A pista
Luiz Roque é poeta e contista    
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"

Foi depois que seu filho desapareceu que Dagoberto começou a ouvir a música. Era sempre a mesma. Em geral, ele pensava nela durante um certo tempo, de maneira obsessiva. Era como se estivesse sob o seu domínio, ao longo de um período em que não conseguia bani-la da memória. Em outras ocasiões, ele a escutava claramente, como se lhe soasse ao ouvido:

“Oh! Tristeza me desculpe / Estou de malas prontas Hoje a poesia / Veio ao meu encontro / Já raiou o dia / Vamos viajar”

Ele a conhecia. Era VIAGEM, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Priorizava as imagens ao sentido. Sua filha a havia cantado e tocado ao violão, em duas circunstâncias, já distantes. Mas Lenora interpretava também dezenas de outras canções. E Dagoberto conhecia outras tantas. Por que a fixação naquela?

“Vamos indo de carona / Na garupa leve Do vento macio / Que vem caminhando / Desde muito longe/ Lá do fim do mar"

Dagoberto possuía um curso técnico de contabilidade e outro de computação. Começou, na firma, num cargo modesto e pouco depois se casou, em meio a dificuldades financeiras. Mas, com senso de responsabilidade e muito trabalho (às vezes, traindo as greves, contra a vontade), conseguiu um cargo razoável, com salário correspondente.

“Trabalho como um dono de padaria”, comentava. Dessa forma, com sacrifícios, chegou a adquirir o apartamento, em que morava, com a família. Mas, apesar de sua formação técnica, Dagô, como o chamava a mulher, tinha uma boa bagagem de conhecimentos artísticos e literários.

Por isso é que, quando lhe nasceu o primeiro filho, sapecou-lhe o nome de Valjean, em homenagem ao Jean Valjean de “Os Miseráveis”. Dois anos depois, a filha recebeu o nome de Lenora, traduzindo o entusiasmo do pai pelo poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe.

A sensibilidade de Dagoberto explicava, talvez, porque, sem conhecimento de música, sentia-se atraído por composições populares do tipo "Viagem". Nada lhe diziam os modernos rocks bate-estacas que os jovens chamavam, apropriada e simplesmente, de “sons”.

Com o passar dos anos, o apartamento de dois quartos se tornou pequeno e Valjean começou a dormir na sala para dar mais liberdade à irmã. Por isso, Dagoberto começou a economizar, no sentido, de adquirir uma residência mais ampla.

“Vamos visitar a estrela / Da manhã raiada / Que pensei perdida / Pela madrugada /
Mas que vai escondida / Querendo brincar”

É isso. A música apareceu, obstinando-o. Mas por quê? E por que tal idéia fixa veio coincidir com a ausência de Valjean? Ele estava com 19 anos, matriculado no 1° ano de Economia da PUC.

A mãe comentara : “Ele anda um pouco estranho, Dagô ...”

“Laura você vê fantasmas,” observou o marido. “Preocupou-se com Lenora, quando ela teve a primeira menstruação; suspeitou da minha fidelidade, quando comecei as aulas à noite.”

Laura riu: “Uma noite ainda vou visitar aquela escola secundária. Ora, não existe contabilidade no exame vestibular...” E a conversa terminou na cama.

“Senta nessa nuvem clara / Minha poesia / Anda se prepara / Traz uma cantiga / Vamos espalhando / Música no ar"

Quando Valjean começou a chegar tarde e a faltar à Faculdade, Dagoberto resolveu conversar com ele.

“Não há nada, pai. Agora, vou atacar o curso pra valer.”

Mas não aconteceu. Passados dois meses, o pai voltou a querer compreender o filho. Mas, ao fim da conversa, achou-o ainda mais distante. Pouco depois, o rapaz não veio dormir em casa. A mãe esperou-o no dia seguinte. Nada. Nem no outro.

Dagoberto foi à Faculdade: ele não comparecia há um mês. Acionou a polícia, procurou seus amigos. Tudo infrutífero.

“Olha quantas aves brancas / Minha poesia / Dançam nossa valsa pelo céu que o dia /
Fez todo bordado de raios de sol.”

Foi nessa época como já sabemos, que a música se iniciou. Às vezes, acordava-o de noite, martelando-lhe o cérebro. Os colegas de serviço, que conheciam o drama do sumiço de Valjean, guardavam silêncio. Ou batiam nas costas de Dagoberto, com carinho solidário: “Tenho certeza de que ele voltará, quando você menos esperar.”

Numa manhã de terça-feira, por volta de nove horas, Dagô, com a cabeça entre as mãos, não conseguia trabalhar:

“Oh! Poesia me ajude, vou colher avencas, lírios, rosas, dálias /
Pelos campos verdes que você batiza de jardins do céu”

A canção se denominava VIAGEM. Quereria ela dizer-lhe alguma coisa? Mas se o filho partira, sem deixar pistas, como podia ele, o pai, descobrir seu destino? Era tudo impossível, ele vivia uma loucura.

“O Luisinho faltou de novo, Dagoberto.” (Ele escutava, imóvel, com as mãos no rosto). “Deve estar numa das suas viagens. Esse rapaz acabará demitido.”

Dagoberto deu um salto: “Viagens?”

“Claro,” respondeu o colega, “não sabe que o Luisinho é metido com drogas?”

Naquela noite, acordou com a penúltima estrofe, que se repetia, insistente:

“Mas pode ficar tranqüila / Minha poesia / Pois nós voltaremos. / Numa estrela guia /
Num clarão de lua / Quando serenar”

Agora, porém, ele tinha, pelo menos, um roteiro a seguir. Chegou a pensar na incorreção da letra da música no tocante à pontuação e às expressões de tratamento. Dois dias depois, quando Dagoberto escutou, às onze e trinta da noite, os rojões na favela próxima, colocou uma roupa velha e surrada e dirigiu-se para lá. Não teve dificuldades em achar o local, pelas pessoas que ali chegavam. Ficou observando o ponto de longe, tomando pinga num bar.

Passados vinte minutos, viu que Valjean se aproximou, bastante magro, e comprou a droga. Seguiu o filho. Alcançou-o:

“Val, sou eu, seu pai.”

O moço, que fizera menção de correr, parou. Abraçaram-se, chorando. Depois, permaneceram imóveis, ainda abraçados e com os rostos encostados. Por fim, Dagô mirou o filho nos olhos e sorriu:

“Agora, vai começar a sua fase de tratamento e recuperação. E compraremos outra casa, longe daqui.”

Valjean, finalmente, deu risada, com a face molhada de lágrimas. Parecia ter recuado na idade. O pai colocou a mão sobre o seu ombro e foi conduzindo-o para casa.

Cantarolou o fim da música, bela e exótica:

“Ou talvez até quem sabe / Nós só voltaremos No cavalo baio / no alazão da noite / Cujo nome é raio / Raio de luar.”

(outubro / 98) . 

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