Lembranças da Professora 

Fany Corrêa Cavalcanti - 26/02/2007 


Trabalhei onze anos na Prefeitura de São Paulo como professora de Educação Artística. Até hoje sinto falta daquele mundo de ilusões, pois, para mim, entrar no mundo do Faz de Conta sempre foi um sonho bom.

A turma mais encantadora era a segunda série. Eu contava a estória fazendo com que as crianças participassem dela, assim elas viviam intensamente cada momento, para depois reproduzi-la no papel. Eu amava os erros, achava-os lindo, mesmo! Certa vez, no mês de agosto, mês de vacinar os cães, conversei com a classe sobre o assunto, quem tinha cachorro, sobre o perigo da raiva e suas conseqüências.

Pedi então que contassem, numa redação, como seria feita a vacina, se era no Posto, gratuitamente, ou particular. Ao ler uma delas para corrigir os erros deparei com a frase:

"Levei o Tobe para tomar, ele escapuliu e Ciperdeu! Minha vizinha achou ele e me entregou e disse: eu já mandei vacinar o Tobe, vamos almoçar lá em casa? Vamos, eu disse, então ela deu mingau para o Tobe, ele adora mingau."

De outra feita ensinei a turma a fazer bonecos com dois pedaços de madeira. O pequeno porta-malas do meu Fusca estava sempre cheio de sucata. A criançada me ajudava a levar sacolas com material que eu trazia. Para fazer os bonecos eu usava caixa de pasta dental ou pedaços de madeira que eram unidos com barbante no formato de cruz, e depois recobertos de pano, assim fazíamos a cabeça e depois o corpo, tudo bem amarrado ou preso com fita crepe, e aí era só vestir.

A criançada entendia logo e cada um fazia o que queria e olhe! eram muito criativas. Depois faziam grupinhos e iam na frente brincar de teatro. Um garoto fez um palhaço e veio me perguntar:

- O que que eu falo, professora?

Então eu lhe disse baixinho: "Fale assim: Boa Tarde, criançada, sou o palhaço Fulano de Tal, etc."

Eu tampava a minha mesa, fazendo uma espécie de cortinado, para que eles pudessem se preparar atrás. O garoto se abaixou, levantou bem alto o palhaço para que todo mundo visse e disse então, em voz bem alta:

- Boa Tarde, criançada, eu sou o PALHAÇO FULANO DE TAL!!!"

Nâo me lembro de mais nada, só sei que ri durante muito tempo... Mais tarde, comecei a fazer as crianças bolarem em grupo o que iam dizer, assim eu podia orientá-las um pouco na construção das falas, para que todos entendessem bem o que elas queriam dizer.

Aprendi muito com as crianças, e às vezes tenho vontade de dar uma aula só para matar a saudade.

 

 

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