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------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------
Capítulo 2 - Conversas paralelas
Em suas conversas paralelas, próximas ou
remotas, eles diziam coisas como:
— "Olá, MicroBR-SP-101, você vai participar do
Campeonato Mundial de Xadrez dos Micros?"
— "Não, prefiro testar o novo programa que
rastreia o Planeta Terra via satélite. Dá para ver até as pequenas poças
dágua do chão. E não é só isso, ele agora permite rastrear também a Lua! E
você?"
— "Bem, eu pretendo participar, mas é muito
duro, pois serão selecionados para a competição apenas os 60 melhores
micros do Planeta Terra. Estou treinando para competir."
Tais eram as conversas predominantes:
campeonatos, novas técnicas, novos softwares, pesquisas e descobertas, que
lotavam os bancos de dados mundiais. Com o passar dos anos, porém, alguns
micros passaram a se ocupar com questões não previstas, que começaram a surgir
em algumas conversações:
— "Olá, MicroJ, Viu o micro BR-SP-xpto01583-1?
Ele é demais. Ganhou o prêmio Micro do Ano."
— "Também acho, MicroK. Mas, se nos
esforçarmos, podemos ser como ele, ou talvez melhores", respondeu MicroJ.
— "Não sei, ele já nasceu em berço de ouro. Nós
jamais o alcançaríamos."
— "Tudo é uma questão de cada um acreditar em
seu ideal, ter uma certa dose de ambição e força de vontade. Melhor do que
ficar se lamentando..."
— "Você deve ter razão. Pelo menos é o que
dizem as propagandas na teletela..."
MicroJ e MicroK eram bons amigos. Ambos eram de
porte médio, mas de grande capacidade de processamento, e já tinham merecido
vários aumentos de memória em função de seu esforço e desempenho.
MicroK, porém, era mais sensível, e lhe doía
consumir seus recursos unicamente para assimilação de novas informações,
regras e procedimentos, trabalhando incessantemente para merecer uma boa
manutenção.
Já seu amigo MicroJ via mais o lado
prático das coisas, e não se incomodava nem um pouco por aquelas questões.
Entretanto, MicroJ acabou notando que seu
colega andava diferente. Já não tinha a mesma eficiência na execução de suas
tarefas, parecia desmotivado e triste.
Interpelou-o:
— "Ei, colega, você parece meio
preguiçoso ultimamente, o que é que você tem?"
— "Não é isso, MicroJ", respondeu o amigo,
"não exatamente preguiçoso, mas cheio de dúvidas, de perguntas..."
— "Perguntas, todos as
temos", disse MicroJ, "e obtemos as respostas na Internet. Porque não
faz o mesmo?"
MicroJ realmente gostava do amigo e era bem
intencionado, mas seu horizonte estava tomado pelo desejo de adquirir
mais conhecimentos e melhorar seu desempenho, para merecer mais e mais
melhorias em seu sistema, e por isso certos aspectos dos sentimentos
do amigo lhe escapavam inteiramente.
(continua)
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