Memórias de um quase sertão e o Pássaro da Esperança
Colaboração de Nelma Cavalcanti 

Um galho, apenas um galho seco daquela pelada e suntuosa árvore dá para ver da vidraça daquele casebre...e mirando este galho, o piá sorriu - um pássaro se pôs a cantar!

Cantava como se desse vida ao piá, cantava como se chamasse por outras aves, cantava como se clamasse por alegria naquela estrada tão vazia, tão sem nada... E o menino passou a observar este pássaro, era verde escuro de peito laranja, era bonito, era forte...

Um dia então, o piá resolveu sair pra rua:

— Mãe, vou na rua...

— Fazer o quê, posso saber? Não tem nada lá...

— Preciso ir, minha boa mãe.

E foi, saiu correndo e quando chegou o sabiá o levou por outros caminhos, o bicho cantava e o piá corria, o bicho voava e o menino sorria... Num certo momento, num certo lugar, outras aves vieram saudar o sabiá e junto com elas, outros piás. Voltaram então todos cantando, correndo, voando e sorrindo até àquela estrada.

Porém neste retorno algo tinha de diferente, as árvores que outrora foram secas, agora tinham folhas verdes, como se fresquinhas; as flores que pareciam desmaiadas, agora se levantavam, o rio que era frio, se aqueceu e o sol que era pálido...brilhou!

Faltava mesmo naquele lugar vida e alegria! Ali ninguém tinha nome não, eram todos piás...uns mais magros, outros mais altos, outros marrons, outros amarelos...

— Tem um rio ali do lado!

— Vamos nadar!

— Ah! Tenho um pião!

— E eu uma bola! 

 — Vamos amigos, vamos brincar!

E brincaram o resto da tarde, quando sua mãe olhou pela vidraça, não podia acreditar no que seus olhos lhe revelavam. Resolveu fazer um pão de mandioca e suco de groselha...

O pássaro cantava agora como se agradecesse pela vida que estava de volta ali, os outros acompanhavam tal saudosismo. Era belo acompanhar mesmo que de longe esta gente, suas lutas e alegrias...

Então naquela tarde os piás brincaram de correr, de nadar, de pião e de jogar...

O dia é quente, a noite é escura, a brisa é fresca e o vento é forte!

Povo bom daquela vila! Gente simples daquela roça! Bicho manso daquele interior! Eita vida boa daquele quase sertão!

Eita gente alegre daquele lugar!

Saudades do que não vivi...

Saudades do que nem conheci!...

Conto de Nelma Cavalcanti - 26/09/2006

 

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