Eu não sei nada
Extraído de Encontro Público em Ojai, California - 2002
Gostaria de começar dizendo que não há nada que você possa fazer a fim de obter o que está procurando.
Quero deixar isto claro no começo, porque tudo mais que tenho a dizer se origina neste reconhecimento. Não há nada que você possa fazer para obter o que está procurando. E de fato, a única coisa que o impede de perceber que você já tem tudo que poderia desejar, e que nada está faltando, é tudo que você faz para obtê-lo.
Pode ser que eu não veja você novamente, e quero ter certeza de que eu disse o que vim aqui para lhe dizer.
Pare. Só por um segundo, simplesmente pare. Simplesmente pare tudo que você está fazendo com o objetivo de alcançar a paz ou a felicidade.
Lembro que quando estava na prisão, um ano mais ou menos depois de conhecer Gangaji, deparei com uma citação de Ramana na contracapa de um de seus livros.
Embaixo da foto de Ramana, estava a seguinte citação:
"A única coisa que se interpõe entre você e a auto-realização é o fato de você acreditar
que não é ainda completamente realizado".
Eu já tinha lido esta frase muitas vezes. Já tinha visto esta citação várias vezes, mas tinha seguido adiante sem realmente compreendê-la. Então, um dia, o choque do que ele estava dizendo me atingiu realmente.
"A única coisa que se interpõe entre você e a auto-realização é o fato de você acreditar
que não é ainda completamente realizado".
Isso é chocante! Isso é uma heresia nos círculos espirituais.
E, enquanto eu procurava a crença de que não sou ainda completamente realizado, cheguei à compreensão de que realmente não tinha idéia do que significa acreditar em algo.
Parece que não é nada além da sua própria enunciação. "Acredito que a terra é redonda." Esta crença não parece se referir a nada além de sua própria enunciação.
Mais tarde, descobri que quase tudo sobre o que eu falava, e tudo que acreditava ser verdadeiro sobre esta vida e esta mente, era fabricado, inventado.
Quando falava essas coisas, eu não fazia a menor idéia do que estava dizendo. "Eu acredito nisto", "Eu sou isto", "Eu não sou aquilo", "Eu te amo", "Eu te odeio". Todas essas coisas não parecem se referir a nada.
Continuando esta investigação a que Ramana me convidara, para meu choque e espanto absoluto, descobri que eu não tinha a menor idéia de a que eu me referia quando dizia "eu".
Ramana oferece esta espada de auto-investigação, que vem até nós sob a forma da pergunta "Quem sou eu?". Mas eu acho que ninguém jamais fez esta pergunta desta maneira; Ramana falava outro idioma e vivia em outro contexto. Porque não pude encontrar nenhuma base para usar a palavra "quem".
Parece que "O que sou eu?" é uma formulação melhor e que, na verdade, "O que é eu?" seria ainda melhor.
Mas, de qualquer maneira, qualquer que fosse a formulação que encontrasse para considerar esta questão e esta oferta feita por Ramana de uma direção para a minha atenção, eu acabava sempre de mãos vazias.
Ainda hoje, acabo de mãos vazias.
Pela minha vida, não posso lhe dizer a que estou me referindo quando digo a palavra "eu". Ela não parece se referir a nada. Seguramente há enganos, e acho que é isso que estou tentando dizer; se a palavra "eu" parece indicar algo, este algo se revela como um engano. Este algo se revela como um objeto, uma experiência, um pensamento, um estado de espírito, uma crença.
E nem sequer sei o que é uma crença. E, que eu saiba, não há nada que responda pelo nome "eu".
Tudo que existe, sem excluir nada, é eu. E, em meus fracassados esforços para determinar a que se referem o conceito de "crença" ou o ato de "acreditar", finalmente compreendi que a prova da existência de uma "crença", embora a realidade do ato de acreditar não possa ser encontrada (pelo menos eu ainda não consegui encontrá-la), é aquilo que estamos fazendo que parece estar baseado em nada mais além de uma crença.
Então, o que percebi é que, talvez, uma maneira mais precisa de se exprimir a chocante e herética sugestão de Ramana é dizer que "a única coisa que se interpõe entre você e a realização absoluta, completa, instantânea e eterna da verdade do ser, seja lá qual for o nome que você usa, é tudo que você faz a fim de alcançar essa realização."
Isto pode ser percebido. Isto você sabe.
Você sabe quando está fazendo algo para atingir um estado, para alcançar esta abertura para a paz e a clareza que é chamada de "realização". Isso é o que pensamos ser a iluminação, o despertar, a auto-realização.
Será que todos nós sabemos de que estamos falando quando dizemos "auto-realização"?
Também percebi, até onde consigo expressar, que realizar é tornar real, manifestar-se, realização é a manifestação da consciência na forma, a qual está aqui e é inevitável.
Não é possível a realização não existir. Ela é isso que você é.
Você é a manifestação da consciência na forma.
É isso que é esta reunião. Isso é o que todos nós somos.
Portanto, descartei a realização como algo que valesse a pena buscar, uma vez que ela obviamente já existe aqui. Na verdade, ela é a própria natureza do ser. A natureza da existência é exatamente a auto-realização.
Quando examinei a questão da iluminação, pensei que talvez pudesse ser algo diferente. Certamente soa como algo diferente. A realização não parece ter uma contraparte, que seria a irrealização (risos).
A iluminação parece ter uma contraparte: escurecimento, ignorância ou algo dessa natureza.
Com certeza todos nós já tivemos experiências de iluminação, isto não é um mistério para nós; se não tivéssemos tido esta experiência, não estaríamos reunidos aqui. Como todos nós, eu tive experiências de iluminação, do rompimento do que parece ser o nó de ignorância que obscurece a pureza, a clareza e a verdade da vida consciente, viva e sempre nova.
Infelizmente, nunca consigo falar dessas experiências senão no passado.
Como posso dizer: "Ah! Estou tendo uma experiência de iluminação?" "Estou experimentando o êxtase da consciência, da sabedoria oceânica?" (Risos)
Sempre que quis falar sobre a experiência da iluminação, vi que tinha de buscá-la no passado, na memória, o que quer que seja isso.
Então decidi que a busca da iluminação não valia a pena.
Parece que estas experiências de beleza, paz, clareza, conexão e unicidade vêm sem ser convidadas, e não são o resultado de nada que eu possa fazer. Tentei provocá-las; já não tentamos todos nós?
Tentei, com todas as minhas forças, provocar essas experiências.
Mas parece que quando elas apareceram foi sempre de surpresa; elas sempre caíram do céu. Então desisti da iluminação. E aconselho você a fazer o mesmo.
Quando reflito sobre a história desta vida, é simplesmente inacreditável que eu possa até mesmo falar de investigação espiritual ou de assuntos espirituais.
De qualquer maneira, o resultado de todas as minhas investigações de natureza espiritual é que eu não sei absolutamente nada. Que eu saiba, não há nada para se saber.
Mas há outra maneira de se dizer isto; pode-se dizer que eu já sou consciência radiante, plena e clara e, por isso, qualquer coisa que eu faça para alcançá-la, na realidade afasta-me dela.
Qualquer coisa que eu faça para tentar buscar o conhecimento e a compreensão da minha identidade, do meu ser, nada mais é do que o próprio sofrimento.
Mas, de certo modo, parece mais simples dizer que não há nada para se saber.
Não há nada a fazer. Se não há nada para se saber e nada para se alcançar (que é exatamente o âmago do que Ramana diz), a única coisa que se interpõe entre você e a auto-realização é a crença de que você ainda não está realizado — exatamente como você é.
E, se isso é realmente verdade, não há nada a fazer. Não há nada a alcançar a não ser aquilo que já está aqui mesmo. Não há nada para se saber a não ser o que já está presente. E isso bem que pode ser a compreensão clara de que não há nada para ser sabido.
Eu não sei quem eu sou. Eu não sei o que sou. Não faço idéia de onde vem esta idéia de "eu". Sei que há pensamentos que respondem pelo nome de "eu", mas eles não podem ser o que quero dizer com a palavra "eu".
"Eu" vejo os pensamentos e, tendo aberto mão de toda a tolice espiritual nesta vida (e também da tolice não-espiritual anteriormente ao surgimento incompreensível de Gangaji em uma prisão federal), descobri que a vida é doce, selvagem e perigosa. E que os esforços da mente para exercer controle sobre isso que é intrinsecamente incontrolável e selvagem são absolutamente insanos.
A única coisa na vida que é segura é a ausência absoluta de qualquer possibilidade de se encontrar segurança. A absoluta impossibilidade de se encontrar um lugar, uma posição a partir de onde viver; de encontrar qualquer ponto de referência.
Sabendo isso, você pode descansar.
© 2002 John Sherman. Todos os direitos reservados.
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