vocês são Eu mesmo! Vocês são meus
pensamentos!" . Mas, logo adiante, ele faz outra declaração, bastante diferente:
"na minha cabeça sou EU que mando!" — diferente, pois, nesse caso, esse
EU está em posição hierarquicamente superior aos pensamentos, e
portanto existindo independente deles, podendo atuar sobre os mesmos,
através de uma firme determinação, seja recusando alguns, ou afirmando outros
2) Nossos fantasmas (os pensamentos
negativos) moram em nossa cabeça, mas não são considerados como parte
legítima da mente, devendo ser banidos e substituídos por outros mais
agradáveis, por imagens amenas e aconchegantes, ou seja, por outras construções
mentais, mais benéficas ao nosso estado de alma.
A entidade a que se refere o item (1) é
obviamente de natureza individual, pois visa restabelecer o bem estar daquele
que a afirma. E de que modo ela procura recuperar esse bem-estar?
selecionando os pensamentos que pensa, e conseqüentemente as emoções que sente.
Portanto, fica também subentendido que essa entidade é responsável pela
produção de pensamentos, ou ao menos pela seleção e controle dos mesmos, como
uma espécie de Censor interno.
Ao assumir a existência do Censor, somos
levados a crer que este identifica-se automaticamente com o Bem (representado
pelos "bons" pensamentos) em contraste com o Mal (os "maus" pensamentos e
sentimentos, sempre tentando nos assombrar ou corromper).
Assim, a psique humana, tendo um EU-Censor
auto-identificado com o Bem e reprimindo continuamente o Mal, torna-se um campo
de batalha psicológico baseado na separação (o EU é exterior aos pensamentos) e
na cisão interior, com o Bem e o Mal eternamente em luta.
Os pensamentos maléficos, ainda que
legítimos filhos da experiência humana, são "assaltantes de mentes
distraídas". É uma bela expressão, sem dúvida. Contudo, ela não se aplica aos
pensamentos benéficos; estes seriam o lugar natural do Censor, uma vez
conseguida a expulsão dos indesejáveis.
Na prática, isso representa um esforço
psicológico constante, pois implica a necessidade de erradicar os pensamentos
dolorosos, ou negativos, em prol daqueles que nos trazem conforto e bem-estar;
pois, antes de executar a sentença de "desterro" dos pensamentos indesejados, é
preciso julgá-los e condená-los. O juiz encarregado dessas etapas seria o
próprio EU-Censor.
Esse milenar modelo psicológico da mente humana
tem produzido uma incalculável quantidade de seitas, livros e
programas e organizações de auto-ajuda. Por exemplo,
utiliza-se a técnica de repetição de pensamentos
positivos, verbal ou silenciosamente, para afugentar a tristeza e o
desânimo, e trazer felicidade, ou, pelo menos, livrar-nos dos tormentos
nossos de cada dia. Podemos identificar sua influência também na Educação,
Religião, Filosofia, etc.
Mas, não seria o "agente" encarregado dessas
tarefas, ele próprio, uma forma mais sutil de pensamento concentrado? pois
para agir ele precisa de antemão saber o que fazer, e essa é uma revelação do
próprio pensamento. Acresce que um conceito condenável pode, nos desdobramentos
da cadeia causal, tornar-se justificável ou mesmo elogiável. Isso ocorre com a
mentira, ou até mesmo com a ambição, violência, etc. Ou seja, o mal não é
mal para sempre, depende do contexto, do tempo, dos hábitos e das condições
econômicas, sociais e psicológicas predominantes na sociedade.
Nesse caso, como fica o Censor? se ele muda de
julgamento e de opinião com o tempo e a experiência, não seria ele também
resultado do pensamento? São questões complexas que permanecem não apenas
não respondidas, mas também não discutidas e
também não conhecidas.
Agora, vejamos um trecho de poesia, onde
Ricardo Reis, o famoso heterônimo de Fernando Pessoa, fala sobre o assunto:
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Os "inúmeros" a que se refere o poeta são as
vozes mentais que ouvimos incessantemente, as quais são manifestações das
energias do corpo — o cérebro incluído —, desejando satisfação,
preenchimento ou conforto, tanto para dores ou necessidades físicas como para
lembranças de prazeres experimentados, ou perdas sofridas. São os nossos muitos
eus, os quais freqüentemente estão em contradição entre si.
O poeta, em sua simplicidade verdadeira,
declara: "ignoro quem é que pensa ou sente; sou somente o lugar onde se sente
ou pensa". Não há, portanto, o sujeito que pensa ou sente;
há apenas o processo de pensar e sentir.
Na mesma linha de reflexões, diz Álvaro de
Campos:
Nesta vida em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através dessa névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Em sua visão de si mesmo, o poeta
reconhece suas diversas compulsões, hábitos mentais, reações
emocionais com seus impactos físicos, e tudo o mais que compõe nossa vida
psicológica, como manifestações de tendências latentes de vidas anteriores,
expressando-se nesta existência. Como na conhecida analogia budista, a psique
humana é comparada a uma casa sem dono. A consciência, palco de todas as
representações mentais, está coberta de névoa, diz ele, uma névoa onde atuam
seus diversos eus, enquanto que está adormecido o Ser
verdadeiro.
Podemos avançar um pouco e admitir que, nessa
introvisão, assume-se como legítima, por assim dizer, a presença dos sete
vultos, ou de quaisquer outras vozes que nos ecoem mentalmente: são
manifestações de conteúdos ancestrais, profundamente agarrados ao nosso desejo
de viver, de vir-a-ser, e de eternidade como entidade individual.
Inúmeras questões podem ser levantadas, em cada
uma das abordagens citadas. Para muitos, talvez seu edifício mental se refugie
cada vez mais em suas tradições, a fim de manter a coesão interna. Outros
poderão ser fisgados pelo Mistério verdadeiro, que não pode ser manipulado por
respostas prontas ou semiprontas.
Enfim, cabe a cada um, dentro de seu amor à
verdade, descobrir dentro de si o que se é, através da prática dioturna do
autoconhecimento.
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