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Encosto
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos II"
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Foi a partir dos 25 anos
que Álfio começou a notar o seu contínuo fracasso nas conquistas amorosas. Por
essa época, ele as tentava apenas como passageiras aventuras sexuais, mas,
inexoravelmente, as diligências falhavam.
Quando as jovens não
faltavam, outros fatos inesperados se interpunham e o resultado era sempre a
frustração.
A partir dos 28, começou
a sentir-se sozinho e, daí em diante, suas investidas tinham um propósito sério
e duradouro. Mas, mesmo quando encetava
os primeiros contatos, o relacionamento logo se revelava desastroso.
Álfio deixou de culpar a
própria imagem ou uma suposta inabilidade e começou a crer em outras forças.
Como a família era espírita, foi a um centro dessa religião.
A médium lhe perguntou
se tivera, no passado, alguma namorada, hoje, morta. Sem grande esforço,
lembrou-se: aos 23 anos, havia namorado uma jovem, por pouco mais de duas
semanas; mas, vencido esse período, desinteressara-se dela.
Suzete, que parecia
bastante apaixonada, ensaiara, ainda, diversos contatos com ele. Em vão. Bem
mais tarde, ele veio a saber que ela falecera, no ano seguinte, vítima de uma
estranha moléstia, que os médicos não lograram entender nem debelar.
A médium fez seu
diagnóstico: Suzete permanecia "'encostada" nele e seu amor, obstinado e
extemporâneo, acabava por prejudicar a vida do amado. Havia que instruí-la,
através de passes e orações, de sua nova condição e persuadi-Ia de que sua boa
intenção estava acarretando resultados opostos.
Álfio submeteu-se aos
passes e rezou com fervor, por vários anos. Todavia, seus insucessos amorosos
prosseguiam. Com 33 anos, ocorreu-lhe uma idéia muito próxima do que se costuma
designar por inspiração.
Com grande dispêndio de
trabalho e tempo, localizou a família da morta e, através dela, o cemitério e a
campa onde Suzete se achava.
Dirigiu-se à necrópole,
numa tarde de sexta-feira. Cumprimentou a bela funcionária que o atendeu,
indican-do-lhe o local procurado. Álfio agradeceu e, percorrendo os muitos
caminhos cruzados, típicos dos cemitérios, encontrou o túmulo e ali permaneceu
um longo período, pensando na relação bizarra e misteriosa que poderia haver
entre duas entidades (entidades?) separadas por uma laje de cimento.
Sentiu-se emocionado e
pediu a Suzete que lhe perdoasse os erros e a superficialidade com que tratara
os seus sentimentos. Na verdade, não conseguiu coordenar o raciocínio, desde
que chegou até o momento em que se despediu da morta.
Voltou por aquelas
sendas tranqüilas como a eternidade.
Na saída, dirigiu-se à
funcionária da prefeitura, para despedir-se. Acabaram conversando longamente e
ele explicou-lhe a razão de sua vinda.
Dessa forma, o
expediente da moça chegou ao fim. Álfio se ofereceu para acompanhá-Ia à casa.
No dia seguinte, à noite, foram ao cinema.
(setembro de 1994)
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