Emancipação

desmistificando um mito confortável      

Crônica de JC Cavalcanti 

A emancipação da mulher é um tema polêmico, que tende a gerar grandes discórdias entre as pessoas.  Vejamos alguns depoimentos:

— "Nossas avós eram oprimidas por seus maridos. Tinham que obedecê-los em tudo, pois dependiam deles para viver. Não queremos isso para nós. Queremos independência, realização, conquistar nosso espaço", disse Monique, linda jovem, estudante de direito, de aspecto decidido, a bordo de seu carro novo.

— "Só ficar em casa cuidando de crianças é muito chato. O trabalho da casa não é valorizado. Trabalhando fora, distraímos um pouco e ainda temos nosso próprio dinheiro" , disse Etelvina, 32 anos, funcionária de uma empresa de serviços de limpeza que presta serviços para a Prefeitura, enquanto fazia uma pequena pausa na faxina das folhas caídas nas alamedas do Parque Ibirapuera, para fumar um cigarro.

— "Para mim, o fato de poder estudar e trabalhar tem a ver com realizar o potencial criativo da mulher, que ficava oculto em face da repressão e da submissão a outros" , disse Annelise, artista plástica de algum renome, que possui ateliê próprio e obras espalhadas pela cidade.

— "Antigamente, o que os homens ganhavam permitia o sustento do lar, e as mulheres cuidavam da casa e da educação das crianças. Hoje o casal precisa trabalhar duramente para prover o sustento do lar, e as crianças perdem em muito o contato com os pais. As mães estão quase sempre estressadas pelo acúmulo de jornadas, no trabalho e em casa: além de esposas e mães, elas têm que ser funcionárias competitivas, para garantir seus empregos. Para as empresas, porém, a qualificação da mulher para o mercado de trabalho só trouxe ganhos, pois disponibilizou um enorme excedente de mão de obra, que lhes permitiu reduzir os salários" , disse Elizandro, 40 anos, economista.

— "Acho que a emancipação é a liberdade para a mulher. Antigamente, antes de trabalhar fora, meu marido controlava tudo, atá a roupa que eu ia usar, e ainda morria de ciúme. Para conseguir trabalhar foi um custo. Hoje, as coisas mudaram, minha opinião é mais ouvida em casa. Só para pegar condução é que é difícil, os homens só faltam pisar na gente. Acabou o cavalheirismo", disse Luísa, empregada doméstica.

Como se vê, há inúmeros posicionamentos com relação ao tema, cada um abordando a questão por um ângulo, como é comum em todos os assuntos humanos; nós vemos fragmentos das coisas e eles passam a ser a nossa verdade (leia o poema O Elefante).

Certamente, a dependência econômica gera situações de desgaste e opressão nos relacionamentos. Aqueles que detêm o poder econômico tendem a ser autoritários e intolerantes, tratando os demais como inferiores.

Mas, isso é um atributo humano, independente de ser homem ou mulher. Além disso, outras formas de poder (hierárquico, afetivo-sexual, etc.) são igualmente nocivas.

As mulheres, ao despontar profissionalmente em todas as áreas, em inúmeros casos com grande competência e obtendo rendimentos superiores ao dos homens, viram pender a balança para o seu lado como detentoras da "última palavra" nos assuntos do lar.

O lado oculto da moeda do sucesso profissional e financeiro é o desenvolvimento, pelas mulheres, de alguns daqueles famosos atributos masculinos que justamente eram condenados pelas suas ancestrais, como a intolerância, o egoísmo, a prepotência. 

De algumas décadas para cá os homens se encolheram, enormes quantidades deles ficaram desempregados ou sub-empregados, alguns se dedicaram às tarefas do lar, enquanto que, em geral, as mulheres adquiriram confiança e têm demonstrado mais espírito de luta, coragem e ousadia.

Mas, não são poucas as que tendem a desprezar seus companheiros quando estes não têm sucesso profissional.

Antes da ascenção feminina, dizia-se que a própria condição feminina (os longos meses de espera na gravidez, o parto, a amamentação, a menor força física, etc.) haveria de levar maior humanismo às relações profissionais dentro das empresas, maior gentileza e paciência, etc.

Isso leva à seguinte questão: terá o organismo biológico dotado a mulher de características tão diferentes do homem, em termos psicológicos? Seria o emocional da mulher mais benigno, com predominância de sentimentos belos e nobres? Haveria ali intrisecamente mais bondade, solidariedade, humanismo?

"Pelos frutos conhecereis a árvore", disse Jesus. Precisamos, então, com toda a honestidade, responder algumas perguntas:

Uma mulher em posição de poder será "melhor" do que um homem em idêntica posição?

Empresas onde há predominância de mulheres, ou pelo menos um significativo percentual delas, inclusive em posições de comando, apresentam necessariamente um perfil mais humanista?

Ou ali também haverá intrigas, autoritarismo, traições, e todo o vasto repertório de ações e reações típicas da luta pelo poder? 

Recordemos que a sra. Thatcher ( que chegou a ser capa da revista Times, com o título "Nosso homem na Europa" ), quando primeira-ministra da Inglaterra, mandou afundar uma fragata argentina com cerca de 300 jovens a bordo, nas águas geladas da Antártida, durante a guerra das Malvinas. 

A frota britânica, de poderio incomparavelmente superior ao argentino, executou a tarefa com perfeição e assim morreram quase todos os jovens marinheiros argentinos, no alvor da existência.

Um assassinato em massa que a ex-primeira-ministra, com justiça alcunhada "Dama de Ferro", amiga e defensora do sangüinário Pinochet, deve ter comemorado.

Consta que apenas alguns poucos puderam salvos naquelas águas revoltas, no meio dos destroços... e pelos próprios marinheiros ingleses, provavelmente horrorizados ao ver a destruição tão completa e terrível que seus mísseis Exocet fizeram no barco adversário!

Pretender que a mulher seja "melhor" ou eticamente superior ao homem ainda é a velha consciência patriarcal querendo se penitenciar por séculos de opressão à feminilidade.

E é também o mesmo desejo de dominá-las, agora não mais pela repressão, mas pelo afago.

As mulheres não são melhores que os homens.

Tampouco as mães, tão endeusadas pela mídia, são melhores do que os pais.

São diferentes. Mas cada qual possui em si o potencial de todo o bem e de todo o mal.

Somos todos, pais, mães, filhos, homens, mulheres, seres humanos equivocados, egocentrados, vaidosos e — o pior de tudo — sem a menor consciência disso!  Sempre nos achamos certos e plenamente justificados em tudo o que fazemos.

"Estamos todos no trem errado, na trilha errada, indo na direção errada", disse U.G.

Se apenas vislumbrássemos o significado da palavra humildade, ao menos cogitaríamos a possibilidade de que as palavras acima sejam terrivelmente verdadeiras, mas não ousamos: seria um golpe mortal em nossa vaidade. 
 

Emancipação da mulher? Eu não vejo nenhuma, nem do homem tampouco. Tudo isso é matéria para a superficialidade da mídia, perante leitores desatentos.

Para mim, a emancipação seria libertar-nos de nós mesmos,  de nosso orgulho, de nossas concepções da verdade, preconceitos e ideologias. Mas, para isso, precisaríamos primeiro tomar consciência até do mal que inconscientemente fazemos; essa dor, porém, não queremos sentir.

O que vemos é o interesse próprio, a ambição, o desejo de ser e de se impor, disfarçados por argumentos "politicamente corretos", atuando nos mínimos gestos, frases, tons de voz, em nossas ações e reações de cada dia.

Movidos pelo desejo de poder, controlar, possuir, como poderiam os seres humanos se diferenciar em função do sexo?

A regra do ser humano é querer impor-se a outro, influenciá-lo, ou controlá-lo, seja mediante coação econômica, autoridade psicológica, sedução, força física, posicionamento hierárquico, dependência afetivo-sexual, ou qualquer outro meio, dentro do lar ou fora dele.

Entretanto fica muito mais barato, para nossa auto-imagem, condenar o "machismo",  ou o "feminismo", tudo o que estiver fora de nós, para que não precisemos ver, em nós mesmos, as sementes de toda a miséria presente no mundo.  


Crônica de JC Cavalcanti

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