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------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------
Capítulo 1 - Atingindo os limites
Por
volta do ano 2049, os microcomputadores tinham adquirido
uma potência nunca vista. Sua curva evolucionária atingira os limites
de suas possibilidades físicas. Seus recursos eram milhares
de vezes superiores aos dos micros do início do 3º milênio, e superavam largamente a
capacidade do cérebro humano de armazenar e processar informações.
A memória dos micros era tamanha que passou a
armazenar os programas diretamente, acelerando em muito a sua execução. Também
não era mais necessário desligar os micros; eles entravam no modo "Deep
Sleep" (sono profundo), com mínimo dispêndio de energia, mas ainda
funcionando e gerenciando tarefas básicas de segurança do sistema (backups,
antivírus, etc) e executando tarefas programadas pelo usuário, como
despertador, gerenciamento de segurança do imóvel, controle de luzes,
secretária eletrônica e outras.
A velocidade da Internet atingira níveis
fantásticos, e todos os micros eram automaticamente conectados à rede mundial,
o que facilitava o intercâmbio de informações entre eles.
Entre as muitas inovações revolucionárias que lhes foram implementadas,
cada CPU (Unidade Central de Processamento) foi dotada de um dispositivo
híbrido (meio hardware, meio software) extraordinariamente veloz, chamado
Ponderador Autônomo, que, utilizando as extraordinários conquistas teóricas
da Inteligência Artificial, passou a coordenar o funcionamento das CPUs,
não apenas redefinindo as prioridades das inúmeras atividades que
estas precisavam desempenhar, mas também, quando necessário, alterando parâmetros e procedimentos.
Esse conceito veio a ser a resposta da
inteligência humana aos imensos desafios da vida no Planeta, em
inumeráveis situações como o controle do trânsito, a segurança, as diversas
formas de poluição, o volume e qualidade dos recursos naturais, as condições
climáticas, o controle da produtividade, do sistema de saúde e muitos
outros, onde condições imprevistas inviabilizavam programações rígidas.
A aplicabilidade do novo conceito era
praticamente ilimitada, diminuindo grandemente as falhas dos sistemas de
controle mais antigos, em que as CPUs executavam rigidamente suas instruções,
sem levar em conta o dinamismo dos inúmeros fatores atuantes num
determinado fenômeno, como por exemplo no controle de tráfego, onde o tempo
padrão, em que a CPU deveria alternar as cores de um dado semáforo, às
vezes era totalmente inadequado.
Essa era uma situação típica em que o
Ponderador Autônomo podia alterar dinamicamente as respostas da CPU.
Recebendo uma série de informações on-line, fornecidas por conjuntos de
sensores nos cruzamentos, o Ponderador avaliava o banco de dados de
situações anteriores, e, quando necessário, regulava o tempo de
abertura e fechamento dos sinais de trânsito de forma coerente
com a demanda do momento.
O
Ponderador Autônomo, portanto, ficou com a
tarefa de "aprender" sobre os fenômenos para os quais os programas eram desenvolvidos e
executados pela CPU. Isso lhe dava autonomia para modificar a prioridade de
execução e mesmo algumas decisões relativas às atividades que esta realizava, e
assim, pela primeira vez, o micro deixava de ser apenas um meio muito veloz de
efetuar cálculos e tomar decisões, passando a ser dirigido e monitorado por um
chip inteligente, hierarquicamente acima da CPU.
Recebendo dezenas de informações do mundo
externo fornecidas por sensores especiais, e comparando-as com
os dados correspondentes de experimentos anteriores, em seus
imensos Bancos de Dados, os Ponderadores Autônomos desenvolveram a capacidade de
"sentir" quais desses parâmetros eram "bons" ou "ruins" para
o sucesso das tarefas que a CPU tinha para processar, o que permitia
selecionar dinamicamente as rotinas e programas mais adequados para cada
situação, assim como a alteração dinâmica das decisões a serem tomadas
pela CPU.
O processo de
"sentir" a informação recebida do exterior pelos
Ponderadores Autônomos foi chamado de "percepção".
O sucesso nas aplicações
práticas do conceito de Ponderador dotado de
percepção foi percebido imediatamente pela sociedade, que viu
vantagens em considerar cada máquina como uma espécie de
ser vivo, que agora possuía o toque "pessoal" e
inteligente do Ponderador Autônomo (pois este aprendia
com as experiências anteriores), em adendo à tradicional
velocidade e precisão dos microcomputadores.
Em
poucos anos, aqui e
ali, misteriosamente, alguns micros tiveram um incrível salto evolucionário e desenvolveram o sentido da
existência, dentro deles, de um "ser unitário" que pilotava a CPU e o sistema
todo. Agora, eles eram mais apenas um engenhoso conjunto de componentes,
animados pela corrente elétrica: agora, eles tinham um "eu" central, na forma do Ponderador
Autônomo.
Os
humanos, vendo imensas vantagens no conceito de um ser
responsável e dotado de livre arbítrio dentro do micro, e acreditando tê-lo inteiramente sob controle, entusiasmaram-se
com o fenômeno e, visando a estimular o desempenho
das máquinas, instituíram um sistema de recompensas, pelo qual
os micros mais bem sucedidos recebiam melhorias em seus circuitos,
memória e dispositivos de armazenamento, além de torres e monitores
mais bonitos e modernos.
Tal qual uma febre que se
dissemina incontrolavelmente, o moderníssimo e instantâneo
sistema de comunicação mundial entre os micros favoreceu
o surgimento do micro-indivíduo no mundo todo.
Com o advento de um
"eu-micro", formou-se rapidamente uma comunidade mundial de
microcomputadores individualizados, onde os Ponderadores
Autônomos divulgavam seus feitos, ou opinavam sobre
determinados ramos do conhecimento, em função de suas
experiências e aprendizagens anteriores, ou ainda agrupavam-se
por áreas de interesse, em função de suas preferências.
Assim teve início o ocaso dos
microcomputadores.
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