A poça que não queria morrer - III (versão oriental - 14/03/06)

— "Não estou entendendo", respondeu Pocinha.

— "Você é não apenas suas gotinhas, mas também os resíduos de seu leito, os quais são mutáveis, embora pareçam permanentes", respondeu o monge, "e apegar-se às formas coloridas, e condenar a lama, é o fator que cria a noção de uma entidade pessoal a reivindicar continuidade. E isto remexe continuamente suas águas, turvando-as e embaçando sua qualidade maior, que é a de refletir o Universo. "

— "Não entendo mesmo", replicou Pocinha — "sempre considerei o sujeito ao qual você se refere como sendo pré-existente ao apego e à rejeição".

— "Apenas parece ser assim, Pocinha. Esse é nosso maior engano. Se você olhar bem, o sujeito que deseja ou condena surge ao mesmo tempo que o objeto alvo do desejo ou da rejeição."

— "E que acontecerá após minha evaporação?", perguntou Pocinha.

— "As gotas se evaporam, mas os conteúdos prosseguem, sempre em mutação, e vão abrigar-se em outras poças dágua".

— "Sim... compreendo... ", murmurou Pocinha, ao evaporar sua última gota.

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