Graacc       '
 onde a dor encontra a alegria  

GRAACC - Grupo de Apoio ao Adolescente e às Crianças com Câncer - IOP / Unifesp - 
Vila Clementino
José Carlos Corrêa Cavalcanti - 23/11/2005
 

Estive hoje, pela primeira vez, no IOP - Instituto de Oncologia Pediátrica - o hospital parceiro da Unifesp para tratamento das crianças com câncer, onde tomei conhecimento, pelo menos em parte, do trabalho desenvolvido pelo GRAACC, o corpo de voluntários que apóia essa causa,  não apenas junto aos pacientes e acompanhantes, mas também no levantamento de recursos financeiros para a instituição e em atividades voltadas a divulgação do IOP.

É impressionante. Creio que o mais empedernido coração se desmancharia perante esse hospital que mais parece uma casa de bonecas, todo mobiliado, enfeitado e colorido com motivos infantis, com uma quantidade de médicos e enfermeiras, auxiliados pelas prestimosas voluntárias do GRAACC, atendendo com todo o carinho a dezenas de crianças portadoras de câncer.

Visitei apenas a Brinquedoteca e a Quimioterapia. E já foi o bastante; eu não conseguiria ver mais nada por hoje. Mas há muitos outros andares, onde são realizadas consultas e exames, e outros que abrigam as salas de fisioterapia, de apoio psicológico, de terapia ocupacional e ainda o setor de internação, onde ficam os jovens pacientes que passaram por transplantes ou cirurgias delicadas, que apesar da excelência do corpo de cirurgiões altamente especializados,  sempre comportam uma considerável margem de risco. Em todos os andares nota-se a presença de voluntários do GRAACC.

Na Brinquedoteca ficam as crianças, assim que chegam com seus pais (e principalmente com suas mães) dos mais diversos lugares, às vezes, de muito longe, inclusive do litoral e interior. E ficam ali brincando, se distraindo, com a companhia das voluntárias, durante o tempo necessário para relaxamento e recuperação da viagem, antes de ir para a Quimioterapia ou qualquer outro procedimento. Há brinquedos de todos os tipos, desde escorregador e casinha até computador e jogos eletrônicos, passando por literatura infanto-juvenil e instrumentos musicais. 

Vejam que sabedoria dos organizadores: em vez de receber as crianças — desde bebês até 18 anos de idade — e enviá-las diretamente ao setor de tratamento, com picadas de agulhas, soro, antibiótico, a direção do IOP as envia para brincar!

A criança sabe que está doente. Ela sabe que seus pais a estão levando para tratamento, e este é um contato com a dor. Mas, ali, a dor é humanizada; ela não é algo a ser segregado do convívio social, como se não fizesse parte da vida. Assim, o medo é diluído , ele não se multiplica exageradamente, pois não se está sozinho, isolado; o ambiente é animado, parece uma festinha de crianças, acho que ali todos trabalham com o coração, por isso sempre têm um sorriso carinhoso iluminando seus rostos.

E isso é contagiante. Embora eles estejam lidando com situações da maior gravidade, não há ali a pressa e o stress típicos da vida em nossa cidade; achei o ambiente impregnado de uma emotividade calma e benfazeja, e o visitante sem querer fica comovido.

Crianças pequenas, às vezes recebendo medicação na veia por até 8 horas, acompanhadas das mães exaustas (algumas chegando a "cochilar" um pouco numa cadeira simples), alheias ao quadro dramático, sorriem e mostram os origamis que aprenderam a fazer recentemente com alguma voluntária.

As mesas estão cheias de bordados e outros singelos trabalhos artesanais, desenvolvidos pelas crianças; as paredes estão repletas de desenhos infantis:  o sol amarelo, as árvores verdes, as flores coloridas, casinhas, rios, familiares. Há também um mural com depoimentos altamente emocionantes dos pais e das próprias crianças.

Vale a pena ler, emocionar-se com a dor dos outros, como ela é tão nossa também! Fica muito difícil dizer, depois dessa visita, "não tenho nada com isso", com respeito ao sofrimento de qualquer ser humano.

Há um teclado e um violão, de vez em quando aparece alguém e alegra mais o ambiente com alguma melodia. Se alguém acha que não é possível alegrar o ambiente onde pequenos seres são tratados de uma doença tão cruel como o câncer (algumas delas, infelizmente, com escassas chances de sobrevivência), então, por favor, tente conseguir uma visita ao local.

Vi, entre os acompanhantes, muitas mães e alguns pais. É incrível a doçura e paciência das mães, como sabem enfrentar melhor a adversidade, atentas a seus filhos. Alguns pais pareciam tão desconsolados! Pareciam não aceitar o fato que estavam vivendo. Achei que eles também precisam de apoio, até me deu vontade de conversar com alguns.

Pois não é só as crianças que precisam de tratamento, de amparo, de ajuda; os pais também estão sofrendo e espera-se que sejam fortes; alguns estão talvez desesperados ou revoltados, e espera-se que tenham equilíbrio e bondade. De onde tirar? não somos criados para ser vitoriosos, tratando a dor como exceção a ser superada?

Enfim, tudo isso me lembrou "Smile", a belíssima música de Chales Chaplin (em parceria com John Turner e Geoffrey Parsons), onde ele aconselha a sorrir perante todos os infortúnios da existência:

Smile tho' your heart is aching,
Smile even tho' it's breaking,
When there are clouds in the sky
You'll get by,  

Sorri, embora seu coração esteja sofrendo,
sorri, embora ele esteja se desmoronando,
quando houver nuvens no céu 
você conseguirá,


If you smile thro' your fear and sorrow,
Smile and maybe tomorrow,
You'll see the sun come shining thro' 
for you... 

Se você sorrir, apesar de seu medo e tristeza
sorria, e talvez amanhã,
você verá o sol surgindo a brilhar
para você...


Light up your face with gladness,
Hide ev-'ry trace of sadness,
Al -'tho a tear may be ever so near,
That's the time,
You must keep on trying,
Smile, what's the use of crying?

You'll find that life is still worth-while,
If you just smile....


Ilumine sua face com alegria,
Esconda cada sinal de tristeza,
Embora uma lágrima esteja sempre tão perto!
Essa é a hora
Em que você precisa continuar tentando,
Sorria, que adianta chorar?

Você verá que a vida ainda vale a pena,
se você apenas... sorrir


Para não ficar apenas com uma tosca e literal tradução desse belo poema, vejam o que é a sensível e primorosa versão de "Smile" feita por um grande poeta da música popular brasileira - João de Barro:

SORRI
Versão: João de Barro (Braguinha)

Sorri, quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri, quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri, quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri, vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz...

Vivenciar os contrastes voluntariamente tende a desmantelar a couraça de insensibilidade que vamos acumulando através dos anos. Algo de bom surge no coração quando contemplamos em sua inteireza os aspectos da vida, bem e mal, alegria e tristeza, sem repudiar nada.

Essa experiência, pelo que vi, é prática cotidiana no IOP. Tenho certeza de que essa atitude, aliada à competência e dedicação dos médicos e enfermeiras, é responsável pelo alto índice de curas (cerca de 70%). E, onde isso, apesar de tudo, não for possível... vivenciemos as dores, os medos, as perdas e a tristeza com um sorriso...

Mesmo assim, o visitante não pode se furtar ao discreto uso do lenço, ao se retirar do local...


Crônica da semana - JC Cavalcanti - 23/11/2005

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