Ao encontro do caminho na vida
Uma viagem ao sertão em busca de si mesmo
 

Uma noite de mistério

Trecho do livro "Ao encontro do caminho na vida"
de José Carlos Corrêa Cavalcanti
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Copyright 2007 by José Carlos Corrêa Cavalcanti
Direitos em Língua Portuguesa reservados ao autor através da
CASA DO NOVO AUTOR EDITORA LTDA.
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Chegando em casa, José Antônio me deu sinal para ir com ele, pois parecia ter algo a me dizer. Sentamos nas poltronas da varanda e ficamos alguns momentos em silêncio, apreciando o crepúsculo do sertão. Uma faixa de nuvens imóveis nas fímbrias do horizonte recebia os últimos raios solares, que se decompunham em múltiplas cores. Era um espetáculo realmente maravilhoso. Repentinamente, ele me disse:

— Hoje à noite Jorinã virá aqui.

Perguntei algo sobre o velho índio, como o tinha conhecido, de onde ele era.

— Ele descende dos índios Pankararus que habitavam toda esta região, em tempos antigos. É neto do curandeiro que me ensinou a arte de curar usando as ervas medicinais, na minha juventude. Jorinã e eu trabalhamos juntos há muitos anos.

Perguntei, então, o que o trazia aqui.

— Ele quer lhe dar o chá Ayahuasca! Eu lhe disse que não via necessidade, mas ele insistiu. Mas, que fique bem claro, isso só se você concordar. Quero crer que você já ouviu falar nesse chá.

Fui pego totalmente de surpresa. Já tinha ouvido falar no chá Ayahuasca, da Floresta Amazônica, e de como ele havia penetrado legalmente em inúmeros países, para uso ritualístico. Até mesmo em países que inicialmente opuseram uma resistência ferrenha, como Espanha e Estados Unidos, o chá foi permitido, após demorada batalha legal que terminou na Suprema Corte, onde ele foi totalmente devassado.

Concluíram o mesmo que já se sabia no Brasil: que, embora contendo substâncias psicoativas entre seus ingredientes, era inofensivo e não causava dependência, havendo inclusive muitos relatos de ex-dependentes de drogas que se libertaram do vício, após tomar contato com o chá.

Lembrei-me também de um antigo conhecido, que foi ao Acre em meados dos anos noventa, movido pela curiosidade de conhecer o chá, que raramente saía das fronteiras desse Estado, naquela época. O meu conhecido viajou por conta própria e sozinho até Rio Branco, no Acre, conheceu uns caboclos e acabou indo com eles participar de uma cerimônia onde se fazia uso da Ayahuasca.

Segundo relato dele mesmo, serviram-lhe uma porção generosa, que ele tomou sem medo, enquanto ouvia as músicas típicas da cerimônia, algumas assemelhando-se a ladainhas de invocação de anjos e santos, outras cantando a riqueza da Floresta ou invocando a proteção de suas entidades. Pouco tempo depois começou a passar mal e vomitar, num processo que chamam de limpeza, e que ocorre com muita freqüência, sendo considerado a ação da Terra para purificação física e espiritual da pessoa.

Ele, porém, não sabia disso na época, e quando olhou para os caboclos e os viu rindo, achou que tinha sido envenenado. Parece que sentiu muito medo na hora, mas logo depois melhorou e, no decurso da cerimônia, com outras tomadas do chá, teve suas experiências internas, que são particulares, e que ele achou bastante impressionantes.

Isso era tudo o que eu sabia da Ayahuasca, fora algumas pesquisas na Internet onde constatei que, àquela altura, o uso ritualístico do chá espalhara-se pelo Brasil e por muitos países do mundo. Mesmo assim foi surpresa encontrá-lo em uma cidade remota como Vapabuçu. Respondi a José Antônio que concordava, e perguntei se ele iria participar.

— Não, respondeu. Vou dormir. Cheguei a tomar o chá algumas vezes, há muito tempo, mas depois nunca mais tomei. A cerimônia vai começar às dez da noite no quintal, nos fundos da casa. Ele vai trazer um sobrinho, chamado Lucas, para ajudá-lo. Há várias arvores ali. Leve sua manta e sua esteira, caso queira dormir um pouco. A certa altura da madrugada, eles vão fazer uma fogueira; é um ato que simboliza o surgimento da luz nas trevas da ignorância. A cerimônia termina ao raiar do novo dia, que vocês vão assistir ali mesmo. Agora, procure descansar, e, se sentir fome, coma algo leve, no máximo até uma hora antes do início.

Eram quase sete horas. Eu não sentia absolutamente nenhuma fome, e fiquei todo o tempo contemplando a chegada da noite, da lua e das estrelas. Sentia-me muito tranqüilo. Por volta das nove horas, Jorinã chegou com seu sobrinho, trazendo alguns objetos em mochilas e sacolas, e foram para os fundos.

Ficaram preparando o quintal para a cerimônia. Às dez horas em ponto eles me chamaram. O quintal era muito grande. Eles tinham limpado e preparado uma área coberta com uma lona, amarrada nas árvores. Havia alguns lampiões acesos em pontos estratégicos, o suficiente para dar um ar fantasmagórico ao ambiente, e também vários incensos acesos, com cheiro muito forte. Havia também uma mesa e algumas cadeiras.

Estendi minha esteira no pé de uma árvore, deixando a manta dobrada como se fosse um travesseiro. A noite estava quente e o ar, parado. Sobre a mesa estavam duas garrafas de Ayahuasca, e havia também um aparelho de tocar CD, funcionando a pilha. Um disco já estava em execução, tocando cantigas tipo ladainha.

Lembrei-me da primeira vez que estivera ali, num domingo que parecia longínquo, mas na verdade acontecera na semana anterior. Eu procurava por José Antônio, e a casa fechada parecia vazia. Bati palmas e entrei, circundando a residência, mas, sem motivo aparente, senti-me intimidado, e me apressara em sair do local. Depois fez um vento muito forte e choveu de repente, enlameando a estradinha de terra. Achei que não era bom augúrio, mas prossegui em minha intenção mesmo não tendo encontrado o raizeiro.

E agora eu me via exatamente nesse território, prestes a tomar o chá Ayahuasca, com tudo o que tinha sabido a respeito dele, por informações de outros! Tudo isso me encheu de apreensão, mas não recuei.

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Formamos um pequeno círculo. Ele proferiu uma oração e fez algumas saudações, e nós o imitamos. Iniciava-se o ritual. Ofereceu-me um copo contendo três dedos do chá. Fez o mesmo para seu sobrinho, que o bebeu de um gole só. Não sei porque, eu bebi a Ayahuasca bem devagar, saboreando cada gole. Era ao mesmo tempo azedo e amargo. Curiosamente, porém, não me incomodou nem um pouco.

Depois, Lucas sentou-se no chão e encostou-se a uma árvore. Imitei-o, sentando na esteira e usando a manta como apoio para as costas. Durante algum tempo não senti nada, mas depois comecei a sentir enjôo e um pouco de tontura. Sentia a mente confusa. Havia uma profusão de estímulos sensoriais: o cheiro dos incensos, as cantigas que invocavam a proteção das entidades da floresta e de alguns santos da Igreja Católica, a atmosfera lúgubre dos lampiões, mal clareando a escuridão.

Os cânticos me lembraram de uma visita que eu fizera a um centro de Umbanda, há muito tempo atrás, pedindo ajuda para cura de um problema no joelho; eles se assemelhavam ao ponto com que os participantes chamavam à sessão determinadas entidades, que eram incorporadas pelos médiuns. Na ocasião, achei todo o conjunto assustador, desde o cenário, com sua coreografia especial, até o local remoto e de difícil acesso onde ficava o centro.

Essas lembranças iam e vinham e se misturavam com imagens aterrorizantes que também subiam à tona, despertando velhos pavores, pois sempre tive aversão a essas práticas. Mas eu estava firmemente decidido a nada segurar e nada expulsar de tudo o que me viesse à mente, permanecendo em estado de observação, segundo as recomendações de José Antônio para o autoconhecimento.

Os anjos invocados nas ladainhas giravam na minha cabeça e se alternavam com imagens horrendas e zombeteiras vindo não sei de onde, talvez sugeridas pelo contexto, a escuridão e tudo o mais. Percebi que estava transitando pelo mundo astral, repleto de influências atormentadoras. Tudo isso vinha muito rápido e resvalava rente a mim, mas sem me atingir. Isso me deu força e mantive a disposição de nada agarrar e nada expulsar. Em certo momento notei que Lucas se levantara para trocar o CD, e para renovar uma porção de incensos, que estavam terminando. Não conseguia mais ver Jorinã.

De repente, senti uma espécie de pancada dentro da cabeça, atrás da testa. Na verdade não foi uma pancada; foi a sensação de um barulho surdo, como se estivesse destravando algo na minha cabeça, interrompendo imediatamente toda aquela confusão, e, a partir desse momento, não senti mais medo. Senti meus olhos perderem sua fixidez no ponto focal costumeiro, parecendo movimentar-se livremente sob as pálpebras. Era uma sensação engraçada e até agradável, embora muito estranha.

Pouco depois, Lucas levantou-se e foi tomar a segunda dose. Tentei fazer o mesmo, mas vi que tinha dificuldade em levantar-me e, mais ainda, em manter-me de pé. Em pouco tempo, porém, firmei-me nas pernas e fui, lentamente, até a mesa onde estavam as garrafas. Jorinã apareceu de novo e então nos serviu dois dedos do chá forte.

Lucas tomou tudo de uma só vez, mas eu bebi de novo a Ayahuasca muito lentamente, saboreando cada gole, e voltei para meu canto junto à árvore. Pouco tempo depois, os enjôos voltaram com mais força. Observei que também Lucas estava nauseado, e se levantara para ir vomitar mais abaixo, na direção dos fundos do quintal. Imaginei que em breve eu precisaria ir, também, mas as náuseas ainda não pareciam ser suficientes para tanto. Quando o enjôo aumentou, fui também para os fundos e esperei o vômito descer, mas nada aconteceu. Esperei um pouco, mas não vomitei e retornei para meu canto. Sentei-me sobre a esteira. Ajeitei a manta nas minhas costas e encostei na superfície rugosa da árvore.

Fiquei ali alguns minutos e senti que estava me dando sono, mas achei que não deveria dormir: queria aproveitar integralmente aquela experiência, e levantei-me novamente.

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... Fiquei andando pelo quintal; todo aquele cenário, que me parecera assustador, já não me causava nenhum medo. Mesmo as ladainhas, que me antes me haviam despertado imagens e sensações muito desconfortáveis, já não me incomodavam mais. Sentia a mente clara e sem nenhuma miração, uma espécie de visão que alguns têm, e que foram mencionadas em alguns cânticos.

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De repente, ouvi o som forte de um tambor sendo tocado ritmadamente. Tive um sobressalto. Era Jorinã, que tinha reaparecido e estava de pé, junto à mesa onde estava o chá e o aparelho de som. Ele me olhava fixamente com um olhar esquisito, e pensei que talvez ele tivesse também tomado o chá. Começou a cantar uma cantiga indígena, de letra incompreensível, acompanhando-se ao tambor. Achei que era parte de alguma pajelança que, provavelmente, ele estava habituado a fazer, com finalidade de cura, ou para invocar poderes mágicos. Isso me impactou um pouco, mas continuei na disposição de manter o espírito livre, sem ficar obsedado por imagens, julgamentos ou sensações que novamente começaram a surgir e desaparecer em turbilhão, e voltei ao estado anterior de lucidez, embora consciente de todas as sugestões e influências que tentavam se apoderar de mim. Era como transitasse entre névoas, num lugar escuro e desconhecido; não conseguia enxergar o caminho, entretanto, ia pelo caminho certo.

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Comecei a sentir muito frio e peguei minha manta, enrolando-a em meus ombros. Eu resolvera não sentar na esteira, porque não queria mesmo dormir. Lucas, ao contrário, voltara a se esticar no chão e a dormir. Vi Jorinã se dirigir a um certo lugar do quintal para preparar a fogueira. Ao que parece, estava tudo ajeitado previamente, porque em poucos minutos senti o cheiro de fumaça e logo vi subirem as labaredas.

Algum tempo depois, as chamas cederam e fui até a fogueira. Fiquei apreciando a claridade que ela proporcionava ao ambiente; era um belo contraste naquela escuridão. Voltei para a área sob a lona e fiquei um pouco de pé junto à árvore. Depois voltei para a fogueira e continuei andando. Fui até novamente até Jorinã e pedi outra dose. Como da vez anterior, ele serviu mais um pouco de Ayahuasca no meu copo e eu bebi, outra vez muito devagar.

Comecei a me sentir muito cansado e resolvi sentar-me sobre a esteira, encostando-me na árvore em posição reta. Mantive os olhos bem abertos. Não havia música, Lucas dormia e Jorinã tinha sumido de novo. Senti chegar um sono invencível e ajeitei-me ficando bem na vertical junto à árvore; era uma posição desconfortável que dificultava que eu dormisse.

De repente, comecei a escutar uma respiração forte, lenta e ritmada, com se alguém estivesse em sono profundo. Achei que era Lucas, mas ele ressonava levemente. Fiquei um pouco confuso, e, de repente, percebi que era meu próprio corpo! Meu peito subia e descia com respirações vagarosas e tranqüilas. Achei que estava dormindo na vertical, mas, sem dúvida, ainda estava de olhos abertos. Movimentei minhas mãos e movi os olhos, circundando o ambiente e reconhecendo tudo, embora difusamente. Estava acordado, mas em outro nível parecia estar dormindo.

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... Olhei para o céu e notei que, para os lados do leste, uma pequena claridade estava se insinuando no negrume da noite. Fiquei muito contente, mas imaginei que poderia ser uma projeção minha, um tipo de miragem. Mas não era. Aquela pequena brecha de luz foi se alastrando lentamente pelo céu escuro. Era, finalmente, o amanhecer. Senti-me feliz e voltei até a fogueira, mas só haviam cinzas. Em poucos momentos a claridade aumentou a ponto de tornar inúteis os lampiões, que ainda estavam acesos.

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... Novamente, formamos um pequeno círculo e Jorinã finalizou a cerimônia, proferindo algumas palavras de agradecimento, e curvando-se em saudação. Fizemos o mesmo. O sol surgia lentamente no céu, abrindo uma clareira dourada nas nuvens escuras.

Ainda não eram seis horas da manhã quando José Antônio veio ao quintal e nos cumprimentou. Olhou especialmente para mim, e perguntou como estava me sentindo. Respondi que estava bem, mas muito cansado. Ele me levou até meu quarto e disse para descansar à vontade, e depois voltou para conversar com Jorinã.

Tentei dormir, mas não conseguia.

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José Antônio bateu levemente à porta, e eu lhe disse para entrar.

Perguntou-me como eu estava, e lhe respondi que não conseguia dormir direito, que me sentia inquieto. Convidou-me para dar uma volta na campina; ainda eram oito horas e a manhã estava muito bela. Aceitei o convite, vesti-me e saí com ele. A manhã estava gloriosa. Mas eu me sentia desligado e incapaz de qualquer esforço mental, embora, curiosamente, sentisse grande acuidade para percepção do ambiente. Via as flores e sentia seu perfume, via os pássaros, as borboletas e os mandacarus, e sentia o sol muito macio na minha pele.

Pensei em contar-lhe como tinha sido a noite, mas ele achou melhor não conversar nada ainda, recomendando-me apenas relaxar e continuar caminhando na campina. Depois de algum tempo voltamos para casa. O passeio me fez bem, pois de repente senti um sono imenso, atirei-me à minha cama e dormi.
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