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A
bebida
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos III"
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Foi depois que Míriam
morreu que aquilo começou a acontecer.
Já ao chegar do enterro,
Archibaldo tomou três doses de conhaque. Duas horas depois, estava com fortes
dores de cabeça.
Ora, isto jamais lhe
ocorrera. Sempre fora resistente à bebida, física e mentalmente. Não dava
vexame, ainda após várias repetições do whisky ou do vodca. Na cerveja,
enfileirava as garrafas. No chopp, empilhava as cartelas.
Pensou, então, que seu
mal-estar era devido à tensão dos últimos dias. Sempre haviam bebido. Os dois.
Consideravam o álcool uma terapia, um desligamento que escorraçava a ansiedade.
Ridicularizavam o primo
de Archibaldo, Ludovico, que vivia entre médicos e remédios. Ele fazia análise
e ingeria vitaminas. Míriam ria. Tomasse ele uma boas caninhas e logo
dispensaria os doutores e as suas receitas. Antes bêbados do que
hipocondríacos.
Dois dias depois,
Archibaldo serviu-se do vodca, mas voltou a passar mal. Deveria converter-se em
abstêmio, como o primo? Isso, de certa forma, tinha um sabor de derrota, quase
uma afronta à sua virilidade. Só lhe faltaria deixar também o cigarro. Míriam
havia bebido e fumado até o fim, mesmo depois de saber da sua cirrose hepática.
Quando começou a
sentir-se mal, com dores e vômitos, fechou a casa à curiosidade dos parentes,
com o apoio do marido. Ambos deixaram passar longo tempo, antes de consultarem
um médico.
Este diagnosticou a
doença de Míriam e prescreveu remédios e dieta. Ela resolveu parar de comer,
chegou a tomar a medicação, mas não deixou a bebida. Na terceira vez em que
Archibaldo voltou ao álcool, agora com whisky, este caiu no chão, antes de
atingir o copo.
Numa segunda tentativa,
o fato se repetiu e o viúvo abandonou a idéia. Míriam tinha caído em depressão.
Não que ela e o marido o reconhecessem, que pouco entendiam de tais assuntos.
Achavam, inclusive, a expressão um tanto ridícula, coisa de Ludovico.
A este Míriam havia dito
várias vezes: “Tudo o que você tem está na sua cabeça.” O primo de Archibaldo
argumentara que o fato de um mal qualquer ”estar na cabeça” não significava que
ele não existisse. Havia que tratá-lo. Míriam
rira.
Archibaldo tentou o gin.
Descobria, agora, que tremia. Seria por isso que a bebida caia no chão? Não,
porque das vezes anteriores ele não se lembrava de haver tremido. Tudo lhe
corria bem, exceto em dois aspectos: na saudade que a esposa lhe deixara e em
seus últimos desentendimentos com o álcool.
Como iria atenuar as
suas tensões? O que estava dificultando a prática da sua filosofia?
Míriam concordara em
voltar ao médico. Este lhe prescreveu antidepressivos, ela passou a tomá-los e
parou, temporariamente, de beber. Mas Archibaldo não parou e o fazia toda
noite, diante da esposa abstinente. Com tais provocações e em razão mesmo do
bem-estar que lhe proporcionava a medicação psicotrópica, ela retornou às
doses. Embriagava-se diariamente.
A cirrose avançou, como
erva daninha, em campo fértil e descuidado. E ela mergulhou, outra vez, nos
braços avassaladores da depressão. Passava os dias gemendo, em frente ao
televisor, desinteressada de tudo o mais. Em sua escassa cultura sobre o
assunto, o marido não insistia em que ela voltasse ao médico.
Entretanto, o casal,
sentindo enfraquecida a sua apregoada forma de viver, ocultou a enfermidade dos
conhecidos e procurou isolar-se de forma crescente.
Archibaldo insistiu de
novo. Colocou o copo sobre a pia e, cuidadosamente, despejou o vodca entre
tremores. Tomou mais de meio copo. Mas, três horas depois, estava vomitando e
tomando três comprimidos de ormigrein contra uma terrível cefalgia.
Quando Míriam morreu, o
viúvo procurou mostrar-se forte, diante de parentes e amigos. Trazia a alma em
pedaços, mas sorria e conversava alto. Alguns se indagavam como era possível,
num casal de classe média superior, a mulher falecer de cirrose, quase
desprovida de acompanhamento médico, no final do século XX?
Archibaldo considerava
que a esposa, resistindo às consultas, tinha-se deixado morrer deliberadamente,
num lento suicídio. Mas sabia que ele não se opusera a isso com empenho. Pelo
contrário, tinha negado informações às pessoas que poderiam demovê-la da
estrada que seguia.
Passados três meses do
falecimento, Archibaldo tirou a garrafa de whisky da prateleira pela última
vez. Com os olhos perdidos no infinito, prometeu a Míriam que estava encerrando
o seu espairecimento etílico.
Que lhe permitisse essa
despedida. Com mãos firmes, colocou a bebida e o gelo e ficou saboreando o seu
néctar por uma hora, até sentir a tontura que procurava. Passou otimamente,
depois. Nunca mais bebeu.
(Julho/99)
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