Reveillon 

Crônica de Ano Novo - 01/01/2007 - JC Cavalcanti


A família reunida aguardava, de copo na mão, o entornar da champagne cujos brindes haveriam de saudar o Ano Novo, logo após os discursos de praxe.

Lá fora a chuva caía ininterruptamente, desde o dia anterior, e os raios faiscavam na noite escura.

Enchidas as taças, um tio de cabelos brancos levantou-se e tomou a palavra. Bebeu um pequeno gole, saboreou-o lentamente, estalou a língua, pigarreou e disse:

— Isso é para remover possíveis bloqueios, que persistem mesmo nesta idade.

Alguns riram. O homem era mesmo engraçado, quando queria.

E continuou:

— No ano que se inicia, desejo que o conflito no Iraque aumente de proporções, e que a paz continue passando distante do Oriente Médio. Que os ódios tribais aprofundem suas raízes nos corações e os preconceitos racistas continuem firmes nas mentes de todos eles. Que o tráfico de drogas continue próspero. Que a bandidagem se organize, penetrando nas malhas do Estado. Que o homem continue mentindo para si mesmo através de explicações e justificativas. Que o amor do homem pelo dinheiro e poder aprofunde a desgraça, violência e injustiça em todas as partes do mundo. Que seu egocentrismo destrua progressivamente o planeta Terra. E que as religiões colaborem com o status quo, acenando com exemplos edificantes a serem imitados e com castigos e recompensas pós-vida. Obrigado.

Houve espanto geral. Como dizer uma coisa dessas, ainda mais a título de votos de Ano Novo? Estaria bêbado o tio? Era notória sua pouca resistência ao álcool. Felizmente ainda era cedo para a meia-noite, havia tempo para retificações, comentários conciliadores e votos mais amenos. Uma sobrinha, externando o sentimento geral, declarou:

— Tio, assim não vale. Pode até ser que o novo ano seja assim mesmo, mas com certeza não queremos isso.  Acho que os votos se destinam a desejar o oposto do que somos, e também devemos trabalhar na direção contrária aos nossos defeitos.

— Além disso, disse um convidado, amigo da família, para continuar como somos, não é necessário desejar, ainda mais em votos de Ano Novo, pois isso prossegue por si mesmo. Agora, se é de se fazerem tais votos, que sejam de melhoria geral de nós mesmos e da humanidade como um todo.

— Mesmo que sejam uma forma de auto-enganação, embora simpática? indagou outro convidado, também de cabelos bem grisalhos — pois no fundo apenas queremos nos sentir bem, ao menos momentaneamente, com esses votos, não importando que façam sentido ou não.

Disse o tio que havia discursado:

— É importante que estejamos conscientes do que somos e do que realmente desejamos. Talvez queiramos apenas nos sentirmos bem, ter um sentimento de paz, acreditar num amanhã tranqüilo. Mas, se desejamos mudanças para nós e para a humanidade, precisamos saber que o Ano Novo não nos dará automaticamente uma consciência libertada de seus conteúdos; continuaremos os mesmos, todos nós, com todas nossas mazelas.

Por instantes fez-se silêncio geral, quebrado apenas pelos trovões que ribombavam à distância.

— Eu de minha parte me contento em me sentir bem, já é o bastante, disse uma avó idosa.

— Eu também, disse outro.

— Mas talvez alguns de nós desejem realmente mudar, embora não saibamos como fazê-lo, disse o convidado de cabelos grisalhos.

— Se houver mudança tem que ser agora, disse o tio. — Nada adianta apontar ideais distantes como objetivos desejáveis; isso é apenas um truque para adiar a transformação e continuarmos sempre do mesmo jeito.

— Acabei de perceber uma coisa, respondeu o primeiro — desejar mudanças para o ano que vem, para o futuro, não nos incomoda muito; o que realmente "pega" é a mudança agora...

—  E o que deveríamos mudar? indagou uma convidada da família.

— De que é feito nosso patrimônio psicológico, adquirido pela experiência dos anos? Não será de revoltas, ressentimentos e tristezas, ódios e mágoas, de incessante comparação, competição, ambição e egoísmo, tudo disfarçado sob inúmeras máscaras onde nos escondemos de nós mesmos? É isso o que precisa mudar.

De novo, fez-se silêncio na grande sala de visitas onde todos se aconchegavam.

— E quanto aos votos em que desejamos tudo de bom para nossos parentes e amigos queridos? Certamente eles continuam válidos, não é? — perguntou uma jovem de aspecto muito vivaz.

— Claro que sim, respondeu uma das mães presentes.

— Sem dúvida, respondeu o tio. — Mas não devemos esquecer que a vida traz de tudo: alegria e tristeza, prosperidade e miséria, nascimentos e mortes, realizações e infortúnios... é vão supor que nossos bons votos irão moldar o futuro.

— Entendo, disse a sobrinha que primeiro havia comentado — a vida traz realmente o bem e o mal, mas não faz sentido, em pleno reveillon, que desejemos o mal, embora saibamos que ele é inevitável.

— Sendo assim, nossos votos deveriam se restringir ao momento presente, disse a mãe que havia falado antes. O futuro está além de nosso alcance, mas no presente temos a chance de ser felizes.

— Então, vamos fazer um poema de Ano Novo, propôs alguém.

E os participantes compuseram uma poesia que expressava seus votos para o novo ano que chegava...

I - Antes da virada

"Ano Novo logo vai chegar
com muitas canções pelo ar...
Venha pois cantar, você também
agora, e no ano que vem."
 
"Com carinho e amizade
e também muito perdão
Paciência não pode faltar 
prá ninguém se estressar"

II - Depois da virada

"Ano Novo agora já chegou
E nos encontrou a cantar
Pois depois da chuva e do trovão
O sol voltará a brilhar!"

"Viver traz muita alegria,
Mas nos traz tristezas também!
Nossos votos de equilíbrio e paz
Prá viver o mal e o bem."

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