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Claussen
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"
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“Então não pode me fazer
a estante de três por dois e meio? Que aconteceu? Não quer mais trabalhar?” riu
Erik.
“Não tenho, no momento,
madeira para ela e, por isso, não poderia entregá-la em duas semanas, como
deseja”, explicou Claussen — “a madeira anda mais difícil nesta região do país.
Mas posso construir uma prateleira menor. Aperte os seus livros nela.”
“Ora, não é a falta de
matéria prima a razão. Você deve andar sem tempo no seu ofício porque o dedica
às suas fantásticas previsões. Não me interessa estante menor.”
“Ninguém descobre o
futuro, Erik. O que me atribuem é tolice. E não fique irritado comigo”, disse
Claussen.
A contragosto, o cliente
aceitou uma estante de dois por dois e se retirou de gorro, capote e botas, sob
a neve. Ultimamente, sempre que conversavam, ele tocava no mesmo assunto,
procurando ridicularizá-lo.
Claussen tinha a única
oficina do tipo naquela fria aldeia sueca do século XIX, um pouco a oeste de
Östersund. Ele não possuía empregados e trabalhava com os dois filhos.
Mas Niels, o mais velho,
estava noivo e já avisara que, quando se casasse, deixaria a marcenaria do pai
e iria trabalhar com os caçadores de alces. Vendiam a carne e a pele em
Östersund.
Claussen tinha boa
saúde, além de músculos e disposição. Mas já estava com mais de 50 anos e
preocupava-se com a perda dos braços fortes e ativos de Niels. Raciocinava que,
se possuísse efetivamente o poder dos áugures, conheceria o seu futuro.
Mas estas coisas fugiam
ao seu controle. No entanto, em três circunstâncias diferentes, Claussen tivera
a intuição dos fatos: Na primeira vez, quando se deu a explosão da mina de
carvão e os grupos de salvamento deram Grundtvig por morto. Claussen afirmou
que ele estava vivo e ferido e exigiu que passassem dois dias procurando-o.
Afirmou na Prefeitura e no Corpo de Bombeiro que, se estivesse errado, pagaria
as despesas do próprio bolso. Em outras palavras, perderia a marcenaria.
Grundtvig foi resgatado com vida e Claussen ficou famoso.
Na segunda vez, quando
Nadja foi acusada de matar o marido e presa, Claussen acreditou em sua
inocência. Defendeu-a, contra todas as evidências e contra as acusações de
Erik. Passados dois meses, a polícia (que tinha seis funcionários) encontrou o
verdadeiro culpado.
No terceiro caso,
Claussen prognosticou a aproximação de grandes quedas de temperatura, no início
do outono, de até 18ºC negativos. Advertiu a população da aldeia e das regiões
vizinhas, que agora já acreditavam bastante nele. O povo preparou suas roupas,
a forragem do gado e seus abrigos protetores. Dessa forma, quando as fortes
nevadas prematuras chegaram, não produziram dificuldades maiores que as
habituais do inverno. Mas na verdade, Claussen duvidava de que tivesse algum
dom e se enervava quando as pessoas o procuravam por bagatelas. Nessas
ocasiões, recusava-se a atendê-las.
Era vítima da antipatia
de Erik, devido ao caso Nadja e também do pastor da aldeia que, com
ingenuidade, o via como um misto de charlatão e concorrente. O marceneiro
pensava em tudo isso, quando o seu cérebro se deteve longamente na pessoa de
Erik, que se afastara.
Haviam decorrido onze
dias desde a visita de Erik, quando a irmã deste apareceu, inesperadamente, na
marcenaria: “Se possível, estou revogando a encomenda que meu irmão fez.”
“Alguma razão especial?”
indagou o marceneiro.
“Ele faleceu há menos de
uma hora. Ao que parece de um violento ataque apoplético. Como o Sr. sabe, não
temos médicos na aldeia, para o atestado de óbito. Virá um talvez, de
Östersund. Nossa velha mãe está começando a informar as pessoas mais próximas.
“Meus sentimentos”,
falou Claussen. “Mais tarde irei ao velório. Posso auxiliá-la em alguma coisa?”
“Sim. Faça-me, até
amanhã cedo, um caixão de classe média, com as dimensões convencionais. Erik
tinha um metro e oitenta e três de altura.”
“Por favor, queira
entrar”, disse Claussen.
No interior da oficina,
a irmã de Erik viu um caixão novo, ao lado do filho caçula de Claussen. “Serve
aquele?”
“Certamente. Mas como é
que o Sr. já o tinha?”
“Eu o construí, em lugar
da estante”, concluiu Claussen.
(Agosto / 99) .
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