Os sete vultos - 07/08/06


Recebi um email contendo uma seqüência de slides muito interessante, chamada "Os sete vultos". A história é a seguinte:

Um homem está sentado num banco, num dia ensolarado, de céu azul, em um gramado verde e florido, frente a um lindo lago... de repente, ele recebe a visita de sete vultos estranhos, com os rostos cobertos por capuzes, que se declaram "moradores do futuro". Cada um deles se apresenta e faz  um vaticínio sombrio: um é a Fome, que declara sua intenção de pegá-lo mais tarde, outro é a Solidão, outros são a Melancolia, o Desemprego, a Velhice, etc., todos ameaçando atormentar o pobre homem nas curvas do futuro.

Este, há pouco relaxado na paisagem idílica, põe-se a tremer. Mas, "respirando fundo, pouco a pouco foi se refazendo, e, como num passe de mágica, ele pôde ver os rostos dos 7 vultos: eram exatamente iguais ao dele!".

Então ele diz, vigorosamente:

"Parem! Vocês são ladrões de paz! São assaltantes de mentes distraídas! Vocês não moram no futuro! Vocês são EU mesmo! Vocês são meus pensamentos! Moram na minha cabeça, mas nela sou EU que mando!"

Em seguida, ele reage aos prognósticos assustadores de suas visitas indesejadas, mostrando, para cada situação descrita pelos vultos, outra maneira de ver e lidar com as coisas, mais otimista e esperançosa em cada uma delas. As horrendas figuras então se transmutam, mudando suas pesadas expressões e se reapresentando como entidades opostas às primeiras, com a Melancolia virando Alegria, a Solidão virando companhia e acolhimento, etc, e assim termina a seqüência de slides.

Algumas características dessa mensagem, bastante sutis, ficam subentendidas. Vejamos:

1) Há um EU nos processos mentais do personagem da história, identificado (pelo menos no primeiro momento) com os seus pensamentos, pois ele declara: "Vocês são Eu mesmo! Vocês são meus pensamentos!" . Mas, logo adiante, ele faz outra declaração, bastante diferente: "na minha cabeça sou EU que mando!" — diferente, pois, nesse caso, esse EU está em posição hierarquicamente superior aos pensamentos, e portanto existindo independente deles, podendo atuar sobre os mesmos, através de uma firme determinação, seja recusando alguns, ou afirmando outros

 2) Nossos fantasmas (os pensamentos negativos) moram em nossa cabeça, mas não são considerados como parte legítima da mente, devendo ser banidos e substituídos por outros mais agradáveis, por imagens amenas e aconchegantes, ou seja, por outras construções mentais, mais benéficas ao nosso estado de alma.

A entidade a que se refere o item (1) é obviamente de natureza individual, pois visa restabelecer o bem estar daquele que a afirma. E de que modo ela procura recuperar esse bem-estar? selecionando os pensamentos que pensa, e conseqüentemente as emoções que sente. Portanto, fica também subentendido que essa entidade é responsável pela produção de pensamentos, ou ao menos pela seleção e controle dos mesmos, como uma espécie de Censor interno.

Ao assumir a existência do Censor, somos levados a crer que este identifica-se automaticamente com o Bem (representado pelos "bons" pensamentos) em contraste com o Mal (os "maus" pensamentos e sentimentos, sempre tentando nos assombrar ou corromper).

Assim, a psique humana, tendo um EU-Censor auto-identificado com o Bem e reprimindo continuamente o Mal, torna-se um campo de batalha psicológico baseado na separação (o EU é exterior aos pensamentos) e na cisão interior, com o Bem e o Mal eternamente em luta.

Os pensamentos maléficos, ainda que legítimos filhos da experiência humana, são "assaltantes de mentes distraídas". É uma bela expressão, sem dúvida. Contudo, ela não se aplica aos pensamentos benéficos; estes seriam o lugar natural do Censor, uma vez conseguida a expulsão dos indesejáveis.

Na prática, isso representa um esforço psicológico constante, pois implica a necessidade de erradicar os pensamentos dolorosos, ou negativos, em prol daqueles que nos trazem conforto e bem-estar; pois, antes de executar a sentença de "desterro" dos pensamentos indesejados, é preciso julgá-los e condená-los.  O juiz encarregado dessas etapas seria o próprio EU-Censor.

Esse milenar modelo psicológico da mente humana tem produzido uma incalculável quantidade de  seitas, livros e programas e organizações de auto-ajuda. Por exemplo, utiliza-se a técnica de repetição de pensamentos positivos, verbal ou silenciosamente, para afugentar a tristeza e o desânimo, e trazer felicidade, ou, pelo menos, livrar-nos dos tormentos nossos de cada dia. Podemos identificar sua influência também na Educação, Religião, Filosofia, etc.

Mas, não seria o "agente" encarregado dessas tarefas, ele próprio, uma forma mais sutil de pensamento concentrado? pois para agir ele precisa de antemão saber o que fazer, e essa é uma revelação do próprio pensamento. Acresce que um conceito condenável pode, nos desdobramentos da cadeia causal, tornar-se justificável ou mesmo elogiável. Isso ocorre com a mentira, ou até mesmo com a ambição, violência, etc. Ou seja, o mal não é mal para sempre, depende do contexto, do tempo, dos hábitos e das condições econômicas, sociais e psicológicas predominantes na sociedade.

Nesse caso, como fica o Censor? se ele muda de julgamento e de opinião com o tempo e a experiência, não seria ele também resultado do pensamento? São questões complexas que permanecem não apenas não respondidas, mas também não discutidas e também não conhecidas.

Agora, vejamos um trecho de poesia, onde Ricardo Reis, o famoso heterônimo de Fernando Pessoa, fala sobre o assunto:

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Os "inúmeros" a que se refere o poeta são as vozes mentais que ouvimos incessantemente, as quais são manifestações das energias do corpo — o cérebro incluído —, desejando satisfação, preenchimento ou conforto, tanto para dores ou necessidades físicas como para lembranças de prazeres experimentados, ou perdas sofridas. São os nossos muitos eus, os quais freqüentemente estão em contradição entre si.

O poeta, em sua simplicidade verdadeira, declara: "ignoro quem é que pensa ou sente; sou somente o lugar onde se sente ou pensa". Não há, portanto, o sujeito que pensa ou sente; há apenas o processo de pensar e sentir.

Na mesma linha de reflexões, diz Álvaro de Campos:

Nesta vida em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através dessa névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.

Em sua visão de si mesmo, o poeta reconhece suas diversas compulsões, hábitos mentais, reações emocionais com seus impactos físicos, e tudo o mais que compõe nossa vida psicológica, como manifestações de tendências latentes de vidas anteriores, expressando-se nesta existência. Como na conhecida analogia budista, a psique humana é comparada a uma casa sem dono. A consciência, palco de todas as representações mentais, está coberta de névoa, diz ele, uma névoa onde atuam seus diversos eus, enquanto que está adormecido o Ser verdadeiro.

Podemos avançar um pouco e admitir que, nessa introvisão, assume-se como legítima, por assim dizer, a presença dos sete vultos, ou de quaisquer outras vozes que nos ecoem mentalmente: são manifestações de conteúdos ancestrais, profundamente agarrados ao nosso desejo de viver, de vir-a-ser, e de eternidade como entidade individual.

Inúmeras questões podem ser levantadas, em cada uma das abordagens citadas. Para muitos, talvez seu edifício mental se refugie cada vez mais em suas tradições, a fim de manter a coesão interna. Outros poderão ser fisgados pelo Mistério verdadeiro, que não pode ser manipulado por respostas prontas ou semiprontas.

Enfim, cabe a cada um, dentro de seu amor à verdade, descobrir dentro de si o que se é, através da prática dioturna do autoconhecimento.
 

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