|
|
A
morta
|
Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"
|
O engenheiro Sérgio
Almeida parou seu citroën numa das travessas da Praça do Rossio, no centro
antigo de Lisboa e dirigiu-se à velha casa. Por que, até hoje, a Prefeitura a
deixara em pé? Por que, só agora, fazia um contrato para demoli-la? Embora
erguida sobre pedras e com material resistente, estava a ponto de cair há
décadas.
Almeida se lembrava de
que já estava assim quando, em criança, deixava Viseu, na Beira Alta, e vinha
passar as férias escolares com os avós, em Lisboa. Moravam eles nas cercanias
da Praça do Comércio, próximos do Tejo. Mas também seu pai dizia conhecer a
referida casa, abandonada como testemunha do passado. Ali, tão perto do Rossio.
No passado, deveria entrar-se por um corredor estreito, em cujo início houvera,
alguma vez, um portão. Ao se aproximar da casa, destoante do conjunto dos
edifícios e ao se pôr a examiná-la, o engenheiro começou a sentir-se mal. De
repente, foi atacado por forte tristeza, acompanhada de náuseas e um grande
desânimo. Sem atinar com a razão do seu estado, deixou novos exames para a
semana seguinte.
Nesse ínterim, procurou
informar-se, na Prefeitura de Lisboa, sobre o histórico da construção. Já
várias companhias demolidoras haviam assumido o compromisso de derrubá-la, mas
tinham desistido, misteriosamente. Almeida seguiu o rastro até 1906, antes da
República, mas, aí, perdeu-o. solicitou, então, ao seu sócio na empresa que
fizesse o exame por ele. O colega o fez. Mas, dois dias depois da visita,
aconselhou Almeida a romper o contrato.
“Mas tu, ao menos,
entraste na casa?”
O sócio respondeu,
pensativo: “Para dizer-te a verdade, pá, senti-me mal e desisti.”
Dez dias depois, Almeida
tomou uma decisão definitiva: entraria na casa, de qualquer forma. Repetiu o
caminho. Quando chegou, renovaram-se as sensações estranhas. Percorreu o
corredor imundo, cheio de mato, de ratos e, mesmo, de uma pequena cobra. A
porta de entrada, que já fora de boa madeira estava, aos pedaços. O engenheiro,
vencendo as más sensações que se agravavam e se alteravam, como vírus mutantes,
colocou a porta abaixo, numa pancada simples.
Almeida entrou. Dos
corredores e de alguns aposentos da casa térrea, nada mais restava. Mas ele
descobriu a entrada de uma sala principal, que parecia bem conservada.
“Queira entrar, Sr. Dr.
Almeida,” falou uma voz feminina dentro da sala.
A essa altura,
misteriosamente, o técnico perdera inteiramente os sentimentos que o
atormentavam e adquirira um corajoso interesse científico. Afastou, com as
mãos, duas grossas cortinas de algodão e entrou. Dentro, a sala estava
perfeitamente conservada e iluminada por quatro velas de cera.
As quatro paredes se
achavam cobertas por cortinas. Mas, a um canto da sala, sentada numa poltrona
de pano vermelho... havia uma jovem, só parcialmente monstruosa. Bela dos
ombros para baixo, possuía, entretanto, os olhos esbugalhados e a língua fora
da boca, como acontece com os enforcados e os estrangulados. Existia uma
profunda marca em seu pescoço.
Ela cobria a boca com a
mão, para não chocar muito o visitante, mas Almeida não compreendia como podia
ela expressar-se. Ademais, o sotaque da enigmática personagem era profundamente
diferente do atual. “Com quem falo, minha Senhora?”
“Com Maria Eudoxa Lopes
Duarte, condenada à morte pela Inquisição, no primeiro Auto-de-Fé de Portugal,
a 20 de setembro de 1540, em Ribeira Velha. Não observou meu traje?”
Só então o engenheiro
notou que ela envergava um longo vestido com centenas de pequenos demônios, ora
pintados ora cerzidos. “Eu sei,” disse Almeida, “os condenados eram obrigados a
vestir essas roupas. Deveria ser trabalhoso prepará-las.”
“Todo esse trabalho se
justificava pela grande festa que era um Auto-de-Fé, reunindo, em banquetes, o
rei, o inquisidor, nobres, clérigos e o povo. Também desfilavam condenados a
prisão perpétua, a degredo, a penas menores.”
“Era a versão ibérica do
circo romano,” comentou Almeida, com um sorriso triste. “Mas... e a Senhora?”
“Eu era tecelã de
cortinas nesta casa e tinha 25 anos. Fui denunciada como judaizante. O Santo
Ofício aceitava acusações anônimas. Meu bisavô fora judeu, mas meu avô se
converteu e, a partir dele, éramos considerados cristãos-novos ou marranos.”
Almeida conhecia um
pouco da História de Portugal: “A sede do Tribunal ficava aqui no Rossio. Um
frade crítico costumava dizer que, assim como na Calcetaria se fabricavam
moedas, no Rossio se fabricavam judeus.”
“Eu resisti à tortura
por três dias, mas depois confessei tudo o que insinuaram e ainda mais.
Constava que o confesso escapava à morte. Mas encontraram algumas contradições
no meu depoimento. Minha família era abastada e, a partir do início do
processo, a Igreja se apossara já de tudo.”
“Por que não foi a
Senhora queimada?”
“No instante final, o
confessor perguntava ao condenado se queria ou não morrer dentro da fé em
Cristo. Respondi que sim. Então, um algoz me garroteou, para poupar-me as penas
da fogueira. Eu deveria ser queimada a seguir, mas não acharam meu corpo. Desde
então, “vivo” aqui.”
“Mas como poderei
entender tudo isso? A “vinda” da Senhora e a sua permanência neste sítio por
quatro séculos e meio?”
“Tudo tem alguma
razão... ou não tem nenhuma.”
Almeida compreendeu que
sua pergunta era inútil. Tentou outra: “E por que, afinal, resolveu a Senhora
permitir minha entrada agora, em 1999?” “Os meus sentimentos indicam que devo
terminar alguma coisa... uma tarefa.”
“Saiba a Senhora que,
amanhã, as máquinas virão dar início à demolição desta estrutura.”
“Esteja tranqüilo o Dr.
Almeida que, antes disso, esta casa ruirá, sem prejuízo de ninguém.”
O engenheiro se
despediu. À noite, não pôde conciliar o sono. Foi para o Rossio e ficou olhando
a casa, de dentro de um bar, onde alguns boêmios bebiam e cantavam. Às três da
manhã, a construção (ou o que dela restava) começou a desabar, como acontece
nas implosões. Mas parecia cair com uma lentidão e um silêncio calculados. O
pouco pó levantado logo desceu e decantou. Ninguém percebera nada, exceto
Almeida.
Ele se considerava o
privilegiado, escolhido pela Providência, para testemunhar a queda da última
ruína de quase 300 anos de teocracia e fanatismo. Foi ver o que restara. Mas
não achou qualquer vestígio da infeliz garroteada. No dia seguinte, a sua
Demolidora procedeu à limpeza da área. Os dois sócios decidiram nada cobrar
pelo serviço.
(março / 99) .
Voltar
|
|
|