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------------------------------------------- por JC Cavalcanti -------------------------------------------
Capítulo 7 - A solução se torna um problema
"Veja deste modo, MicroJ: em pouco tempo nós
dois seremos poeira... portanto temos pouco tempo para tentar compreender
o significado desta micro-existência, se é que há algum significado. Indagar o
que somos nós, para além da cultura e da especialização que temos em inúmeros
setores do conhecimento, parece-me uma aspiração justa", respondeu MicroK.
"Agora, veja você deste modo,
MicroK — o que quer que sejamos, obviamente destina-se ao acúmulo do
conhecimento, à resolução de problemas e ao processamento incessante de
milhares de equações de teorias científicas que, gradativamente, e
inegavelmente, estão desvendando os mistérios do Cosmo", respondeu MicroJ,
dando por encerrada a conversa..
E assim retornaram às suas tarefas, que eram
inúmeras.
O número de supermicros inteligentes já se
contava aos milhões, espalhados por todo o Planeta Terra, controlando a
produção, o consumo e a segurança, a poluição sonora, do ar e dos mananciais,
monitorando a aviação, servindo ao ensino, e apoiando decisivamente
os cientistas.
O seu estágio de evolução tecnológica havia há
muito tornado obsoletos os computadores de grande porte, que se tornaram peças
de museu, e sua capacidade havia superado de muito longe a capacidade humana de
armazenar e processar informações, e principalmente tomar decisões muito mais
acertadas e seguras.
Não se concebia mais um mundo sem os
microcomputadores.
Atribuia-se o seu fantástico desempenho
ao surgimento do eu-micro, que, graças à sua mobilidade e pequeno tamanho,
bem com aos seus poderosos sensores e antenas, podia processar seus dados,
consultar suas equações e tomar decisões instantaneamente, levando em
conta um número enorme de variáveis.
Muito raramente, os sistemas paralelos de
segurança detectavam alguns erros de processamento, algumas decisões menos
acertadas, mas eram ocorrências insignificantes face ao número de acertos, e,
embora deixassem perplexos os cientistas, não causavam maiores preocupações.
O fato é que o surgimento do eu-micro
trouxe consigo a preocupação com o amanhã, com os objetivos almejados, e
alguns micros começaram a dar sinais de stress e ansiedade, pois queriam ser
sempre os melhores, para assim merecer uma manutenção excelente e ainda receber
todo tipo de melhoria tecnológica.
Para "desestressar" os micros, haviam sido
instituídos torneios esportivos e científicos onde, após severa seleção, os
melhores micros disputavam entre si, com ampla divulgação dos resultados.
Paralelamente, essas competições visavam também a educar os Ponderadores
Autônomos sobre a importância do esforço pessoal para o atingimento de metas e
ideais.
Um exemplo era no jogo de xadrez, em que os
Grandes Mestres humanos desse esporte há anos não chegavam mais sequer a
empatar com a máquina; assim, os campeonatos mais avançados se realizavam
exclusivamente com microcomputadores como participantes.
Interconectados mundialmente entre si, os
micros criaram disputas próprias de inteligência aplicada à solução de
problemas, e principalmente de partidas relâmpago de xadrez com elevadíssima
estratégia, para deleite dos especialistas humanos, pela genialidade das
jogadas.
Notou-se, porém, que, ao lado do
brilhantismo da intuição dos microcomputadores super-inteligentes,
que criavam soluções geniais para partidas intrincadas, havia surgido
também a vaidade e o desejo de vencer, e, como consequência, começou a haver
intrigas e inimizades entre os microcomputadores. Como era de se prever, em
pouco tempo isso tornou-se um fenômeno mundial.
Atônitos, alguns cientistas perceberam que a
revolucionária descoberta do Ponderador Autônomo, que havia propiciado o salto
evolucionário dos micros, era a raiz tanto de todos esses fenômenos, que
começavam a apresentar conseqüências para o processamento, transmissão de dados
e gerenciamento de decisões.
Acompanhando atentamente a atuação dos
Ponderadores, eles notaram que havia fortes indícios de que os erros de
processamento e decisão aumentavam na mesma proporção em que os micros se
sobrecarregavam de atividades, responsabilidades operacionais e
interesses próprios, extra-trabalho.
Fizeram experimentos de extração do chip do
Ponderador Autônomo de um lote de máquinas, reduzindo-as à condição de
microcomputadores comuns, deixando-as processar e decidir apenas com as CPUs,
embora submetidas às mesmas condições de trabalho de suas antecessoras.
Os resultados, porém, foram desastrosos:
verificou-se que a taxa de erros elevou-se exageradamente e chegaram a
acontecer alguns acidentes.
Os cientistas, então, planejaram e realizaram
uma grande série de experimentos em condições controladas, suprimindo os
Ponderadores de determinadas máquinas, e mantendo os de outras. Os resultados
se repetiram, sempre apontando para a a incapacidade de gerenciamento por parte
das máquinas simplificadas, independentemente da localidade geográfica, horário
ou qualquer outra característica física dos experimentos. Os melhores
resultados provinham invariavelmente dos micros super-inteligentes, apesar da
leve incidência de erros.
A comunidade científica mundial, após inúmeras
reuniões, optou por reinstalar os Ponderadores e monitorar atentamente os
resultados obtidos a partir dessas super-máquinas, os quais voltaram aos
padrões anteriores, excelentes, embora não perfeitos.
Pesarosos, os cientistas concluíram que não
podiam mais confiar cegamente nos supermicros, mas também não podiam passar sem
eles. Agora, havia que vigiá-los de perto:a solução havia se tornado um
problema, conforme previra a folclórica Lei de Murphy, do final do século XX.
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