Trabalhei onze anos na Prefeitura de São Paulo como professora de Educação
Artística. Até hoje sinto falta daquele mundo de ilusões, pois, para
mim, entrar no mundo do Faz de Conta sempre foi um sonho bom.
A turma mais encantadora era a segunda série. Eu contava a estória fazendo com
que as crianças participassem dela, assim elas viviam intensamente cada
momento, para depois reproduzi-la no papel. Eu amava os erros, achava-os lindo,
mesmo! Certa vez, no mês de agosto, mês de vacinar os cães, conversei com a
classe sobre o assunto, quem tinha cachorro, sobre o perigo da raiva e suas
conseqüências.
Pedi então que contassem, numa redação, como seria feita a vacina, se era no
Posto, gratuitamente, ou particular. Ao ler uma delas para corrigir os erros
deparei com a frase:
"Levei o Tobe para tomar, ele escapuliu e Ciperdeu! Minha vizinha achou
ele e me entregou e disse: eu já mandei vacinar o Tobe, vamos almoçar lá em
casa? Vamos, eu disse, então ela deu mingau para o Tobe, ele adora mingau."
De outra feita ensinei a turma a fazer bonecos com dois pedaços de madeira. O
pequeno porta-malas do meu Fusca estava sempre cheio de sucata. A criançada me
ajudava a levar sacolas com material que eu trazia. Para fazer os bonecos eu
usava caixa de pasta dental ou pedaços de madeira que eram unidos com barbante
no formato de cruz, e depois recobertos de pano, assim fazíamos a cabeça e
depois o corpo, tudo bem amarrado ou preso com fita crepe, e aí era só vestir.
A criançada entendia logo e cada um fazia o que queria e olhe! eram muito
criativas. Depois faziam grupinhos e iam na frente brincar de teatro. Um garoto
fez um palhaço e veio me perguntar:
- O que que eu falo, professora?
Então eu lhe disse baixinho: "Fale assim: Boa Tarde, criançada, sou o palhaço
Fulano de Tal, etc."
Eu tampava a minha mesa, fazendo uma espécie de cortinado, para que eles
pudessem se preparar atrás. O garoto se abaixou, levantou bem alto o palhaço
para que todo mundo visse e disse então, em voz bem alta:
- Boa Tarde, criançada, eu sou o PALHAÇO FULANO DE TAL!!!"
Nâo me lembro de mais nada, só sei que ri durante muito tempo... Mais tarde,
comecei a fazer as crianças bolarem em grupo o que iam dizer, assim eu podia
orientá-las um pouco na construção das falas, para que todos entendessem bem o
que elas queriam dizer.
Aprendi muito com as crianças, e às vezes tenho vontade de dar uma aula só para
matar a saudade.