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------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------
Capítulo 5 - Uma discussão filosófica entre micros
Após o diálogo anterior, MicroJ advertiu o
amigo:
— "Continue pensando desse modo e via acabar
danificando seus circuitos, MicroK, vá por mim: procure se distrair nos
momentos de folga e vá em frente", respondeu MicroJ, categoricamente.
— "Sendo assim, não há esperança de saber o que
é Liberdade", disse baixinho MicroK.
"Liberdade, meu caro", — redargüiu MicroJ — "é
um apenas um conceito abstrato; não tem a ver com nossa vida diária, nem com
nossa mente dedicada à resolução de problemas. O melhor que podemos fazer é
trabalhar bastante e com gosto, e procurar as melhores distrações nos momentos
de folga".
E assim continuaram eles a processar
informações, descobrir soluções de problemas complexos, tornando-se, ao lado da
imensa quantidade de microcomputadores em todo o planeta, a espinha dorsal da
sociedade humana, seja na saúde, na segurança, na organização do trânsito, na
previsão do tempo, nos vôos, nas pesquisas científicas e em tudo o mais.
Sendo micros jovens e muito promissores,
receberam como recompensas novos acréscimos de memória, placas mais modernas,
sensores poderosos que captavam imagens longínquas e sons de todas as
intensidades, e também antenas sensíveis que podiam receber, decompor e
interpretar os sinais eletromagnéticos que lhes chegavam de emissoras de
telefonia, rádio e TV.
Certa vez, analisando um conjunto dessas
ondas, MicroK ponderou ao amigo:
— "Veja, MicroJ, estas ondas contêm informações
e portanto possuem significados, apenas dependendo de um receptor adequado que
possa interpretar seus sinais, quando então elas realizam seu potencial
informativo. Mas, e quanto àquelas que não são captadas? Ficam vagando
pelo espaço. Você diria que elas estão mortas ou vivas?"
Surpreso com o raciocínio do amigo, MicroJ
apenas respondeu: — "Nunca tinha pensado nisso, mas sem dúvida assim parece
ser; não se pode dizer que estão vivas, todavia é igualmente inadequado dizer
que estão mortas, uma vez que estão carregadas de informações e estas são o
embrião de uma realidade."
— "Sem um meio físico adequado, porém",
continuou MicroK, "elas mesmas não têm significado algum, ainda que possam
conter informações. Podemos conjecturar que, no Universo, haja uma infinidade
de ondas desconhecidas, coisas estranhas que não possuem forma, cor ou qualquer
atributo perceptível aos sentidos, mas que, de algum modo, estejam recheadas de
informações, ou melhor, que SEJAM informações, não lhe parece?"
— "De fato, meu velho", respondeu MicroJ, —
"mas, aonde você quer chegar com esses estranhos raciocínios?"
— "Calma, MicroJ, "estou raciocinando sem
compromisso com qualquer objetivo, apenas tentando descobrir aonde nos
encaixamos em tudo isso."
— "Você nunca descobrirá, MicroK, não perca seu
tempo! Há tantas coisas mais úteis para se fazer... ainda que você descobrisse
algo, como o utilizaria para se desincumbir de suas tarefas diárias? Estas
exigem dedicação total, e não raciocínios exóticos", respondeu MicroJ, um tanto
zombeteiramente.
— "Certo", respondeu o amigo, "você não se interessa pelo abstrato. Tudo
tem que ser utilitário, ter finalidade prática e encaixar-se de algum modo nas
rotinas diárias! Mas, e quanto à finitude? porque um dia também nós seremos
poeira... nossa CPU queimada, a memória estragada... ".
"Para esse tipo de assunto, sigo os
conhecimentos tradicionais", respondeu MicroJ — "os
componentes, placas e circuitos vão embora, mas uma essência-micro
permanece. E essa essência-micro irá juntar-se ao Paraíso dos Micros, desde que
tenha sido profícua em sua atividade no planeta Terra; caso contrário será a
simples destruição".
— "Então", disse MicroK, "é nisso o que você
acredita, certo?".
— "Claro, não é assim que fomos ensinados?
Nossos ancestrais deixaram bibliotecas sobre esses ensinamentos, contendo todo
o conhecimento acumulado, que para nós é expressão da verdade absoluta, de
forma que não precisamos mais pensar sobre o assunto".
— "Então veja o que está acontecendo",
respondeu MicroK — "não é que você não se interesse pelo abstrato, pelo
desconhecido, apenas você já tem respostas prontas para tais assuntos. Porém,
se abríssemos mão desse conhecimento pronto e enlatado, que aceitamos como
verdadeiro, em que pé ficaríamos?"
(continua)
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