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A
amante
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos III"
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Brian, meio sentado na
cama, não sabia se resistiria. Os sinais do infarto se ampliavam. A dor no
braço esquerdo, estendendo-se para o ombro e para o peito, era intensa.
A náusea aumentava.
Existia uma farmácia a alguns passos, mas, como era domingo, estava fechada.
Era a sua segunda crise.
A primeira fora há três anos, logo depois que conhecera Ruth. Nessa ocasião,
colocou, pela primeira vez, o Adalat sob a língua. A crise regrediu e ele foi
ao cardiologista.
Este o examinou e
fez-lhe o eletro. Daí em diante, ele era um cardiopata. Devia fazer dieta,
evitar esforços e emoções intensas e tomar hipotensor. Andou, por alguns meses,
com o Adalat no bolso, mas depois o esqueceu. Como, aliás, todo o resto.
Brian sofria, quase
imóvel, mas sua cabeça funcionava rapidamente.
Por simples curiosidade,
tinha ido à Escola de Danças de Salão Carlos Gardel, na Lapa. Afinal, sempre
quisera melhorar os seus passos, sair daquela mediocridade do "um pra cá, dois
pra lá".
Mas reconheceu que
estava fazendo uma experiência num ambiente desconhecido. Bem, se tudo desse
certo, contaria a Marina e aos meninos.
Pagava-se
antecipadamente pela semana toda: três aulas. Não eram caras. Lá, encontrou, na
maioria, homens com mais de quarenta anos e até além da sua faixa: 53. Havia um
número menor de alunas mulheres.
Quanto aos professores,
eram homens e mulheres de origem simples e que ganhavam muito pouco, mas
dançavam com perícia. Conforme a necessidade, a professora dançava com homem ou
com mulher. De forma que ela sabia desempenhar papéis de dama e de cavalheiro.
Para poder ensinar os passos, ela conduzia sempre o par, em qualquer dos casos.
A mesma ambivalência
ocorria com os professores homens. Num intervalo, Brian ouviu um deles
comentar, entre dois cigarros: “Consegui um trabalho com vendas, numa
imobiliária. Vou parar de dançar com homens.”
O aprendiz notou que o
tipo de função repugnava alguns professores. Teve de reconhecer que ele também
não gostava de aprender (dançar) com um professor homem. Realmente, o sexo era
o mais forte tabu da sociedade.
Na cama, Brian sentia as
dores se agravarem. Por que deixara de acompanhar-se de um Adalat ou um
Isordil? Agora, sob ameaça de morte, aguardava Ruth, que saíra com o carro
dele, à procura de uma drogaria aberta. Dirigiu-se ao banheiro e vomitou.
Foi na Carlos Gardel que
encontrou Ruth. Era uma morena baixa de corpo cheio e belíssimas pernas. Quando
ela estava ocupada, ensinando outro aluno, ele não dançava, esperava por ela.
No início do segundo
mês, ela colocou-lhe, discretamente na lapela, o seu endereço e o convite para
ter aulas em sua casa. Dessa forma, ela não precisaria pagar a parte da firma.
Brian passou a
freqüentar a casa de Ruth. Após algumas aulas, foram a um baile do Homs, numa
quinta-feira à noite, para testar os resultados. Agora recordando, talvez nos
seus últimos momentos, Brian notava que o caso com Ruth se dera quase
inesperadamente.
Apenas quando se viu com
ela dentro do motel é que percebeu ter avançado bastante no caminho. Ele amava
Ruth? Amava Marina? Ou a ambas? Ou talvez a nenhuma, somente aos seus corpos?
Neste instante, ele não
sabia. O fato é que ia morrer na casa da amante. Isso seria um escândalo na
família e na pequena sociedade que o cercava.
Brian suava frio e
passava, constantemente, o lenço pela testa. Não sabia se sofria mais com o
infarto ou com a vergonha da situação. Pela sua mente, passavam todas as
conversas imagináveis que deveriam acontecer em torno do caixão e nos dias
subseqüentes.
Frases cortavam-lhe o
cérebro, saturavam seu estômago nauseado: “Que fiz eu para ser traída com esse
cinismo, durante três anos?” “Papai nos envergonhou. Eu não esperava por isso.”
No auge do desespero,
Brian fez uma promessa: salvando-se dessa situação, deixaria Ruth e se tornaria
o mais fiel dos maridos. Mal terminava de formular, devotadamente, esse
compromisso, a amante chegou com o remédio.
Brian colocou o Adalat
sob a língua e esperou, renovando, em silêncio, os seus acertos com o Céu. Foi
melhorando. Duas horas depois, sentia a crise encerrada. Ruth desvelava-se em
atenções. Insistiu em que ele procurasse um médico. Dispôs-se a marcar dia e
hora.
Mas Brian, após alguns
minutos, contou-lhe o que havia prometido em sua suposta hora derradeira e
afastou-se da moça. À noite, quando a deixou, ela estava em prantos.
Entretanto, ele nada
informou, em casa, do que sofrera. Três dia depois, visitou o mesmo
cardiologista e fez um novo eletrocardiograma: “Seu estado de saúde está
estacionado, mas sob risco. Nunca mais esqueça o seu Adalat. E o regime, viu, o
regime ...”
Brian saiu e
comprometeu-se a ser fiel aos remédios e ... à dieta. Às 19:30h, telefonou para
Ruth: “Estou voltando.”
Selaram, com um longo
beijo, a nova fase.
(Julho/99)
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