Miniconto fantástico da semana - 28/12/2005 
                 Ásia Menor
Luiz Roque é poeta e contista    
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos", publicado pela João Scortecci  Editora - 1995 

Osmã Kadri, comerciante em Campo Grande, é filho de turcos. Sempre se irrita com o hábito de chamar os árabes (colônia numerosa) de turcos (raríssimos no Brasil). Campo Grande é considerada uma ilha de "turcos" (árabes), cercada de japoneses por todos os lados.

Osmã costuma pegar o interlocutor pelo braço e apontar: "Eu sou turco, eles todos são árabes. Nada a ver. "Mas não se pode negar que os turcos foram haurir sua religião e grande parte da sua cultura dos árabes, que dominaram. Repetiu-se o fenômeno greco-romano.

Aos 39 anos, Osmã se sentiu em condições de visitar a Turquia. Antes de viajar, um cliente lhe traçou umas pinceladas: "Esse país belíssimo teve um dos maiores impérios da História. E, se não fosse a Batalha do Lepanto em 1571, nós talvez falássemos turco. Mas, ao fim da I Guerra, o Império se extinguira e o "Partido dos Jovens Turcos" sob a chefia de Mustafá Kemal (Ataturk) resolveu colocar o país no século XX. Com a tradicional violência otomana, proclamou a República, criou o Estado Laico, mudou o alfabeto e o calendário, proibiu trajes tradicionalistas, alterou a educação, exterminou os armênios."

Osmã levava a mulher e os dois filhos, todos brasileiros. Ele tem um casal: uma jovem de 14 anos e um garoto de doze, Antônio, que era mudo, embora nenhum médico houvesse, jamais, localizado qualquer anomalia em suas cordas vocais. Os adolescentes, de tez morena e cabelos fortemente negros, compõem um belo quadro.

Ao desembarcar em Ankara, Osmã se integrou, com a família, num grupo de turistas locais, de forma que o guia falasse turco, o único idioma que o comerciante compreendia, além do Português. Para a família, ia ele transmitindo, a duras penas, as informações do guia, um especialista de 28 anos, que parecia saber tudo.

A esposa prestava atenção às vitrinas: a menina, aos trajes e às músicas dos jovens; mas Antônio parecia ter especial interesse pelos aspectos históricos. A excursão começou pelo norte, visitando Istambul (a Bizâncio, a Constantinopla), o mar Negro (Ponto Euxino), o Bósforo, o mar de Mármara, o estreito de Dardanelos (antigo Helesponto). Desceram pela antiga costa grega e, na tarde do 6o dia, afastaram-se da costa e pernoitaram na pequena cidade de Akhisar. A família ocupou um só quarto.

No meio da noite, o menino Antônio Kadri sentou-se na cama e gritou: "Soldado, não mate Creso!" A irmã notou-o, antes de todos: "Ele está falando! Repita, Antônio!"

O garoto, ainda sentado na cama e olhando a parede em frente, repetiu a frase com desespero, ante a presença de todos: "Soldado, não mate Creso!" A seguir, deitou e dormiu.

O resto da família passou a noite perplexa, em vigília, discutindo como Antônio falara pela primeira vez e por que fizera aquele misterioso e angustiado apelo.

Na manhã seguinte, Osmã pediu ao guia que fosse minucioso so-bre a história daquela localidade. Acabou de persuadi-lo com uma gorjeta extra. O guia dissertou, orgulhoso:

- Esta região, no século VI a.c., era a Lídia, nação de cultura grega, como aliás, todo o
trecho da atual Turquia do oeste, próxima ao mar Egeu. A Turquia é a antiga Ásia Menor. Do centro para leste, havia o império persa, inimigo eterno dos helenos. O último e mais famoso rei da Lídia foi Creso que, segundo a lenda, recolhera do leito do rio Pactolo as areias auríferas, ali deixadas pelo rei Midas, da Frígia (região mais ao norte). Creso era o mais rico dos reis e reinou até 548 a.c.

"546", corrigiu Antônio, preocupado e com uma voz que ainda teria de ser melhorada e afinada.

- Tem razão, 546, concordou o erudito guia. Nesse ano, os persas de Ciro se aproximaram, perigosamente, da fronteira da Lídia. Creso, indeciso, foi à Fócida, consultar o oráculo de Delfos, aos pés do monte Parnaso.

- A pitonisa, como sempre, foi ambígua: "Se Creso atravessa o rio Alis, será destruído um grande império." Creso regressou e, à frente de seus soldados, atravessou o Alis, para enfrentar os persas. Foi derrotado, enquanto Ciro incorporava também a Lídia aos seus domínios. Só então, Creso entendeu que o grande império a ser destruído era o seu.

- A tradição conta, ainda, que Creso tinha um filho mudo, mas que, no instante em que um soldado se preparava para degolar o rei deposto, este menino adquiriu inexplicavelmente a voz e gritou: "Soldado, não mate Creso!"

Tal fato, levado ao conhecimento de Ciro, impres-sionou-o, fazendo-o poupar o famoso rei. Ciro recolheu Creso em famí-lia e fê-lo preceptor de seu filho Cambises.

Terminada a viagem, Antônio se recusou a regressar para Mato Grosso do Sul. Achava que tinha uma missão a cumprir. Desejava estudar Arqueologia em Ankara, para auxiliar nas escavações que se faziam nas antigas Lídia, Frígia e Cária.

Osmã tinha, em Izmir, alguns primos distantes. Consultou-os, temeroso e envergonhado. Mas eles adoraram ficar com o menino.

(dezembro/97)
  

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