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Quantos votos de feliz aniversário, de Feliz
Ano Novo já nos demos e recebemos! E quão pouco significativos não terão sido
tantos deles, talvez a maioria! Meras formalidades, palavras convencionais para
satisfazer as expectativas da existência em sociedade, em geral — mas
é de bom tom proferi-las, sendo também considerado indiferença ou má
educação a ausência injustificada dos eventos que as ensejam.
Eu, por mim, porém, detenho-me na beleza
daquele verso de Renato Teixeira, em Romaria: "como não sei rezar, só podia
mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar...". Sim, creio na intensidade da
inocência, do amor que um simples olhar pode revelar. Cansado do excesso
de palavras, é isso, então, que meu coração pede: um olhar desses, um
momento mágico em que ocorre a trasmissão silenciosa da mensagem
conciliadora de irmandade, de afeição, de perdão...
Mas, recentemente, recebi uma cartinha com os
mais belos votos de Ano Novo que jamais pude imaginar, em todos esses anos. Em não havendo possibilidade
daquele olhar, bastar-me-iam essas palavras doces e profundas para impregnar de uma calma alegria meu coração, no
turbilhão da existência. Mas, felizardo, recebi o olhar e a cartinha e o
abraço. Compartilhem comigo a beleza e o perfume que se evola dessas
palavras singelas, poéticas, cheias de carinho:
José Carlos,
Talvez haja uma alameda do Parque
Ibirapuera onde você ainda não passou; um raio de sol matinal que o espera em
alguma curva do caminho.
Talvez haja um sorriso ao qual você não
prestou atenção, uma nova flor a desabrochar ante seus olhos maravilhados, ou
mesmo uma simples teia de aranha firmemente aderida às ramagens de alguma
árvore da estrada.
Talvez haja um café da manhã especial
reservado para você numa nova padaria, e um novo par de sapatos andarilhos, ainda na
loja, aguardando você para percorrer novos caminhos.
Talvez haja o reflexo da lua cheia nas
águas do lago, para encantar as noites de verão quando você passa lentamente
por suas margens, descobrindo novas melodias.
Talvez haja um sonho a ser realizado, uma
nova inspiração, um conhecimento de primeira mão em sua mente, enfim, um
momento desses que ficam para sempre na memória.
Mas talvez também haja inúmeros
novos desafios, dores, problemas. Quem sabe? Seja como for, e é isso mesmo:
"seja como for", estarei sempre com você em coração. E que o carinho que
nos une se fortaleça a cada ano que passa, a cada dia que passa, e que esteja
presente no breve intervalo que medeia a chegada de cada momento e seu final,
dissolvendo-se na plena consciência subjacente a cada novo instante,
que tantas vezes nos escapa, esvaindo-se sem ser percebida, co-criada e vivida
— sufocada que é pelas urgências, preocupações, ansiedades de cada dia... que
esse espaço sagrado seja vivenciado momento a momento.
Feliz Ano Novo!
Neila - dez/2006
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