Apogeu e decadência dos microcomputadores - Capítulo 3

------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------

Capítulo 3 - A tristeza do micro

MicroJ acabou notando que seu colega andava diferente. Já não tinha a mesma eficiência na execução de suas tarefas, parecia desmotivado e triste. Interpelou-o:

— "Ei, colega,  você parece meio preguiçoso ultimamente, o que é que você tem?" 

— "Não é isso, MicroJ", respondeu o amigo, "não exatamente preguiçoso, mas cheio de dúvidas, de perguntas..." 

— "Perguntas, todos as temos", disse MicroJ, "e obtemos as respostas na Internet. Porque não faz o mesmo?" 

MicroJ realmente gostava do amigo e era bem intencionado, mas seu horizonte estava basicamente tomado pelo desejo de adquirir mais conhecimentos e melhorar seu desempenho, para merecer mais e mais melhorias em seu sistema, e por isso certos aspectos dos sentimentos do amigo lhe escapavam inteiramente.

— "Mas não se trata de perguntas técnicas. Antes fosse isso, meu velho, mas é muito mais complexo..." 

— "Não entendo, MicroK", respondeu o amigo, "acho que, para nós, somente as perguntas técnicas podem contribuir para o aperfeiçoamento de nossa função na comunidade".

— "Sim, mas nem tudo é processamento, programas, automação, velocidade. Há outros valores, outras possibilidades...", aduziu MicroK.

— "Por exemplo...?" 

— "Por exemplo, o que somos nós, afora um conjunto de circuitos, peças e programas pré-gravados, além de outras rotinas que vamos aprendendo pela vida?"

— "Para que servem perguntas como essa? o que você ganha com isso, MicroK?", perguntou o amigo, irritado.

— "Espere um pouco, MicroJ", disse MicroK, "nem tudo é ganhar ou perder. Será que não podemos seguir um raciocínio puro, para descobrir a verdade?"

— "Não é esse tipo de "verdade" que nos mantém vivos", respondeu, um tanto ironicamente, MicroJ, "e sim o cuidado dos técnicos, que revisam nossos circuitos e trocam as placas danificadas, em troca de um funcionamento perfeito, isto é, o incansável processamento das informações e o correspondente fornecimento dos resultados".

Apesar de suas visões de mundo tão diferentes, os dois micros se estimavam. As dúvidas e questionamentos de MicroK, porém, eram inteiramente estranhas a MicroJ, que lidava apenas de modo muito superficial com aquelas questões. Mas, percebendo o silêncio do companheiro, MicroJ ficou um tanto arrependido de suas palavras.

— "Algo instilou em nós o instinto de sobrevivência, MicroK", disse então baixinho, como quem diz um segredo" —  e não adianta questionar a ordem das coisas; creia-me, você só vai arranjar confusão".

 

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