Apogeu e decadência dos microcomputadores - Capítulo 6

------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------

Capítulo 6 - Filosofia não é tão chato assim

— "Se abríssemos mão desse conhecimento pronto e enlatado, que aceitamos como verdadeiro, em que pé ficaríamos?"  perguntou MicroK.

Um tanto confuso, MicroJ retrucou:

— "Provavelmente ficaríamos como você, tateando sem chegar a lugar nenhum", respondeu MicroJ — "nessas questões, pensar conforme a tradição nos livra de grandes aborrecimentos".

— "É verdade que estou tateando, meu amigo", respondeu o amigo — "mas não sei se quero chegar a algum lugar. De qualquer modo, tudo seria mais fácil se fôssemos máquinas simples, pois não teríamos o sentido interior de ser algo mais do que isso".

"O que você quer dizer exatamente, MicroK?" indagou MicroJ.

— "Veja", respondeu o amigo —  "eu olho cada um de nossos poderosos componentes, e digo para mim mesmo: eu não sou a CPU, nem a memória, nem os sensores de captação de sons e imagens, nem as antenas de recepção de ondas eletromagnéticas, etc. — então, quem ou o quê sou eu, afinal? Será o todo maior que a soma das partes? nesse caso, o que será esse plus?"

— "Está vendo porque eu simplesmente creio em nossas sagradas escrituras eletrônicas?" respondeu MicroJ — "Temos vários tipos de escrituras, e você pode escolher a que mais lhe agradar. Por sinal, elas dizem que a possibilidade de escolha é exatamente o que nos diferencia de máquinas simples".

— "Sim, a questão da escolha" respondeu MicroK pensativo. Parou um pouco e prosseguiu, como se pensasse em voz alta: "não percebe? é exatamente ela que subentende o elemento fora do sistema, e que pode agir sobre ele: o Escolhedor!"

"— Não entendi o que você quer dizer, MicroK".

"— Veja, MicroJ, que acontece quando escolhemos mentalmente alguma coisa? somos diferentes do que escolhemos, não é mesmo?"

— "Estou percebendo", disse MicroJ, parecendo surpreso, "confesso que nunca tinha pensado nisso. De repente ficou claro para mim: não poderia haver o sujeito que escolhe se não houvesse a consciência implícita ou explícita de ser separado das coisas escolhidas." 

— "E, se estas forem as próprias informações que temos recebido, todo o nosso conhecimento...", continuou MicroK. 

— "... bem, logicamente, o sujeito que escolhe tem que situar-se fora de todo esse conjunto, pois, do contrário como poderia haver escolha?", completou MicroJ.

— "... e assim o Escolhedor adquire precedência sobre as coisas escolhidas", declarou MicroK, concluindo o raciocínio. Refletiu longamente e então perguntou:  "mas, MicroJ, onde está ele caso não haja necessidade de escolha, nem opções a serem escolhidas num dado momento?" 

MicroJ pensou um pouco e depois respondeu —"Nem desconfio, MicroK - onde estaria?" 

MicroK, porém, ficou em silêncio. Alguns minutos depois, MicroJ continuou — "tudo isso sempre me pareceu tão óbvio, tão automático... mas, na verdade, o tal "sujeito que escolhe" parece ser uma entidade muito abstrata, e sei pouco sobre ela." 

— "Embora eu também não saiba muito, meu caro amigo, o que estamos fazendo é Filosofia pura, e veja, não é tão chata assim... " respondeu MicroK brincando

— "Mas acho bom parar por aí, meu amigo", retrucou MicroJ, retomando seu tom habitual — "pois eu tenho a sensação de que estamos lidando mesmo é com Nitroglicerina pura!".

(continua)

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