Bobby
Luiz Roque é poeta e contista    
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"

A mãe que bateu no portão de Velloso trazia uma criança pela mão. Era um menino de dez anos:

“O seu cachorro mordeu o meu filho. Eu vou denunciar o Sr. por não prender esse animal. Agora, o Pedrinho terá que tomar uma série de injeções, porque eu não sei se o cachorro tem raiva ou não. O menino chegou em casa chorando e agora está com medo das injeções.”

“Minha Sra., eu não tenho cachorro”, explicou-se Velloso. Sua mulher, que se aproximara, trazendo a filha de cinco anos, interveio: “A Karina sempre quis um cãozinho, mas nós não lhe demos, porque achávamos que ele precisaria sair de vez em quando e nós não temos tempo pra isso”.

A mulher do portão insistia em que faria a denúncia. Velloso não quis prolongar a discussão: “Eu levarei o Pedrinho no meu carro todo dia, se preciso for, até o Posto de Saúde.”

“Então, passe lá amanhã: segunda esquina à direita, casa número 167. Eu me chamo Hortênsia”, encerrou a mãe de Pedrinho e, sem se despedir, tomou a mão do filho e partiu, com passos firmes.

Não decorreu uma semana e um pai, trazendo um garoto de uns treze anos, postou-se no portão de Velloso, com o mesmo tipo de reclamação. O menino afirmava que o cão que o mordera tinha saído daquela casa, o pai estava nervoso e custou-lhe acreditar nas afirmações de Velloso.

Este acabou tendo de assumir mais um compromisso, o de levar também o novo reclamante ao Posto de Saúde mais próximo.

O terceiro caso foi mais grave. Um mecânico de automóveis apresentou-se na residência de Velloso com a calça rasgada, afirmando que havia sido mordido às sete da noite. Eram 20 horas.

Velloso, que chegara às 19:45, alarmou-se, porque o mecânico trouxera um policial consigo. Este pediu permissão para revistar a casa.

“Entre e esteja à vontade”, convidou a esposa. “Nada temos a esconder”.

“Ele vai prendê a gente?” Indagou Karina. “Não — informou o pai — só vai ver se temos cachorro.”

“ Vai levar o Bobby?” O policial parou e voltou a cabeça.

“Não, filha, o Bobby é de pelúcia e o guarda procura um cachorro de verdade.”

O policial revistou a casa: todo o quintal, embaixo dos móveis e das camas. Por fim, entrou no quarto de Karina. Bobby estava sobre o leito, com seus olhos de vidro e seu pelame de acrílico. A menina correu e abraçou-o, como proteção.

“Onde o comprou?” perguntou o polícia.

“Na Rua Estácio de Sá, na casa de Umbanda. Era a única coisa aproveitável que havia lá.”

O guarda pensou por alguns instantes e, depois, esboçou um leve sorriso: “Tome conta dele. Prenda ele.” “Mas que coisa ridícula!” indignou-se a mãe de Karina.

“É o que lhe digo”, confirmou o visitante. E deixou a residência, falando ao mecânico que os seus proprietários não haviam mentido.

Velloso pensava: só entrara na loja de artigos religiosos afro-brasileiros, porque vira o cão de pelúcia, que substituiria o pedido da filha. Sentiu-se um tanto ridículo, porque não acreditava em nada daquilo.

Sob o odor do incenso, observou velas, colares, contas, pulseiras, estatuetas de Oxóssi, de Xangô, de Oxalá e também de vários exus.

Perguntou rindo: “Isto é Umbanda ou Quimbanda, é Bem ou é Mal?”

“Depende do objeto”, contestou, com seriedade, um mulato alto e magro, com os cabelos em rabo de cavalo. “Eu quero aquele cachorro de pelúcia” , disse Velloso. O vendedor apenas informou o preço, embrulhou o brinquedo e cobrou.

Passados treze dias da visita do policial, Velloso notou que, certa noite, Karina tentava, inutilmente, dar um bife ao Bobby.

“Ele não que comer” falou ela.

“Mas você tem de entender que ele é apenas um brinquedo”, explicou pacientemente o pai.

“Então como é que ele sai, às vezes?”

“O quê??”

“Ele passa entre os ferros do portão, sai e volta mais tarde”, comentou a criança de cinco anos.

Velloso pegou o cachorro de pelúcia e, dizendo à filha que ia levá-lo passear, colocou-o no carro e partiu. Na ponte Rio-Niterói, lançou Bobby ao mar.

(Julho/99)   
 

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