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Quando eu era criança, perguntei
ingenuamente a minha mãe se o Hino Nacional Brasileiro era o mais bonito do
mundo.
Ela respondeu:
“Não. É o segundo. O mais belo é o da França.”
Isso ficou na minha cabeça e quando, na 1a.
Série do antigo Ginásio, recebi as primeiras noções de francês, fui logo
decorando algumas partes da Marselhesa. Sua história veio depois.
No final de 1791, a França revolucionária
estava cercada pelas monarquias européias. Um primeiro confronto, em Verdun,
entre as tropas francesas e a coalisão européia resultara na vitória da
coalisão. Os soldados da Revolução entoavam uma antiga canção jocosa, o Ça
Ira, à qual os radicais haviam acrescentado alguns versos contra a
nobreza:
Ah, ça ira, ça ira, ça ira,
Les aristocrates à la lanterne.
Ah, ça ira, ça ira, ça ira,
Les aristocrates on les pendra.
(Ah, tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Os aristocratas para a forca.
Ah, tudo bem, tudo bem, tudo bem,
Os aristocratas a gente enforcará.)
No início de 1792, havia mais de 100000
soldados na fronteira leste da França, além de 10000 emigrados. A Alsácia fica
a noroeste da França,da qual é separada pelo rio Reno. Ela tem pertencido
alternadamente aos dois países, ao longo dos séculos, conforme os ventos da
História. Nos dois lados do rio, falam-se francês e alemão, com a mesma
naturalidade com que se odeiam mutuamente.
Uma das cidades mais importantes é
Estrasburgo, quase no extremo nordeste. No dia 25 de abril de 1792, o prefeito
de Estrasburgo, Dietrich (nome alemão) encarregou o capitão de engenharia e
músico Rouget de Lisle (pronuncia-se Lile) de compor um hino patriótico.
Rouget passou a noite debruçado sobre o seu
piano, aliando música e letra, com base no que se dizia e se discursava por
todo o país naqueles dias terríveis. Pela manhã de 26, apresentou o trabalho.
Era longo e violento, de acordo com o clima reinante. Apresentava sete estrofes
de oito versos cada, sempre separadas por um estribilho.
A primeira estrofe:
Allons, enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé.
Contre nous de la tyrannie,
L’étendart sanglant est lévé (bis)
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats?
Ils viennent jusque dans vos bras,
Égorger vos fils, vos compagnes!
Estribilho:
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons!
Marchons, marchons,
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons!
Um trecho da sétima estrofe:
Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs.
Liberté, liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs (bis)
............................................;..
Tradução (não poética):
Vamos, filhos da Pátria,
O dia de glória chegou.
Contra nós o estandarte sangrento
Da tirania foi erguido.
Vós escutais, pelas campinas,
Bramir esses ferozes soldados?
Eles vêm até os vossos braços,
Degolar vossos filhos, vossas companheiras!
Às armas, cidadãos,
Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos,
Que um sangue impuro
Embebe o nosso solo!
Amor sagrado da Pátria,
Conduz, sustém nossos braços vingadores.
Liberdade, liberdade querida,
Combate com teus defensores! (bis)
......................................................
O prefeito Dietrich apreciou a música e
cantou-a, acompanhado ao piano. Foi denominada Chant de Guerre pour l’Armée
du Rhin (Canto de Guerra para o Exército do Reno). A seguir, foram
impressas cópias e distibuídas - na medida do possível - pelo país.
Mas alguns meses se passaram e o trabalho
ficou esquecido ou ignorado. Voltou-se a cantar o Ça Ira.
A 25/07/92, o Duque de Brunswick, que
comandava as tropas prussianas, lançou o Manifesto de Koblenz, ameaçando o povo
francês, no caso de desrespeito ao Rei. Mas, por isso mesmo, a massa pobre (os
sans- cullotes) foi às Tulherias e depôs o casal real (10 de agosto). A 13 de
agosto, a Assembléia Nacional prendia a família real no Templo.
Diante disso, Brunswick, à frente de 80000
homens, atravessou o Reno e começou sua marcha rumo a Paris. A Assembléia
convocou os franceses como pôde. Em Marselha, o Clube dos Amigos da
Constituiçao ofereceu um banquete a 500 voluntários no dia 22 de junho.
Todavia, em meio ao tumulto, Mireur, um
estudante de Medicina, quebrou seu copo e levantou-se.
Silêncio geral.
Mireur começou a cantar o hino esquecido.
Não sei se o cantou todo, que é longo, mas
ao fim, pediu-se bis e, na terceira vez, todos o acompanharam. O batalhão
partiu a 02 de julho e, por onde passava cantando, todos aderiam à
“Marseillaise”, inclusive quando atravessaram Paris, rumo ao norte, de onde
vinha Brunswick.
Todos entoavam o hino, mas ninguém conhecia
o seu autor. Os impressos não traziam seu nome.. Os franceses eram 50000
homens. A batalha se travou em Valmy, no dia 20 de setembro de 1792. As tropas
de Kellermann e de Dumouriez (generais franceses) se encontraram e uniram
suas forças, próximo ao confronto. Este permanecia indefinido, enquanto se
trocavam tiros. Até que Kellermann decidiu pelo ataque corpo a corpo. Colocou
seu chapéu de dois bicos sobre a ponta da baioneta e gritou: “Vive la Nation!”
(hoje, existe,no local, uma estátua sua, nessa posição).
Os soldados avançaram, com seu hino de
guerra:
“Aux armes,citoyens,/Formez vos
bataillons/Marchons, marchons,/Qu’un sang impur/Abreuve nos sillons.”
Os prussianos, em pouco tempo, recuaram.
Ainda houve trocas de artilharia (la Canonnade). Mas Brunswick acabou cedendo e
partiu. As forças patrióticas perderam mais gente que o inimigo (300 contra
184). Mas aquilo não era nada, porque os franceses já estavam se acostumando a
morrer. E esse estranho hábito só aumentaria nas 30 batalhas da Convenção e do
Diretório, no período do Terror, na Vendéia, nas 60 batalhas de Napoleão.
Na maioria desses choques, a canção de
guerra era sempre a “Marselhesa”, sem que se soubesse o autor. Ao final da
batalha de Valmy, o médico das forças de Brunswick, Wolfgang von Goethe (que
seria o maior escritor da Alemanha), comentou: “Começa hoje e aqui uma nova Era
para a Humanidade” — aludindo aos ideais da Revolução que triunfava.
Quanto ao Duque de Brunswick, teria dito,
mais tarde: ”É impossível vencer contra esse hino”. A Marselhesa foi proibida
no Império e na Restauração. Em 1795 ela foi oficializada pela Convenção como
Hino Nacional da França, até ser proibida em 1804, quando as forças
conservadoras retomaram o poder, sob o Império Napoleônico e depois sob a
Restauração. Mais adiante, porém (em 1830 e em 1848), em outras revoltas de
cunho revolucionário, ela viria a ressurgir nos lábios dos insurgentes. E, em
14 de fevereiro de 1879, a Marselhesa viria a se tornar novamente o Hino
Nacional da França.
No dia seguinte à batalha
de Valmy, 21 de abril de 1792, instala-se a Convenção e consolida-se a
República.
E, quando o poeta Fabre d’Églantine criar o
Calendário Republicano, em 1793, o 1o. dia será 22 de setembro de 1792 (le
premier vendémiaire). Quanto a Kellermann, suspeito pela Convenção, cumpriria
13 meses de prisão. Mas voltaria e seria, ainda, general de Napoleão.
Dumouriez se evadiu e passou longos anos
lutando contra os revolucionários franceses.
Os principais “heróis de dois mundos”, que
haviam participado da Independência Americana foram os generais La Fayette e
Rochambeau e os almirantes De Grasse e Lameth.
(Benjamin Franklin diria:”Todo homem tem
duas pátrias: a sua e a França”.)
Mesmo assim, La Fayette, que ficou até a
queda da Monarquia, teve de se exilar da pátria.
E quanto a Rouget de Lisle, o desconhecido?
Quando a casa real foi deposta e presa, ele protestou: renunciou ao cargo que
ocupava e se recusou a jurar fidelidade à República. E quando foram
guilhotinados os seus amigos alsacianos, o ex-prefeito Dietrich e o general
Lukner, ele se insurgiu com tal desassombro, que foi preso.
No dizer do escritor Stefan Zweig, ele
detestava tanto os novos tiranos quanto os antigos. Rouget só manteve a cabeça,
porque Robespierre a perdeu antes, no 09 Termidor do ano III (27 de julho de
1794). Mas ele continuou vivendo sem farda, sem cargos e na pobreza, embora
tenha continuado a fazer cantos e poesias, que ficaram desconhecidos. Morreu em
1836, com 76 anos, totalmente ignorado, em Choisy-le-Roi.
Agora, vamos dar um salto: I Guerra Mundial
(1914/18). Os franceses enfrentam os alemães (de novo), cantando a Marselhesa,
seu Hino oficial. Então, finalmente, o governo da França se lembra de Claude
Joseph Rouget de Lisle. Em 1915, retira os seus restos mortais de Choisy e os
coloca no Panteão dos Heróis (Les Invalides), ao lado de Napoleão.
Bem...Nós, humanos, vivemos de ilusões.
Mas... haverá, enfim, outra forma de viver? .
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