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A capa da revista Veja de 01/03/2006 ostenta
o título "Ambição", com a chamada: "Ela
produziu maravilhas e tragédias. Agora se sabe como usá-la na medida certa na
vida pessoal e profissional".
Em um longo texto ( 8 páginas ao todo ), a revista tenta demonstrar que
é possível a convivência pacífica entre a ambição, a ética e o
cumprimento das leis, "sem sucumbir a megalomania, vaidade e
autoritarismo".
Vejamos o que a matéria diz sobre a ambição:
"É a energia humana que move as pessoas, que as faz
avançar e que direciona seus esforços para realizar alguma coisa grande",
afirma o americano J. Champy, co-autor do livro O Limite da Ambição.
"Acreditar que existe uma parcela da população imune a ambição é um
engano. Sabe-se que a energia para vencer é inerente ao ser humano, o que muda
é sua meta. Ambição é tanto querer um filho quanto ser feliz ou emagrecer".
"É tênue a fronteira entre ser ambicioso e não se
deixar levar pela arrogância ou pela vaidade desmedida".
Contudo, a julgar pelas inúmeras citações
e depoimentos de personagens vitoriosas, a reportagem parece estar
muitíssimo mais interessada no sucesso do que num estudo aprofundado da
ambição. A ambição interessa quando é bem sucedida; todos os exemplos
de ambiciosos apontados são milionários, famosos ou influentes.
"Ambição todo mundo tem. A diferença, segundo
especialistas, é que quem tem sucesso parece saber o que
fazer com ela".
"Seja por amor, dinheiro, sabedoria, poder, glória
ou fama, a ambição move o mundo. Sem ela, Newton nunca teria superado as
dificuldades de uma infância miserável para tornar-se um dos maiores físicos de
todos os tempos... E o que há por trás desse mistério? O que
faz com que uma pessoa consiga atingir suas metas e satisfazer seus desejos ...
e outras não?"
Em que pese ser um texto bem escrito, com citações de
obras literárias ou científicas, filmes e depoimentos de especialistas, há
vários pontos onde a matéria é omissa ou superficial.
Por exemplo: embora a chamada do título garanta que "já
se sabe como usá-la na vida pessoal e profissional", no texto nada se
diz sobre esse assunto. Talvez os autores realmente saibam, ou não, como
fazê-lo, mas não contam aos leitores.
Outra omissão é que nada se comenta sobre os
devastadores efeitos da ambição nos que não atingem o sucesso. Em
outras palavras, não é levada em conta a possível relação entre a ambição e o
stress, entre a ambição e a qualidade de vida.
Por exemplo: sabemos que há dezenas de milhares
de vestibulandos que, anualmente, inscrevem-se para os exames vestibulares
das melhores escolas, em geral após estafantes anos de estudo nos cursinhos.
Segundo a matéria, trata-se de "pessoas
ambiciosas". Sabe-se, porém, que, necessariamente, apenas umas
poucas centenas desses "ambiciosos" jovens serão bem sucedidos. Os demais,
que amargam o insucesso, a frustração, o desânimo, etc., não são
contemplados na análise do tema; apenas os que atingem o sucesso são
valorizados.
Então, o sucesso é que é importante, na reportagem.
Para os que fracassam, mal e mal há alguma tosca citação sobre "é importante
saber lidar com a derrota", e ponto final.
Outro ponto falho da matéria é ao generalizar o conceito; o texto nos informa
que até mesmo uma coisa tão natural como o desejo de engravidar denota ambição.
Nesse caso, que se dirá de querer arranjar um
namorado, ou namorada? Deve ser ambição também. E comprar um batom, uma
roupa bonita? Ambição!
Que dizer daquele que, desempregado, envia dezenas de
currículos em busca de colocação? é um ambicioso. Levado ao limite, fica
difícil identificar o que não seria ambição.
Esse é um ponto em que a matéria me parece bastante
superficial. Menos do que um texto para a investigação e esclarecimento dos
temas, a reportagem é basicamente um discurso para o convencimento.
E, afinal, de que eles querem nos convencer?
Isso nos leva ao outro ponto que quero realçar,
que é o mais complexo: a revista tenta demonstrar que é perfeitamente
possível compatibilizar a ambição com a ética e a moralidade.
Para isso, a matéria faz distinção entre
a ambição "saudável", de um lado, e a ganância, a falta de ética e
mau-caratismo de outro, embora reconhecendo ser "tênue" a fronteira
entre esses atributos. Por isso, ela recomenda que a ambição seja domada,
tal qual um potro selvagem, para que se torne útil e benfazeja:
"Entendida, domesticada e domada, a ambição se
tornou uma das características mais desejáveis tanto na vida profissional
quanto na pessoal".
É possível, pois, ser ambicioso e ético,
não-ganancioso e bom caráter; basta entender, domesticar e domar a ambição.
É simples assim. Uma vez que certos limites sejam extrapolados, a ambição se
converte em ganância e torna-se condenável:
"Sucumbir à ganância, à megalomania e ao
autoritarismo representa o lado sombrio da ambição".
Não escapa ao leitor atento que, em outras matérias,
na mesma edição, a revista faz denúncias contra o PT, que teria facilitado
o desmatamento na Floresta Amazônica em troca de financiamento da campanha de
políticos daquele partido.
Nem tampouco passam desapercebidas as denúncias,
também na mesma edição, de que o filho do Presidente da República estaria
enriquecendo graças ao tráfico de influências em favor de sua empresa, estando
"próximo do seu primeiro milhão de dólares".
Embora não declarado, fica implícito que
esses seriam exemplos de ambição desenfreada, que merece ser
desmascarada e punida.
A ambição deixaria de ser elogiável, descambando
para a ganância, quando surgem fortes indícios de desmandos ou corrupção no
processo de conquista, desfrute ou manutenção do poder, e reciprocamente.
Segundo esse critério, por exemplo, podemos dizer que a ambição do
Presidente Nixon de continuar no poder, muito justa e válida, não passava de
megalomania, quando foi descoberto o escândalo Watergate, em que Nixon
mandou espionar o Partido Democrata.
Até ali, ele era um simples, modelar e bem
sucedido ambicioso; a partir daquele momento, tornou-se claro que era um
ganancioso que não conhece limites, que viola as regras do jogo, e assim
teve que renunciar ao mandato.
Mas, e se não houvesse sido descoberto o tal
escândalo? E se os planos presidenciais dessem certo? Ele continuaria como um
"modelar ambicioso", ou, tendo cometido a ilegalidade não descoberta, já
poderia, pelo menos de si para si, considerar-se um ganancioso?
Sabe-se que o caminho para o sucesso artístico,
político, econômico, etc., está longe de ser macio; é cheio de conchavos,
puxadas de tapete, panelinhas, máfias, traições, e mesmo... acreditem, até
mesmo de atos ilegais, imorais e muita, muita corrupção.
Difícil coisa é "chegar lá" permanecendo um anjo
intocado pela podridão dos que disputam o poder e dos que já estão em posições
de mando e autoridade.
Isso enseja outra pergunta: será que os
ambiciosos bem sucedidos, em algum momento, não terão cometido atos menores,
duvidosos, questionáveis ou até desononestos, em seu difícil e
tortuoso trajeto rumo ao sucesso, sem que os mesmos tenham
sido descobertos?
Pois esse parece ser o ponto: sem que os mesmos tenham
sido descobertos. Talvez seja essa a tal "tênue linha" de separação
entre a ambição e a ganância.
Nada descoberto, o tal ambicioso merece todos os
elogios; é rico, vitorioso, poderoso; mas, uma vez detectados seus podres, já
se trata então de um ganancioso, mau-caráter, anti-ético, corruptor ou
corrupto.
Outro exemplo: quando estive no Japão, em 1985, a
economia daquele país ia de vento em popa. O yene se valoriza frente ao dólar a
cada dia, o desemprego era praticamente nulo, os indicadores sociais eram
excelentes.
O primeiro-ministro japonês orquestrava o
funcionamento das instituições, da economia, da sociedade. Era muito elogiado
na época, um político vitorioso, uma gerente eficaz, um administrador de
sucesso.
Por isso, voltando ao Brasil, foi com muita surpresa
que li nos jornais, alguns meses depois, que aquele mesmo primeiro-ministro,
acusado de corrupção (recebeu gordíssimas propinas de multinacionais), foi às
câmeras de TV, admitiu a culpa e pediu perdão.
Nesse caso, até antes da descoberta desses fatos, ele
seria um simples e inofensivo ambicioso bem sucedido, mas depois disso
seria um mais um caso de ambição desenfreada?
Evidentemente, falta profundidade nessa análise; ela
não esclarece QUANDO é que o "bom" ambicioso se torna um "mau" ganancioso.
Certamente, não há de ser no momento em que as tramóias são descobertas! A
coisa vem de muito antes.
Talvez muitos dos ambiciosos de sucesso de hoje já
estejam contaminados há muito tempo com o vírus da ganância e da falta de ética
e tudo o mais, desde os árduos tempos em que se
esforçavam para conquistar suas metas e fazer prevalecer suas
vontades na selva de pedra que é a luta pelo poder.
Apenas não o demonstram, pois não foram
descobertos, ou nada se provou contra eles.
O fato é que, no caminho rumo a qualquer forma de
poder e ao sucesso ( que é o que mais caracteriza a ambição ), todos têm
oportunidade de perceber dentro de si todas as
tendências, as melhores e as piores. A ambição moderada, bem como a
desenfreada, já estão ali em estado latente.
Sentimentos e paixões humanas consideradas "más" como raiva, ressentimentos,
inveja, desejo de se impor aos outros, de posses e de satisfação
possuem uma energia tremenda e não podem ser desprezadas pelos que almejam o
sucesso.
E, se forem úteis para os objetivos desejados, elas
deixam de ser tão ruins assim.
Se o sucesso é o motivo do aplauso, do elogio e da
fama, então certas práticas heterodoxas tornam-se justificáveis.
Falando mais claramente: uma vez que ninguém
atinge o sucesso sozinho, inúmeras associações são necessárias para obter
apoio, oportunidades de aparecer, recursos, financiamentos, influência
e, assim, os ambiciosos "bem intencionados" aprendem que
precisam ser flexíveis e fazer certas concessões, mesmo sacrificando
dolorosamente alguns princípios, programas, formação, etc.
Imaginemos por um momento que seja possível separar os atributos da psique em
BEM e MAL, e optar por um deles coisa de todo impossível, por mais que
os moralistas digam o contrário. Mas, mesmo assim, vamos fazer um pequeno
exercício mental.
Nesse caso, a honestidade, a bondade, as boas
intenções, os interesses altruístas e os nobres ideais seriam parte do
"bem", e o "status quo" com sua violência, suas injustiças, absurda
concentração de riquezas, suas mentiras, seu apego ao poder, etc. representaria
o mal.
O que acontece quando o "bem" tenta conseguir o poder?
Obviamente, o "bem" sozinho não possui recursos
suficientes para isso. Nunca teve.
Como poderia a bondade, a honestidade e a rigorosa
incorruptibilidade trilhar o caminho do sucesso, sem fazer concessões, sem
apelar para as meias verdades, as ameaças e violências verbais, a mentira,
a dissimulação, ou seja, sem fazer alianças com o mal, sem usar os métodos
do inimigo?
Nunca chegaria ao sucesso. Eis porque, quando chega ao
poder, o "bem" fica tão descaracterizado e tão parecido com aqueles aos quais
desejava substituir, para amarga decepção das massas.
Quando o assunto é poder, bem e mal caminham juntos, o
primeiro como fachada para consumo externo, e o segundo como o meio efetivo de
conquista das metas.
Assim, o ambicioso que quer a todo
custo atingir suas metas já traz em si os germes do ganancioso,
do anti-ético e do corrupto, os quais haverão de florescer no tempo oportuno.
Para permanecer dentro de seus supostos limites
éticos, ele, o ambicioso, deveria estar pronto a renunciar a suas metas,
quando estas exigissem que ele "sujasse as mãos" e aí ele deixaria de
ser ambicioso.
Mas, na matéria em foco, assuntos como desistir
de metas comprometedoras, que possam exigir o uso de meios anti-éticos para
levar à vitória, são cuidadosamente evitados, assim como a delicada
questão de como lidar com o fracasso.
Se somente o sucesso é estimulado, sendo apresentado
de forma altamente elogiável e desejável, com inúmeros depoimentos de pessoas
de imensa riqueza, prestígio ou influência, então, como firmar posição em torno
de uma "ambição dentro da ética", que não sucumba a seu "lado sombrio"?
Como pôr freios à ambição, de modo que esta fique
dentro de limites saudáveis (respeito às leis, condutas éticas, etc.), se isso
implicar na derrota? São questões não colocadas e muito menos respondidas na
reportagem.
Por isso, eu quero sugerir algumas perguntas que podem
nortear outra abordagem do fenômeno da ambição. Quero olhar o outro lado, o dos
derrotados.
Será que a derrota tem um papel importante para o
homem? Pode haver algo bom em conviver com a dor do fracasso e do desprezo da
sociedade? Pode haver algo belo em ver ruir nossas preciosas auto-imagens, e
ver-nos como realmente somos?
Somos realmente bons, bem intencionados e sensíveis,
ou temos um lado obscuro, reprimido e desprezado que acaba se manifestando
com vitalidade, conscientemente ou não?
Porque não se pode separar a psique em "lado bom" e
"lado mau", optando por um deles? Não seríamos muito mais íntegros (inteiros)
se admitíssemos que somos todos esses atributos e tomássemos consciência deles?
Talvez, respondendo a perguntas como essas, possamos
descobrir algo mais importante do que a ambição, a ganância e a vitória.
Talvez descubramos que somos humanos e finitos,
passageiros a caminho do nada, pequenas partículas de desejo, ignorância e
vaidade, preocupadas com jogos de poder, perdendo a oportunidade única de olhar
para nós mesmos, a Terra e o Universo como parte de tudo, e não como entidades
separadas querendo mandar, possuir, acumular e se impor aos outros.
JC
Cavalcanti - 04/03/2006
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