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Miniconto fantástico inaugurando o Ano
Novo - 01/01/2006
Os
Três Filhos
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos III", publicado
pela João Scortecci Editora - 1995
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Hélio teve três filhos,
já que houve aborto de um quarto, forçado. O mais velho foi sempre um aluno
displicente, metido com mulheres e companhias duvidosas. Boêmio, irresponsável,
pouco tempo ficou nos poucos empregos que conseguiu.
O do meio teve distúrbios mentais e hostilizava o pai. Vivia num mundo mais ou
menos isolado e, dessa forma, tinha, com Hélio, pouco contato e raros diálogos.
O mais novo, ao contrário dos outros, sempre fora estudioso, trabalhador e
sério. Formou-se com distinção e, logo cedo, alcançou bons empregos e se tornou
independente. Era respeitado e querido pelos amigos.
Hélio dizia à mulher: "Só o último se saiu a mim. Sua aplicação, seu senso de
responsabilidade são os mesmos que me guiaram por toda a vida. Foi o único que
não me decepcionou."
Embora sabendo que gerara os três rapazes, ele concluía: "É o meu único filho.
Os outros dois... são seus."
A esposa chorava com a discriminação. Para ela, todos mereciam o mesmo amor, o
mesmo interesse, a mesma compreensão.
Mas Hélio, implacável, acrescentava: "Como somos casados com separação de bens,
posso fazer um testamento, antes de morrer. Deixo toda a minha parte para o
caçula."
Tanto ele insistia na mesma tecla que, com o tempo, a mulher se conformou com
as idéias do marido e passou a falar em termos de "o seu filho" e "os meus
filhos."
Com 68 anos, Hélio adoeceu misteriosamente e o passar dos me-ses não foi senão
lhe agravando o mal. Finalmente, já passava o tempo todo no leito, pois lhe era
muito penoso deixá-lo. Um dia, chamou a esposa e, com ar grave, pediu-lhe que
se sentasse ao lado.
"Quer fazer o seu testamento?" perguntou-lhe ela, pretendendo anotar a vontade
do marido.
"Ouça-me", começou Hélio, com voz baixa e rouca. "Como você sabe, o mais novo
teve sempre, na vida, um comportamento muito semelhante ao meu. Por isso, ele é
meu filho.
O do meio reflete as minhas neuroses e loucuras, que ele exagerou ou que eu
escondi. Ele representa uma segunda parte do meu cérebro e, assim, é meu filho
também.
O primogênito encarna a boêmia, a "dolce vitta" que tantas vezes me tentaram,
mas que não tive, jamais, a coragem de assumir. Ele corresponde à terceira
parte da minha mente e, portanto, é meu filho, como os outros. Na verdade, os
três completam a minha personalidade, expl-cita ou oculta."
A esposa indagou, curiosa: "E a participação dos meus gens?"
"Está nas variações."
"E quanto ao filho que abortei?
"O destino não lhe permitiu nascer - completou Hélio - "Porque não tinha o que
representar. Seria, no teatro da vida, um figurante sem papel.
A mulher se sentiu feliz. Quanto a Hélio, foi melhorando, rapida-mente, da
enfermidade, a partir desse dia... e desse momento.
(abriI/96)
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