Fio terra
Luiz Roque professor, poeta e escritor
A poesia abaixo está publicada em seu livro "Aldebarã” 

Fio terra

Todos esperam que você esteja cumprindo
o seu papel na vida. Adequadamente.
Você não pode parar no box,
porque encontrou muito tráfego no caminho.
Cada um que o cumprimenta pela manhã
está convencido
de que você soluciona, a contento,
os mil problemas do dia-a-dia.

Como poderia ser de outra forma?
Não vá bater á porta do vizinho da frente,
para informá-lo
dos seus dramas existenciais.
Não seja importuno.
Cabe a você resolvê-los.

Ora, o albatroz voa
dois mil e quinhentos quilômetros,
para alimentar as crias.
Você está preocupado com os filhotes do albatroz?
Também você está só.
Como um epilético que caia em crise,
na rua Direita, às três da tarde.

Procure ser expedito, dedicado, polido.
E (já me esquecia) sorridente.
Não deixe faltar-lhe o sorriso.
E a cada um que encontrar,
diga que você vem de Shangrilá.

Se, finalmente, você achar
que acabará em estado de choque
ou que a fiação da sua cabeça
está velha e desgastada,
não espere trocas ou peças de reposição.

Tome a cerveja da tardinha:
ela será o seu fio-terra.

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