O crime e a Mitologia
Luiz Roque é poeta e contista    
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"

Quando Nestor acordou, estava úmido de suor. O sonho fora tão nítido que ele não precisaria recordá-lo de imediato, para não esquecê-lo: na chácara da família, ele tinha visto um homem matar seu pai com quatro tiros.

Seria o caso de pensar que o sonho não trazia novidades porque, realmente, há pouco mais de quatro meses, isso havia acontecido e a mãe tinha explicado que fora a ação de assaltantes. Mas no sonho aparecia um único homem como autor do delito, de fisionomia indecifrável.

Nestor conversou com um psicanalista: os sonhos podem ser reveladores ou premonitórios? O especialista negou:

“A Interpretação dos Sonhos foi o primeiro grande livro de Freud: os sonhos apenas traduzem, numa linguagem simbólica, os seus traumas e preocupações. Enfim, as coisas que o marcaram e os desejos infantis inconscientes. Nestor não se conformou, embora leigo no assunto.

Decidiu “tentar novos sonhos” e até deixou de tomar qualquer benzodiazepínico para dormir, a fim de não alterá-los. Passou, então, a demorar para adormecer. Dormia mal, com um sono entrecortado e povoado de retalhos de sonhos. Na terceira noite, voltou-lhe o tema da morte do pai.

Novamente, havia um só assassino e ele pôde reconhecê-lo: era Clito, o administrador da fazenda. Mas permanecia em mistério a terceira personagem.

Nestor tinha, nessa época, 27 anos e morava sozinho. No trajeto para o trabalho, foi se convencendo de que existia alguma verdade no que lhe sobrevinha em sonhos e resolveu continuar aquela “pesquisa”.

Uma semana depois, o sonho revelava o terceiro participante do drama: parecia uma mulher… sim, era uma mulher… A SUA MÃE! O moço acordou em pânico. Podia ser válida aquela revelação? Um homem baleara seu pai, ante a presença cúmplice da sua mãe?

Era muito doloroso crê-lo. E, afinal, tudo podia não passar de símbolos sonambúlicos de desejos e repressões infantis! Nestor nunca se dera bem com a família e, particularmente com o genitor, oficial da Polícia Militar. Aos 15 anos, abandonou a casa da família, deixando lá Ifigênia, a irmã, que era um ano mais nova.

Foi morar com um amigo, enquanto conseguia os primeiros empregos. O rapaz sentou na cama. Sabia vagamente que a mãe, após a morte do marido, passara a freqüentar o sítio mais amiúde. Dizia que lá, em contato com a natureza, esquecia os problemas da vida e os males da cidade.

Num domingo de inverno, Nestor apareceu inesperadamente na chácara, depois do almoço. A mãe e o administrador conversavam, sentados em frente à lareira. Abraçaram-se. O jovem não pôde evitar um comentário:

“Agora você achou alguém para conversar sem brigar, mãe?”

Ela respondeu, como se não ouvisse:

”À tarde, volto pra São Paulo. Você quer ficar?”

“Não", respondeu Nestor, "retorno com você. Vim sem carro e faz muito tempo que não trocamos algumas idéias.”

“Culpa sua”, observou Helena, a mãe. “Eu sempre lhe telefono, mas em geral, não encontro ninguém.”

Ela possuía, na ocasião, 48 anos, mas conservava muito da antiga beleza. Às quatro e pouco, despediram-se discretamente de Clito e partiram.

Dois quilômetros adiante, Nestor perguntou: “Então, mãe, você fez de Clito seu amante e tramou com ele a morte do papai?”

Helena parou no acostamento. Estava pálida, mas sua voz fluía normalmente. “Todos sabem que ele foi assassinado por três bandidos, porque reagiu. Eu estava presente. Você já viu tudo o que levaram?”

Nestor mentiu: “É inútil vir com essa patranha, mãe. O Décio Leme, vizinho do sítio e meu amigo de infância, contou-me tudo. Disse que não denunciou você, porque detestava o papai. E também porque tem medo do Clito. É melhor que eu saiba antes dos outros, mãe.”

Helena falou (e mostrava calma surpreendente): “Você sabe que há muitos anos, o casamento entre mim e seu pai era uma farsa. Aliás, ele já quase não dormia em casa. Um dia encontrei o amor nos braços de Clito. Seu pai devia suspeitar, mas estava metido com outros interesses. A sua patente estava parada em major, devido a alguns delitos e crimes que envolviam drogas. Então, para subir, ele colocou sua irmã Ifigênia, de 17 anos, na cama de um certo coronel.”

“Como você pode fazer uma afirmação dessas?”

“Primeiramente, porque me foi contado por dois oficiais honestos da PM: o tenente Acácio e o capitão Lesergue. Você os conhece. E mais tarde, quando a Ifigênia estava perdida e viciada em tóxicos, ela mesma me historiou tudo. Agora, com 26 anos, ela está hospitalizada pela terceira vez.”

“E como é que ela foi concordando com isso?”

“É que ela tem um pouco do caráter do pai: viu a possibilidade de ganhar muito e de ser uma estrela. Mas no fim do caminho, achou ruínas.”

“Bem, então, vocês decidiram matar o culpado, não?”

“Nós não”. Helena mastigava as palavras com ódio. “Eu. Eu pedi ao Clito que o matasse.”

Nada mais disseram até o ponto final. Seguiram mudos. Quando o carro, finalmente, parou, Nestor deixava entrever um sorriso leve e triste. Um sorriso distante. Helena indagou-lhe:

“O que você achou no mundo que ainda mereça um sorriso?”

“Conhece a história de Agamenon, mãe? Ele sacrificou a filha Ifigênia, para conseguir ventos, que empurrassem os navios gregos a Tróia. Por isso, ao voltar, foi morto pela mulher e seu amante.”

Helena conhecia a história. Fitou longamente o filho com olhos plenos de suspeitas:

“E você é o Orestes que vai vingar o pai e matar a mãe? Eu não sou Clitemnestra…”

Nestor encerrou:

“Não, mãe. A vingança da vingança? A morte pela morte? Esse não é o meu estilo. Dê-me o endereço de Ifigênia, que vou visitá-la.”

(janeiro/2000) . 

Voltar