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2º
Miniconto fantástico inaugurando o Ano Novo - 01/01/2006
O
carma
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos", publicado
pela João Scortecci Editora - 1995
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Era flamenguista. Mas
só a partir de certa idade, começou a perceber que, quando assistia aos jogos
do Flamengo, o time perdia. Quer os visse nos estádios, quer na televisão.
A família, também rubro-negra, levou algum tempo para notá-lo, mas, ao cabo de
alguns anos, convenceu-se de que, nos jogos do Flamengo, era importante
afastá-lo do televisor.
Foi assim que Eduardo desistiu de ver jogar o seu clube predileto.
Comunicou o fato aos amigos que, de início, fizeram certa galhofa com seu "pé
frio". A seguir, procuraram elevar-lhe a auto-estima, afirmando que a crença
numa influência negativa tão poderosa fugia ao mais comezinho raciocínio.
Entretanto, aos poucos, ele foi compreendendo que havia algo mais profundo,
porque, em toda e qualquer competição, a sua facção favorita era derrotada,
desde que ele se achasse entre o público. Sozinho e sem alarde, começou a
procurar as razões do fenômeno.
Voltou-se para o Oriente. Leu Confúcio, Lao- Tsé, o I-Ching, obras sobre
Taoísmo e sobre o Bramanismo.
Certa noite, sonhou que recebia dois deuses da Trindade hindu: Vixnu e Xiva.
Ambos lhe explicaram que os insucessos da sua presença faziam parte do seu
carma. Este vinha com o seu nascimento e lhe cabia aceitá-lo e levá-lo até o
fim da vida.
Eduardo acatou o sonho como uma sentença e, desde então, deixou de presenciar
qualquer atividade competitiva onde o seu coração sugerisse alguma preferência.
Informava-se, depois, a respeito. Lia as notícias, acompanhava os videotapes.
Foi assim, à distância e a posteriori, que ele seguiu alguns dos grandes êxitos
da sua equipe: no campeonato carioca, na Libertadores, em Tóquio.
No ano em que Eduardo completava seu 58° aniversário, o Flamengo teve um dos
melhores desempenhos no Rio de Janeiro. Jogaria a final do campeonato contra o
Vasco da Gama, necessitando tão-somente do empate.
É então que, subitamente, Eduardo resolve enfrentar o carma. Afinal, desta vez,
nem era indispensável a vitória. Contra a opinião da família, vai ao Maracanã.
O Flamengo, desde o início, é bastante melhor. Mas não consegue finalizar.
Erros, goleiro, traves vão salvando o time de São Januário. Este, todo recuado
e jogando no contra-ataque, vai marcando.
Aos 39 minutos do segundo tempo, o placar assina-la 3 x O para os vascaínos.
Parte da torcida do Flamengo já se retira. Eduardo, envergonhado da sua
irresponsabilidade, junta-se a ela e parte também.
Aos 41 minutos, o meia rubronegro centra da direita e o atacante cabeceia, com
precisão, para as redes.
Passado um minuto e cinqüenta, ocorre mais um dos muitos escanteios contra o
Vasco, que, agora, tem os onze na defesa, como soldados guardando uma ponte. O
corner é batido pela esquerda, a bola é rechaçada, mas o lateral flamenguista
chega na corrida e emenda, sem apelação.
A torcida rubro-negra renasce, como fênix. Eduardo escuta os rojões e, por
eles, tenta adivinhar o que acontece.
Aos 46 minutos, o Juiz põe o apito na boca, porém o Flamengo, num ataque
desesperado, sofre pênalti. O árbitro apita... a infração.
Os jogadores cruzmaltinos cercam-no, mas ele se mantém inflexível: "Ainda são
descontos", afirma, sem muita conviccão. Os vascaínos se afastam e rezam. Mas o
meio-de-campo rubronegro corre e empata.
Eduardo sabe do resultado, a caminho de casa.
Abre a porta e se lamenta: "Desculpem-me".
O mais velho observa: "Não há problema, pai. Nós percebemos que você deixou o
estádio por volta dos 40 minutos" .
(Julho/94)
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